Os planos sionistas para o Líbano

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No debate com Mansur Peixoto no podcast Inteligência Ltda, o presidente da entidade sionista StandWithUs no Brasil André Lajst afirmou “como eu gostaria de imaginar um futuro na minha vida […] que a gente vai ter paz entre israelenses e palestinos. Não vai mais precisar de soldados na Cisjordânia. A gente vai poder pegar o carro em Tel Aviv, ir até Beirute, comer um shawarma e voltar. As fronteiras vão ser abertas e prosperidade e economia e trocas de coexistência vai existir naquela região”. A declaração parece sugerir o sonho de um futuro pacífico nas fronteiras entre Israel, os territórios palestinos e o Líbano. A realidade, entretanto, é que a busca por colonizar não só toda a Palestina, mas mesmo partes do Líbano e outros territórios do Oriente Médio já se encontram presentes na origem do sionismo e continuam ainda hoje se refletindo em movimentos e autoridades israelenses.

O Sionismo, movimento surgido na Europa século XIX com o objetivo de estabelecer um Estado-Nação judeu na Palestina, desde seus primórdios idealizou um projeto colonial que ia muito além das fronteiras atuais do Estado de Israel. Um dos pioneiros do sionismo secular, o jornalista judeu húngaro Theodor Herzl (1860-1904), esboçou algumas linhas territoriais do que deveria ser o Estado Judeu que ele idealizava na Palestina.  Em seu diário em 1896, Herzl mencionou um encontro com o pastor anglicano William Hechler (um notável sionista cristão): “ele desdobrou seus mapas da Palestina e me instruiu por horas a fio. A fronteira norte deveria ser as montanhas de frente para a Capadócia; a sul, o Canal de Suez”. Herzl também registrou em 1898 que havia discutido com o advogado judeu alemão Max Isidor Bodenheimer (1865-1940) a possibilidade de negociar com o Império Otomano (sob intermediação do Kaiser Guilherme II da Alemanha) uma porção de terra para assentar colônias judaicas que viabilizassem a futura criação de um Estado Judeu: “Discuti com Bodenheimer as exigências que faremos. Área: do Riacho do Egito ao Eufrates”.

Embora não abordasse seu plano de estabelecimento de um Estado judeu por meio da conquista militar, Herzl deixava implícito que seu ideal de colonização implicaria na remoção de parte da população árabe local. Ele havia proposto em seu diário em 1895 uma transferência populacional através de pressão econômica: “Tentaremos levar a população sem recursos para o outro lado da fronteira, conseguindo empregos para ela nos países de trânsito, enquanto negamos qualquer emprego em nosso próprio país […] a expropriação e a remoção dos pobres devem ser realizadas com discrição e cautela”.

Várias lideranças sionistas após Herzl também sustentaram um Estado judeu dentro de fronteiras que contemplassem partes do Líbano e outras regiões do Oriente Médio. Na Conferência de Paz de Versailles de 1919 (que pôs fim à Primeira Guerra Mundial), a Organização Sionista Mundial solicitou que as fronteiras da Palestina sob mandato britânico (onde pretendiam fundar o Estado judeu) deveriam compreender “a região ao sul de Sídon e as linhas divisórias das encostas do Líbano”. Em 1947 o Rabino Yehuda Fishman Maimon (1875-1962), membro do movimento sionista religioso Mizrachi, declarou ao Comitê Especial da ONU para a Palestina (que então avaliava um plano de partição da região entre árabes e judeus) que e terra prometida por Deus aos judeus se estenderia do rio Nilo ao rio Eufrates, o que compreenderia partes da Síria e do Líbano. David Ben Gurion (1886-1973), líder dos sionistas trabalhistas e fundador do Estado de Israel em 1948, acreditava que o rio Litani (que banha o sul e o leste do atual território libanês) deveria ser a fronteira natural do norte de Israel, devendo ser colonizada por judeus. Sionistas seculares e sionistas religiosos apresentavam motivos diferentes para a ocupação do território libanês: os primeiros argumentavam a partir da necessidade de obtenção de recursos naturais e defesa militar enquanto os segundos sustentavam sua ideia em interpretações de passagens bíblicas como Gênesis 15:18 e Deuteronômio 11:24.

Após a criação do Estado de Israel 1948 e sua vitória nas guerras de 1948 e 1967 sobre as nações árabes vizinhas, houve uma expansão dos territórios que foram anexados (como parte da Galileia, o Negev e Jerusalém Ocidental) ou ocupados militarmente (Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental) pelas forças israelenses, mas naquele momento não foram ocupados territórios ao longo do rio Litani.

Israel invadiu o Líbano seis vezes: em 1978 e 1982 sob pretexto de combater militantes da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) que operavam a partir da fronteira libanesa; e em 1993, 1996, 2006 e 2024 sob a alegação de atacar posições do Hezbollah. O discurso oficial das autoridades israelenses faz parecer que essas operações eram apenas defensivas, mas elas omitem o fato de que a OLP surgiu dentre populações palestinas expulsas de suas terras pela expansão territorial de Israel e o Hezbollah se formou como resposta à agressão militar israelense em terras libanesas. Um olhar para o histórico das guerras movidas por Israel, contudo, aponta para um padrão de conquista, ocupação e colonização de áreas tomadas de outras nações vencidas em combate, sem respaldo no Direito Internacional vigente.

Logo após o 7 de outubro de 2023, Israel atacou com artilharia e força aérea as posições do Hezbollah no sul do Líbano. Em 27 de setembro de 2024, um bombardeio aéreo israelense matou o líder do Hezbollah, Hasan Nasrallah. No mês seguinte a IDF invadiu o território libanês por terra. As ações de Israel em Gaza e no Líbano desde então têm alimentado o desejo de grupos sionistas de colonizar ambas as regiões com assentamentos judaicos. Em março de 2024 foi criado o movimento Uri Tzafon (“desperta, ó, Norte!” em hebraico), composto de sionistas religiosos judeus que defendem o estabelecimento de colônias judaicas no sul do Líbano. Os membros do Uri Tzafon defendem que “A fronteira entre Israel e Líbano é uma fronteira colonial ridícula” e “o que é chamado de ‘sul do Líbano’ […] é, na verdade, simplesmente o norte da Galileia”.

Dentre as estratégias do Uri Tzafon estão a divulgação de suas ideias por meio de grupos de WhatsApp (onde chegam a sugerir novos nomes em hebraico para substituir nomes de cidades libanesas), divulgação de cartazes e outdoors pedindo pela colonização do Líbano, protestos presenciais, retiros de Shabat próximos à fronteira libanesa e conferências virtuais. A primeira conferência virtual do Uri Tzafon em junho de 2024 foi amplamente divulgada na imprensa de Israel, ganhando notoriedade bem como o apoio do parlamentar de direita israelense Moshe Feiglin. Em um de seus protestos, o grupo chegou a enviar drones e balões para o território libanês com ameaças aos civis: “Cuidado! Esta é a Terra de Israel, que pertence aos judeus. Vocês devem evacuá-la imediatamente”. O modelo de colonização do Uri Tzafon não é a Cisjordânia, onde colonos israelenses ainda vivem em meio à presença da população palestina, mas as Colinas de Golã, que Israel tomou da Síria na guerra de 1967. Em Golã não só houve somente a implantação de assentamentos israelenses, mas também a completa remoção da população síria local. 

Dentre as autoridades israelenses, também é comum um discurso de relativização da soberania das fronteiras libanesas. O parlamentar israelense Avigdor Lieberman (que ocupou o cargo de ministro da defesa entre 2016 e 2018), defendeu em janeiro de 2024 que Israel deveria ocupar por 50 anos o sul do Líbano até as margens do rio Litani como uma “zona tampão” contra o Hezbollah. Em 21 de setembro de 2024, o então Ministro dos Assuntos da Diáspora de Israel Amichai Chikli afirmou em seu perfil na plataforma X que “O Líbano, embora tenha uma bandeira e instituições políticas, não se enquadra na definição de país” e que Israel precisaria “recalcular o rumo em relação à linha de fronteira com a entidade que se autodenomina Estado do Líbano”. Recentemente, em março de 2026, o Ministro da Defesa israelense Israel Katz ameaçou tomar o Líbano caso o país não controlasse o Hezbollah. As declarações do Ministro das Finanças Bezalel Smotrich em 23 de março de 2026 em um programa de rádio israelense foram ainda mais longe: “Digo aqui, de forma definitiva… em todas as salas e em todas as discussões também: a nova fronteira israelense deve ser o [rio] Litani”.

É verdade que, até o momento, nenhuma autoridade israelense tenha sugerido a colonização do sul do Líbano nos moldes que o grupo Uri Tzafon. Entretanto, conforme alertam estudiosos, o movimento de colonos da Cisjordânia também surgiu de forma marginal após a guerra de 1967 e mesmo assim o Estado de Israel foi posteriormente legalizando e mesmo incentivando a construção de assentamentos coloniais nos territórios palestinos ocupados. Uma ocupação do sul do Líbano pela IDF com reprovação unicamente retórica da comunidade internacional, poderia abrir caminho para uma colonização definitiva da região e até mesmo o êxodo da população local. Prova disso são as recentes ordens de evacuação emitidas por militares israelenses contra a população civil da periferia de Beirute e de mais de 100 cidades e vilarejos do sul do Líbano. Longe de ser uma estratégia bélica temporária, o aumento das incursões israelenses e o deslocamento forçado da população civil iniciados em março de 2026 são uma mera consequência dos históricos planos sionistas de ocupação do Líbano.

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