Os túneis do “terrorismo judaico”

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Durante a Segunda Guerra Mundial, judeus no Gueto de Varsóvia construíram túneis embaixo de estruturas civis como forma de resistência contra os exércitos nazistas. Contudo, na historiografia e na moralidade contemporânea, jamais se utiliza o fato de que “judeus operavam debaixo de estruturas civis” para justificar ou atenuar a brutalidade da destruição e do Holocausto perpetrado pelos nazistas, nem para transferir a culpa do genocídio para as vítimas que se escondiam. Hoje, esse mesmo cenário tático é utilizado para legitimar bombardeios massivos em áreas densamente povoadas como Gaza, sendo inclusive um dos argumentos que justificam a truculência e a desproporcionalidade do exército israelense sobre o povo palestino.

Um combatente da resistência judaica sendo forçado a sair de um bunker, maio de 1943.

A resistência judaica contra a ocupação nazista na Europa Oriental, especialmente na Polônia, diante da inevitabilidade do extermínio, organizou grupos que, notadamente a Organização Judaica de Combate (ŻOB) e a União Militar Judaica (ŻZW), desenvolveram uma complexa infraestrutura subterrânea, verdadeiros túneis de resistência. Enfrentando o horror sem precedentes do nazismo, o isolamento total e uma inferioridade militar colossal, esses grupos perceberam que a dimensão subterrânea — composta por bunkers, túneis e sistemas de esgoto — era sua única esperança para operações de resgate ou para travar uma batalha com o mínimo de chances de sobrevivência contra um inimigo infinitamente mais poderoso.

No Gueto de Varsóvia, a preparação para o conflito armado envolveu a construção de uma verdadeira cidade subterrânea. A União Militar Judaica (ŻZW), em particular, demonstrou um planejamento militar avançado ao construir bunkers fortificados e conectados. Diferentemente de simples esconderijos, essas estruturas eram equipadas com eletricidade, água e passagens que levavam ao lado nazista, permitindo o contrabando de armas e suprimentos. A liderança da ŻZW compreendeu que, para sustentar uma guerra urbana contra a Wehrmacht (as forças armadas do Reich), era crucial manter a liberdade de movimento por meio desses túneis.

Embora servissem também para propósitos defensivos, as redes subterrâneas foram utilizadas para operações ofensivas e furtivas, incluindo a minagem de locais estratégicos. A ŻOB utilizou a escavação de túneis para preparar emboscadas contra as forças alemãs. Um exemplo foi a ordem dada para cavar um túnel de 20 metros a partir do posto de comando da ŻOB até um portão de entrada do gueto, onde foi colocada uma mina. O objetivo era detonar explosivos à distância para interromper as deportações e atacar os nazistas de surpresa, adotando verdadeiras táticas de guerrilha para sobreviver.

É fundamental notar que, aos olhos dos nazistas, esses combatentes não eram soldados, mas sim bandidos e terroristas. Para consolidar a resistência interna e eliminar a colaboração, grupos como a ŻOB executaram ações punitivas letais contra a própria comunidade, incluindo o assassinato de Jacob Lejkin, vice-comandante da Polícia Judaica, e de Yisrael First, oficial do Conselho Judaico (Judenrat), acusados de colaboração com os nazistas. A organização chegou a estabelecer uma prisão clandestina para deter e executar traidores, além de realizar a expropriação forçada de fundos do Judenrat para financiar a compra de armas, emitindo avisos de que medidas drásticas seriam aplicadas com severidade máxima contra quem cooperasse com o invasor.

Além da eliminação de colaboradores, a resistência precisou recorrer a métodos coercitivos para financiar sua luta. Marek Edelman, um dos líderes da ŻOB, relatou que a organização pressionou habitantes e expropriou fundos da autoridade de abastecimento do Conselho Judaico para comprar armas no lado ariano, arrecadando milhões de zlotys (moeda polonesa) por meio dessa pressão interna sobre outros membros da comunidade judaica. Para os alemães, essas ações eram crimes cometidos por bandidos e “sub-humanos”, termos usados explicitamente nos relatórios oficiais do General Stroop para desumanizar os combatentes e justificar a brutalidade da repressão, enquadrando a resistência judaica como uma ameaça à ordem pública que precisava ser erradicada.

A tensão culminou no Levante do Gueto de Varsóvia, iniciado em 19 de abril de 1943. Quando as tropas alemãs entraram no gueto, esperando uma liquidação rápida, foram surpreendidas por uma resistência feroz que utilizava o terreno urbano e a infraestrutura preparada. As unidades de combate judaicas, posicionadas em locais estratégicos como a esquina das ruas Zamenhof e Miła, atacaram colunas de infantaria e até tanques com coquetéis Molotov e granadas. A capacidade de atacar e recuar rapidamente para a segurança dos edifícios e túneis permitiu que os combatentes judeus, embora mal equipados, infligissem baixas e forçassem a retirada inicial das tropas alemãs.

Membros da resistência capturados pelo exército nazista, abril de 1943.

O general da SS Jürgen Stroop, percebendo que não poderia derrotar os combatentes judeus por meio de combates convencionais devido à sua mobilidade e aos seus esconderijos, ordenou a destruição sistemática do gueto. A estratégia adotada foi queimar os edifícios bloco por bloco, transformando o gueto em um mar de chamas para forçar os judeus a saírem de seus bunkers devido ao calor insuportável e à fumaça. Como relatou o sobrevivente Marek Edelman, não foram os soldados alemães que venceram os combatentes, mas sim as chamas que consumiram o oxigênio e tornaram a resistência insustentável.

Bloco residencial em chamas, 1943.

À medida que os bunkers se tornavam armadilhas contra seus próprios construtores, os esgotos de Varsóvia passaram a assumir o papel de última via de comunicação e fuga. Embora os combatentes da ŻOB não tivessem preparado planos de retirada inicialmente, a rede de esgotos tornou-se essencial para a sobrevivência de alguns grupos. No entanto, as condições eram atrozes e a navegação, difícil. Em 8 de maio, o bunker de comando na Rua Miła 18 foi descoberto e atacado com gás venenoso, levando ao suicídio de muitos líderes, incluindo Mordecai Anielewicz. Aqueles que conseguiram escapar fizeram-no por meio de passagens ocultas e esgotos, muitas vezes guiados por membros da resistência que conheciam o caminho.

O levante foi finalmente esmagado em meados de maio de 1943, resultando na destruição total da área do gueto. Como símbolo de sua vitória sobre a resistência judaica, Stroop ordenou a detonação da Grande Sinagoga de Varsóvia. O relatório oficial alemão contabilizou a captura ou morte de mais de 56.000 judeus e a destruição de 631 bunkers. A resposta nazista foi, a grosso modo, a obliteração completa da infraestrutura civil e habitacional, transformando o bairro judaico em ruínas e escombros, uma punição coletiva pela audácia da revolta.

Grande Sinagoga de Varsóvia, destruída em 1943. Foto da década de 1910.

Analisando a estratégia dos combatentes do gueto sob a ótica da guerra assimétrica, observa-se que o uso da dimensão subterrânea é uma característica intrínseca de atores não estatais (como guerrilhas) que enfrentam forças convencionais superiores. Forças inferiores, ao longo da história, utilizaram cavernas, túneis e bunkers não apenas como refúgios, mas como bases de frente para lançar ataques surpresa.

Ao traçar um paralelo contemporâneo com o Hamas e a Faixa de Gaza, podemos perceber claramente a hipocrisia de certas narrativas ocidentais e israelenses. As táticas empregadas pelos judeus em Varsóvia são celebradas no Ocidente como o auge da coragem e da dignidade humana diante da opressão. No entanto, quando táticas idênticas de guerra assimétrica e subterrânea são empregadas por grupos palestinos contra uma ocupação militar tecnologicamente superior, são frequentemente condenadas como terrorismo covarde, deslegitimando a resistência armada baseada na disparidade de poder de fogo.

Isso não significa, evidentemente, legitimar o Hamas como grupo de resistência, o que, aliás, sequer constitui o objeto deste artigo. Trata-se de algo mais elementar: questionar a deslegitimação automática de táticas de sobrevivência que já foram empregadas por diversos atores históricos e que, à época, foram condenadas não por supostos guardiões dos direitos humanos, mas por alguns dos regimes mais sanguinários da história.

Nesse contexto, a narrativa ocidental concentra-se sobretudo em desqualificar os próprios métodos de resistência, muitas vezes os únicos viáveis diante das circunstâncias impostas, de modo que qualquer grupo que venha a surgir já nasce previamente deslegitimado. Voltemos ao contexto da Segunda Guerra.

Por fim, a resposta alemã de arrasar Varsóvia, bombardeando indiscriminadamente edifícios civis para atingir combatentes e túneis, foi julgada pela história e pelos tribunais internacionais como crime de guerra e crime contra a humanidade. Contudo, a doutrina militar israelense moderna em Gaza, que envolve a destruição massiva de infraestrutura civil sob o pretexto de neutralizar túneis inimigos, muitas vezes recebe justificativas diplomáticas e militares do Ocidente que não foram concedidas aos alemães. A história da resistência judaica demonstra que o “terrorista” de um é o “combatente da liberdade” de outro, e que a condenação moral das táticas de guerrilha subterrânea frequentemente depende de quem detém a hegemonia narrativa, e não da tática em si.

Referências:

HENRY, Patrick (ed.). *Jewish Resistance Against the Nazis. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 2014.

USHMM. Warsaw Ghetto Uprising. Washington, DC: United States Holocaust Memorial Museum.

ZOHAR, Eran. Jewish subterranean operations in major east European ghettos. Holocaust Studies, v. 26, n. 1, 2018.

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