Chittaprosad, o artista que Winston Churchill tentou silenciar

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Com um traço muito característico, Chittaprosad Bhattacharya (1915-1978) usou sua arte contra a opressão colonial britânica na Índia. Em um período de intensa turbulência nos meados do século XX, ele não se contentou em ser um mero espectador das tragédias de seu tempo. Pelo contrário, assim como inúmeros artistas antes e depois dele, mergulhou no epicentro do sofrimento humano para dar voz aos silenciados e oprimidos, usando seu pincel para expor as injustiças que o poder imperial tentava ocultar. 

O evento central que motivou sua obra mais conhecida foi a Fome de Bengala de 1943. O desastre humanitário causou a morte de aproximadamente três milhões de pessoas e é atribuído a uma combinação de fatores, especialmente políticas de guerra britânicas que levaram à inflação e à escassez de alimentos para a população local. A crise gerou uma profunda desestruturação social, com a desintegração de famílias e a migração em massa de populações rurais empobrecidas para cidades como Calcutá.

Fome de Bengala em 1943: Crianças mortas e moribundas em uma rua de Calcutá, publicado no Statesman em 22 de agosto de 1943.

A fome não impactou a população de forma uniforme, afetando principalmente os grupos sociais mais vulneráveis. O economista Amartya Sen destacou que a causa da fome não foi a falta de alimentos em si, mas a impossibilidade de acesso a eles por parte de determinados setores da sociedade. Trabalhadores agrícolas, pescadores e membros de castas inferiores, como os dalits, foram os mais prejudicados. A inflação e a requisição de recursos para o esforço de guerra britânico tornaram os alimentos inacessíveis para quem não tinha poder de compra.

Foi nesse contexto que Chittaprosad se engajou politicamente. Na década de 1930, enquanto estudava em Chittagong, ele se opôs ao domínio britânico e à exploração por parte das elites locais. Em 1940, filiou-se ao Partido Comunista da Índia (CPI), passando a atuar como artista para as publicações do partido. Ele foi um dos pioneiros no uso da arte como reportagem visual em jornais como o People’s War, criando material que criticava o colonialismo e o fascismo.

Chittaprosad Bhattacharya.

Em 1943, o CPI o encarregou de documentar os efeitos da fome em Bengala. Ele viajou para distritos severamente afetados, como Midnapore, onde realizou entrevistas e registrou o que via. Seu método de trabalho combinava anotações detalhadas com desenhos a tinta, criando algo que aparecia tanto como registro jornalístico quanto como expressão artística.

O resultado desse trabalho foi a publicação Hungry Bengal (Bengala Faminta). O livreto reunia 22 de seus esboços e relatos, servindo como uma denúncia explícita contra as autoridades. Uma característica importante de sua abordagem foi a individualização das vítimas. Em vez de retratar uma massa anônima, ele identificava seus sujeitos com nomes e descrições, como no caso de Rabi Raut, um menino camponês que ele descreveu como “faminto, doente e praticamente nu”.

Capa do livreto de Chittaprosad.

A publicação gerou uma forte reação do governo britânico, liderado por Winston Churchill. As autoridades baniram Hungry Bengal e ordenaram a apreensão e queima de cinco mil cópias. A medida de censura foi quase totalmente bem-sucedida, com apenas uma cópia conhecida por ter sobrevivido, que o artista havia enviado para sua mãe. Esse ato de repressão confirmou o impacto que a obra de Chittaprosad teve sobre a narrativa oficial da fome.

A eficácia da arte de Chittaprosad vinha de seu estilo direto e expressivo. Ele utilizava contornos grossos e marcados para desenhar os corpos emaciados e as expressões das pessoas. A combinação de imagens realistas com notas escritas resultou em um formato de reportagem visual que comunicava a urgência da situação, sem idealizações ou invencionices. Sua técnica servia ao propósito de documentar e criticar, sendo uma denúncia retratada artisticamente.

Uma das ilustrações de Chittaprosad retratando a fome em Bengala.

Após a guerra e a independência da Índia, Chittaprosad continuou a produzir, embora agora com outro foco. Ele se distanciou do Partido Comunista no final da década de 1940, mas manteve um viés político em seu trabalho. Seus temas passaram a incluir imagens de resistência, com camponeses retratados de forma heroica. Com o tempo, ele também passou a explorar a pintura colorida e temas do cotidiano, como paisagens e naturezas-mortas.

O trabalho de Chittaprosad Bhattacharya é significativo por ter usado a arte como um meio de documentação e crítica em um dos momentos mais relevantes da história indiana. Ao interagir diretamente com as pessoas afetadas pela fome e não apenas uma imaginação de como ela seria, ele produziu um registro visual que desafiava a narrativa oficial do governo britânico que tentava ocultar um dos maiores crimes do século XX. 

Referências:

GUIN, Anuska. The Bengal Famine of 1943: Chittaprosad Bhattacharya and Political Art. Indigenous Web, 2022. Disponível em: <https://indigenousweb.com/blog/chittaprosad-bhattacharya-political-art/>. Acesso em: 11 dez. 2025.

PRINSEPS. The Art And Activism Of Chittaprosad. Prinseps. Disponível em: <https://prinseps.com/research/the-art-and-activism-of-chittaprosad/>. Acesso em: 11 dez. 2025.

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