História Islâmica

Yussef Ibn Naghrillah e a tentativa de criar um Estado judaico na Espanha medieval

É comumente veiculada a ideia de que não-muçulmanos no mundo islâmico medieval seriam “cidadãos de segunda classe’’, porém, talvez nenhum destes cidadãos de ‘’segunda’’ teve mais classe do que Samuel ibn Naghrillah.

Nascido em Mérida no ano de 993, Samuel adquiriu erudição em sua juventude em diversas áreas, sendo a principal delas as ciências talmúdicas, mas também sendo um versado fisiologista e gramático dos idiomas árabe e hebraico.

Após concluir seus estudos, ele se mudou para o centro de al-Andalus, a magnífica Córdoba. No entanto, a guerra civil no rescaldo da dissolução do Califado Omíada ibérico pelos descendentes de al-Mansur em 1009 viu o desmantelamento da ordem política, e diversos clãs berberes guerreiros tomaram a cidade em 1013, saqueando-a, e dando início a uma guerra civil que gerou milhares de refugiados bem com fez surgir as primeiras Taifas, ou os “reinos’’ islâmicos ibéricos independentes, que competiam entre si por supremacia na Península. Agora, al-Andalus era uma terra de oportunidade para quem soubesse aproveitar, pois as muitas cortes desses pequenos estados precisavam de guerreiros e homens das ciências para adorna-las. Um dos “oportunistas’’ da época não foi ninguém menos que o próprio EL Cid, porém, isso é tema para uma outra história.

Samuel se estabelecendo em Málaga na Taifa de Granada sob os emires zíridas, abrindo para si uma loja de especiarias. Suas relações com a corte real zirida e sua eventual promoção ao cargo de vizir aconteceram por acaso. A loja que ele montou ficava perto do palácio do vizir de Granada, Abu al-Kasim ibn al-Arif, que frequentando o estabelecimento do mercador judeu, se impressionou com sua erudição, e o contratou como coletor de impostos.

Na corte zirida, Samuel demonstrou suas altas capacidades, e foi promovido a secretário, e logo a vizir do emir Habbus al-Muzaffar, tornando-se o segundo homem mais poderoso do reino. Quando Habbus morreu em 1038, Samuel ibn Naghrillah planejou para que o segundo filho do rei, Badis, o sucedesse, sendo ele agora a decidir o destino dos ziridas. Em troca de seu apoio, Badis al-Muzaffar nomeou Samuel ibn Naghrillah seu vizir e principal general, comandante supremo de suas tropas.

Samuel estabeleceu para si uma corte própria, e um vistoso palácio de incrível esplendor, que poderia rivalizar com o de qualquer emir muçulmano em al-Andalus ou dos pobres reinos cristãos ao norte. Adotou para si o título de “nagid’’ ou “príncipe’’ dos judeus da ibéria. De sua corte na Taifa de Granada, ele tornou-se o maior patrono do judaísmo na europa, e fez a comunidade judaica ali florescer como uma das mais poderosas e proeminentes do mundo, promovendo e financiando o reavivamento da cultura hebraica, bem como a produção de cópias do Talmud e diversos outros livros judaicos. Samuel buscou ativamente afirmar sua independência dos geonim babilônios, da corte abássida em Bagdá, escrevendo de forma independente sobre a lei judaica para a comunidade sefardita.

Além de exímio estrategista militar que liderou os exércitos ziridas em diversas vitórias por 17 anos contra os outros reinos taifa muçulmanos como Sevilha e Almeria, Samuel foi um dos mais famosos poetas hebreus da Idade Média, alguns de seus livros sobreviveram até hoje. Ele estabeleceu um novo estilo de poesia hebraica, aplicando aspectos da poesia árabe ao hebraico bíblico. Contudo, o príncipe dos judeus da Ibéria veio a falecer em 1056, deixando um dos mais curiosos legados da história: o príncipe-vizir judeu de uma corte muçulmana, que comandava muçulmanos contra outros generais judeus de outros reinos muçulmanos. Uma das singularidades de al-Andalus.

Ele foi sucedido no cargo de vizir e nagid por seu filho, o não menos erudito Yusuf Ibn Naghrillah, que passou a atuar na corte de Badis. Yusuf queria continuar o legado de seu pai, porém não só como príncipe dos judeus da Ibéria, atuando a sombra de um rei muçulmano, tendo que constantemente lidar com intrigas de rivais na corte que queriam derrubá-lo, mas como soberano de um reino independente, sua própria “taifa judaica.’’ Para isso, Yusuf Ibn Naghrillah conspirou com o arqui-inimigo dos ziridas de Granada, Ibn Sumadih, rei da Taifa de Almeria.

Em dezembro de 1066 o plano fora traçado. Ibn Sumadih invadiria a cidade com o exército, a tomaria como quisesse, passando seus habitantes ao fio da espada, e depois a entregaria a Yusuf, que então estabeleceria seu reino, que não seria hostil a Almeria.

Tudo parecia bem. o emir Badis estava deprimido e fraco demais para reagir, em luto pela morte de seu filho Buluggin, que fora, segundo algumas fontes, secretamente envenenado por Yusuf numa festa que realizara em seu palácio. Entretanto, quando as forças de Ibn Sumadih chegaram à Granada e viram os portões fechados e as altas muralhas bem guarnecidas, se deram conta de que o plano feito pelo nagid havia sido descoberto de alguma forma, e então foram embora.

Em seu palácio, Yusuf Ibn Naghrillah festejava com seus cortesãos numa celebração regada a música, banquete e vinho, se gabando dos cargos que daria a cada um deles assim que fosse rei. Ele chamou um de seus escravos negros para junto de si, e de modo irônico, falou do alto posto que o daria. O servo, chocado com a audácia do vizir, saiu gritando em pânico: “O judeu traiu al-Muzzafar! Ibn Sumadih está prestes a tomar a cidade!’’ Ouvindo os gritos de alerta, uma turba enfurecida adentrou o palácio do nagid, matando muito dos ali presentes, e nem a chegada de Badis conseguiu colocar as coisas em ordem. Yusuf,acabou sendo morto pela turba, enquanto tentava fugir sorrateiramente.

Numa sanha de vingança, o bairro judeu de Granada também foi atacado pela turba, pois acreditava-se que, tal qual seu príncipe, os demais judeus também conspiravam para que os almerienses invadissem a capital zirida, e matassem sua população. Casas foram saqueadas, a rica comunidade judia pilhada, muitos foram mortos, no primeiro massacre de judeus na até então pacífica convivência que havia em al-Andalus. E o príncipe, filho do sábio mercador que queria criar para si e seu povo um reino, foi o causador de sua destruição.

Como um adendo, o sucessor de Yusuf no cargo de vizir, seu rival na corte de origem africana al-Naya, planejando também para si a tomada do poder no reino zirida, foi assassinado por seu cortesão, o cristão moçárabe Wasil de Guadix, que o atravessou com uma lança.

Todo este poderio politico dos não-muçulmanos nas cortes das taifas, que quando no poder começavam a conspirar por seus próprios interesses a despeito do de seus soberanos muçulmanos, fazendo eco ao verso do Alcorão: “Ó fiéis, não tomeis por aliados os judeus nem os cristãos; pois são aliados entre si.” (5:51), pode ser uma das razões que explique a menor tolerância dos almorávidas para com estes em sua corte, que chegariam e tomariam todas as taifas 19 anos depois, em 1086.

Alguns historiadores especulam que além dos livros e poesia, um dos legados que chegaram até nós da curta dinastia dos Naghrillah foi a famosa Fonte dos Leões no Palácio de Alhambra em Granada, que teria sido originalmente tirada do palácio de Samuel e Yusuf quando estes reinavam sobre a cidade no tempo dos ziridas.

Bibliografia:

-Brian A. Catlos (2015), “Infidel Kings and Unholy Warriors”

-Marcus, Jacob Rader. “59: Samuel Ha-Nagid, Vizier of Granada.” The Jew in the Medieval World: A Source Book, 315-1791. Cincinnati: Union of American Hebrew Congregations, 1938. 335-38.

-Stillman, Norman A. The Jews of Arab Lands: A History and Source Book, The Jewish Publication Society of America,1979. 56

-Abba Solomon Eban,Heritage: Civilization and the Jews, Simon & Schuster 1984

-Ian Almond (2011)Two Faiths, One Banner: When Muslims Marched with Christians across Europe’s Battlegrounds

Equipe História Islâmica

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