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Yasuke, o Samurai Muçulmano

Seu passado pouco é conhecido, mas de acordo com o missionário jesuíta François Solier em seu livro Histoire Ecclesiastique Des Isles Et Royaumes Du Japon de 1627-9, Yasuke era um “mouro infiel” (muçulmano) de Moçambique que chegou ao Japão em 1579 a serviço como pagem do missionário jesuíta napolitano Alessandro Valignano (1539 – 1606), enviado para supervisionar as atividades do missionarismo católico no Oriente distante. O nome pelo qual ficou conhecido na Terra do Sol Nascente talvez seja uma derivação dos nomes arábicos “Yasufe” ou “Ishaque”, na pronúncia dos macuas, tribo moçambicana da qual sua origem é traçada.

Não há um retrato confirmado de Yasuke desenhado por um contemporâneo. Kanō Eitoku era um distinto pintor patrocinado por Oda Nobunaga e teve uma audiência com Oda quando Yasuke o serviu. A escola Kanō era famosa por seus Nanban byōbu, e há pelo menos um byōbu representando um homem negro bem vestido que poderia ser Yasuke. Uma caixa de tinta feita pelo artista Rinpa em 1590 pertencente ao Museu do Caramulo retrata um homem negro que usa roupas de alta classe que não parece mais subordinada aos portugueses. É possível que esse homem seja Yasuke em trajes portugueses.

Não se sabe também porque se uniu à viagem dos padres, especulando-se que  poderia também ter sido originalmente um mercenário muçulmano africano oriundo de algum potentado indiano, um soldado de navio, algo extremamente comum no Índico daqueles tempos. A crônica de François também menciona outros escravos muçulmanos a serviço dos padres em variadas funções na missão.

Partindo para Kiyoto em Março de 1581, Yasuke causou um imenso alvoroço na capital japonesa, e uma multidão se acotovelava em furor para ver aquela figura “estranha” de pele escura, única ali. Os padres temeram que a própria igreja onde estavam fosse destruída pelo tumulto da multidão.

Ouvindo aquele pandemônio, o grande daimyo Oda Nobunaga (1534 – 1582) que estava hospedado em um templo próximo, dirigiu-se ao encontro do mouro de 1,88 m de altura, duvidando que sua pele fosse real, fazendo-o se lavar da cintura para cima.

Após ser convencido de que aquela era a pele do homem e admirando sua força, Oda simpatizou-se por ele, que era descrito como de bom trato pelos jesuítas, porém com a força de dez vezes superior à dos homens normais. Dali em diante, Yasuke passou para o serviço do senhor feudal, tornando-se o primeiro samurai estrangeiro nos registros históricos do Japão.

Detalhe de uma luta de sumô desenhada em 1605 por um artista anônimo retrata um homem negro lutando com um homem japonês na presença de samurais nobres. Este samurai é dito ser Oda Nobunaga ou Toyotomi Hideyoshi, o negro provavelmente Yasuke.

Em Maio de 1581, Yasuke foi com Oda para o seu castelo em Azuchi. É dito que foi sagrado nobre, ganhando sua katana, e que seu mestre gostava muito de conversar com ele, o que mostra que tinha aprendido algo do japonês anteriormente na missão dos padres.

Um retrato de Oda Nobunaga

Em junho de 1582, Oda foi atacado e, ao ser derrotado, foi forçado a auto-suicídio (seppuku) em Honnō-ji, Quioto, pelo exército de Akechi Mitsuhide. Yasuke também estava lá no momento e lutou contra as forças de Akechi para defender seu mestre. Imediatamente após a morte de Oda, Yasuke juntou-se ao filho e herdeiro de Oda Nobunaga, Oda Nobutada, que tentava adentrar com as forças de Oda no castelo Nijō.

Yasuke lutou ao lado das forças de Oda Nobutada por um longo período, mas eventualmente entregou sua espada aos homens de Akechi. Estes perguntaram a Akechi o que fazer com Yasuke, e o último disse que o homem negro era uma ”besta estupida estrangeira”, de modo que não deveriam matá-lo, mas levá-lo para o ”templo dos bárbaros sulistas”, como eram descritas as igrejas católicas no Japão.

Diz-se que a razão pela qual Akechi falava deste modo de Yasuke era a forma de, misericordiosamente, apresentar motivos para não matá-lo. Uma vez que os negros não eram discriminados no Japão, mas na verdade admirados, tendo inclusive Buda sido frequentemente retratado como negro em templos japoneses.

Pintura japonesa do século XVI em estilo nanban representando mercadores portugueses, dentre eles alguns servos negros.

No entanto, talvez Akechi também não quisesse ofender os Jesuítas matando um personagem famoso anteriormente ligado a estes, pois necessitava de todos os amigos que pudesse ter neste momento de turbulência política. 

Não há mais nenhuma informação escrita sobre Yasuke após este episódio, embora outro jesuíta contemporâneo, Luis Frois, na sua “História do Japão”, faça menção a um negro africano artilheiro a serviço de Arima Harunobu, em 1584, logo após a temporada passada por Yasuke com Oda Nobunaga, que pode ter sido Yasuke.

A história de Yasuke abunda em referências na cultura pop desde então, sendo retratado em diversos livros, jogos, mangás e até num modelo de carro da Mitsubishi lançando em homenagem a ele em Moçambique em 2016.

Recomendações de Leitura

Referências

Histoire Ecclesiastique Des Isles Et Royaumes Du Japon, vol.1, p.444. 

Lockley, Thomas, African Samurai: The True Story of Yasuke, a Legendary Black Warrior in Feudal Japan

Mohamud, Naima (15 de outubro de 2019). «A incrível história do imigrante africano que se tornou um dos mais respeitados samurais no Japão no século 16» 

Victor Peixoto

Digital influencer, startuper e produtor de conteúdo com impacto em mais de 200 mil pessoas por mês. Estudante da história e religião Islâmica, falante de árabe, inglês e espanhol.

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