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Virago de Entella: A brava guerreira muçulmana da Sicília

Nenhuma informação detalhada, sequer seu nome, foram preservados pela história, somente seus feitos, a ponto de até mesmo sua historicidade ser debatida. Segundo a tradição, a mulher que entraria para as crônicas como Virago de Entela, era filha do chefe militar norte-africano Muhammad Ibn Abbād e tinha pelo menos dois irmãos. Seu pai poderia ter sido descendente do Emir de Siracusa (1072-1086 dC) e herói da resistência contra a invasão normanda da Sicília, Ibn Abbad ou Benavert, como os historiadores europeus o chamavam (nas cronicas de Goffredo Malaterra). Conforme declarado pelo historiador e cronista sírio al-Hamawi, Muhammad ibn Abbad não era siciliano de nascimento, vindo de al-Mahdiya, em Ifriqiya (correspondente à Tunísia moderna, ao leste da Líbia e à Argélia). Ele chegou à Sicília quando adolescente e mais tarde se casou com a filha de Ibn Fakhir, um dos principais líderes sarracenos da Sicília na época, e com isso ele garantiu sua posição. Como seu suposto antepassado antes dele, Muhammad ibn Abbad a princípio e mais tarde sua filha se tornariam símbolos da resistência muçulmana contra o sacro-imperador Frederico II Hohenstaufen, herdeiro dos soberanos normandos.

A relação entre cristãos e muçulmanos sob o reinado dos pais de Frederico, Henrique VI Hohenstaufen e Constança I da Sicília, tinha sido bastante pacífica. As coisas pioraram após a morte de Constança (1198), quando os barões alemães e o papa brigaram pelo direito de se tornarem regentes do jovem Frederico. Os muçulmanos sicilianos pensaram então em aliar-se ao senescal imperial Markward von Annweiler contra o papado e o clero católico. Em 1200, essa coalizão peculiar sofreu uma derrota sangrenta na área entre Palermo e Monreale. O papado tentou (ao menos) garantir a neutralização dos muçulmanos. Em 1206, Inocêncio III enviou uma carta a todos os sarracenos sicilianos e seus líderes para pedir que permanecessem leais ao rei Frederico, mas sem muito sucesso.

Em 1212, Frederico deixou a Sicília para ser coroado rei na Alemanha e 1216, em Roma, foi coroado Sacro Imperador Romano. No geral, ele esteve longe da Sicília por 8 longos anos, deixando sua esposa Constança de Aragão para atuar como regente. Aproveitando a ausência do rei, os rebeldes sarracenos realizaram ataques por toda a Sicília, atacando até a capital Palermo e a Catedral de Monreale. É nesse momento em particular que Muhammad ibn ‘Abbād entra em cena. Ele foi eleito pelos sarracenos sicilianos como seu único lider, e ganhou o título de Amīr al-Muslimīn (Emir dos Muçulmanos), chegando a cunhar suas moedas pessoais de prata.

Finalmente de volta à Sicília, em 1220, o rei Frederico II teve que lidar com seus súditos rebeldes e em 1221 partiu para o combate. Os muçulmanos entrincheiraram-se em fortalezas espalhadas nas áreas das atuais províncias de Agrigento e Palermo, como Jato, Entella, Calatrasi, Celso e Platani. Como essas fortalezas eram difíceis de atacar e conquistar, o rei teve que se contentar com uma campanha desgastante.

Em 1223, a fortaleza de Jato, defendida por Muhammad Ibn Abbād, foi conquistada por Frederico. Segundo as fontes ocidentais, o homem foi capturado e enforcado em Palermo junto com seus filhos. No entanto, o historiador al-Ḥamawī em suas crônicas fornece um relato diferente. Cercado e sem esperança de resistir por muito tempo, o emir sarraceno fez um acordo com Frederico II. Ele se ofereceu para se render e deixar a Sicília para sempre, para nunca mais voltar, em troca da vida de sua família e sua própria. O rei aceitou o acordo e, finalmente, conseguiu ocupar Jato. Infelizmente, justamente quando pensaram que estavam a salvo, Muhammad ibn Abbād e seus filhos foram mortos no navio em direção à Tunísia e seus cadáveres foram jogados no mar.

É aqui que a filha Muhammad ibn Abbād aparece na história. Conforme afirmado pela tradição, a garota não confiava em Frederico e tentou convencer o pai a fazer o mesmo e não aceitar o acordo. Sabiamente, ela decidiu não seguir sua família e permaneceu para defender a fortaleza de Entella. Assim que ouviu que fins trágicos encontraram seus parentes, ela planejou sua vingança.

Secretamente, enviou uma carta a Frederico II, na qual apelou por sua ajuda. Ela era apenas uma mulher, um ser frágil, escreveu, incapaz de lidar com uma situação tão desafiadora. Disse também que estava disposta a se render, mas seus homens nunca aceitariam essa decisão, então, para ajuda-la o rei poderia enviar 300 de seus valentes cavaleiros em seu auxílio? Ela os deixaria entrar durante a noite, quando a vigilância não era tão rígida e eles conquistariam facilmente a fortaleza.

Ruinas da Fortaleza de Entella, Sicília.

O soberano aceitou e, durante a noite, enviou 300 de seus melhores homens para ocupar Entella. No dia seguinte, não havia sinal daqueles homens nem a fortaleza havia sido conquistada. Naquela noite, na verdade, os soldados da Suábia foram massacrados assim que chegaram e suas cabeças foram cortadas e expostas nos merlões da fortaleza. Percebendo que havia sido enganado, Frederico então enviou uma mensagem para a garota, na qual elogiava sua coragem e força de personalidade. O rei teria ficado tão surpreso que escreveu uma mensagem dizendo decidiu poupar sua vida, caso ela escolhesse se render (algumas variações da história acrescentam que ele até alegou que adoraria ter um filho com uma mulher tão corajosa). E claro, ela recusou em grande estilo, dizendo:

”… me pergunto que tipo de relação haveria entre mim e você: sou como uma mulher sem filhos, confinada em uma colina de terra, sem qualquer ajuda, enquanto tu és rei de um território que leva meio mês para cruzar, tens exércitos com os quais a terra está cheia, tesouros, fortunas, e conselheiros confiáveis. Esta sua interrupção para me cercar tomou-te e desviou-te dos teus mais importantes assuntos políticos. Eu lhe causei mais danos do que causaste a mim, infligi maiores perdas de que infligiste a mim … Não me desespero em tê-lo um dia em minhas mãos enquanto viver. Eu lutarei contra você e desbaratarei tuas investidas até que chegue o consumo de todo suprimento nesta fortaleza, e até meus defensores não aguentarem mais.”

Mesmo assim, as defesas da fortaleza estavam no limite e no dia seguinte foram conquistadas pelas forças da Suábia. Temendo o que lhe ocorreria no momento em que fosse capturada, a filha de Muhammad Ibn Abbād decidiu encerrar sua própria vida e se envenenou, ganhando com isso o apelido de ”Cleópatra da Sicília”.

Em 1224, os muçulmanos sicilianos já estavam exauridos por aquela longa guerra e enviaram alguns emissários para negociar sua capitulação. Em 1225, Frederico conseguiu submeter as forças rebeldes restantes, e parte dos sarracenos subjugados foi deportada, por volta de 20.000, para Lucera, Apúlia, na Itália peninsular, onde agora serviriam-lhe como seus leias súditos na guerra contra o Papa.

Fonte: Federico II: una reconquista “sterminatrice”, di Ferdinando Maurici

Bibliografia:

Maurici F., Breve storia degli arabi in Sicilia, Flaccovio Editore, Palermo 2006, pp. 144-158

-Metcalfe, Alex, Muslims and Christians in Norman Sicily: Arabic-Speakers and the End of Islam, p. 186

 C. Chiarelli, Leonard, A History of Muslim Sicily

– Berto, Luigi Andrea, Christians and Muslims in Early Medieval Italy: Perceptions, Encounters, and Clashes

Granar, William, Narrating Muslim Sicily: War and Peace in the Medieval Mediterranean World 

Equipe História Islâmica

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