História Islâmica

Três histórias fascinantes que irão mudar seu modo de ver as Cruzadas medievais

Texto de: Pedro Gaião

Um leitor recém-iniciado na História das Cruzadas pode certamente estranhar o fato de tantas das cruzadas tardias se situarem no Egito. Afinal de contas, se o objetivo último destas expedições era conquista de Jerusalém e da Terra Santa, por que direcionar recursos preciosos em um país completamente diferente? Não seria isso um desperdício de esforços ou evidência até mesmo de ganância e corrupção dos seus cavaleiros?

Na verdade, uma análise um pouco mais profunda nos fornece explicações bem fundamentadas. Desde as fases finais da Terceira Cruzada (1189-1192) já havia ficado evidente para os altos barões que a conquista de Jerusalém – embora muito importante na perspectiva religiosa – rendia pouco valor tático enquanto a sombra do Egito pairasse sobre a mesma. Há milênios, o Egito era considerado como o verdadeiro “celeiro do mundo mediterrâneo”, ostentando a posição definitiva de maior exportador de grãos e alimentos. Muito além de recursos, alimentares ou financeiros, o Egito também tinha uma imensa capacidade militar, podendo erguer facilmente exércitos imensos, um após o outro; conforme Ricardo Coração de Leão e os altos barões da Terceira Cruzada venciam uma batalha decisiva após a outra, Saladino facilmente repunha as perdas com novos exércitos poderosos. Com Jerusalém na linha do horizonte, a dissenção dos altos barões sobre como lidar com essa questão fez a própria cruzada se encerrar sem que as hostes católicas levantassem cerco à cidade santa.

Após as lições aprendidas e Saladino morto, a Europa Católica já começava a se organizar para novas empreitadas. Originalmente, a Quarta Cruzada (1199-1204) foi planejada para conquistar Alexandria, no Egito, e a partir deste enclave ter um trampolim para a invasão da Palestina. O controle da importante cidade egípcia também permitiria coletar somas substanciais de dinheiro e recursos, assim como colocaria em cheque a presença naval islâmica, dificultando também as linhas de abastecimento e de movimento de exércitos egípcios para a Palestina.

Todavia, os erros de organização levaram a Cruzada se desvirtuar completamente do seu objetivo, com invasões à cidade católica de Zadar – disputada pela República de Veneza e pelo monarca dos reinos unidos da Hungria-Croácia –, o infame Saque de Constantinopla (1204) e as subsequentes invasões predatórias contra as demais posses do Império Bizantino e seus vizinhos ortodoxos; eventualmente, os cruzados sofreriam uma derrota catastrófica na batalha de Adrianópolis (1205), contra uma coalizão de gregos bizantinos, búlgaros e romenos.

O encontro entre o Santo e o Sultão

Cerca de uma década depois, Inocêncio III, o Papa da Quarta Cruzada e da Cruzada contra cristãos heréticos no Sul da França – ie. Cruzada Albigense (1209-1229) – organizou metodicamente uma nova expedição contra os muçulmanos. Esta Quinta Cruzada (1215-1221) foi inicialmente lançada contra regiões próximas da Palestina, mas o Conselho de Guerra rapidamente se apercebeu de que o Egito, novamente, era a chave para uma vitória conclusiva. Desta vez, a cidade egípcia escolhida era Damietta. Assim como Alexandria, ela era uma cidade portuária rica e densamente habitada, mas se distinguia da última pela sua posição ainda mais privilegiada: no delta do Nilo e há poucos quilômetros da capital egípcia, o Cairo. A conquista de Damietta viabilizava a conquista da capital do Império Aiúbida, efetivamente desmanchando a principal ameaça para os cruzados.

Ao chegarem em Damietta, em julho de 1218, os cruzados se viram contrariados por uma gigantesca corrente de ferro, erguida por torres entre os deságues do Nilo, impedindo a aproximação dos navios cristãos vindo do Mediterrâneo até o porto da cidade [1]. A Torre de Damietta foi conquistada em agosto, mas a cidade demoraria um ano inteiro para ser tomada.

Não se deve, contudo, culpar esta demora numa exata incompetência dos cruzados. Existiram motivos que indicam que os mesmos demoraram no cerco por opção tática. Por Damietta ser uma cidade pesadamente fortificada, era muito mais estrategicamente conveniente prolongar um cerco e deixar seus defensores amargarem até a miséria. Enquanto o coração do Sultanato estava sob ameaça, os cruzados negociaram uma aliança com os turcos seljuques, forçando os aiúbidas a lutarem em uma segunda frente, na Síria. Além disso, a participação prometida pelo Reino da Geórgia (cujo exército podia alcançar marcas imensas de 45 a 60 mil homens) e do Sacro Imperador Frederico II garantiam uma sensação de segurança tática. Apesar de todos estes recursos, os aúbidas foram capazes de derrotar os turcos na Síria, a ajuda do Imperador se provaria não menos que uma promessa vaga e o exército georgiano seria simplesmente aniquilado por uma invasão mongol completamente inesperada.

Além destes fatores, doenças, tempestades e outras calamidades atormentaram severamente ambos os lados. Al-Adil, o idoso sultão aiúbida, morreu pelas doenças que se alastraram no cerco. Seu filho Al-Kamil, sobrinho neto de Saladino, o sucedeu, mas as inúmeras conspirações tecidas pelos seus próprios aristocratas e o clima político naturalmente instável do Sultanato Aiúbida motivou o novo governante a partir para resoluções pacíficas com os cruzados.

Al-Kamil ofereceu aos cruzados a cidade de Jerusalém (também oferecendo pagar a reconstrução de suas muralhas), a relíquia da Vera Cruz capturada por Saladino na Segunda Cruzada, a libertação de cativos tomados em conflitos anteriores e finalmente, as antigas possessões do Reino de Jerusalém, com exceção das fortalezas de Kerak e Montreal; em troca, os cruzados deveriam liberar Damietta, encerrar hostilidades e estabelecer uma trégua de oito anos.

Apesar de ser considerada uma conclusão vitoriosa por quase todos os cruzados, Pelágio de Albano (legado papal) e os representantes das Ordens Militares da Igreja (templários, hospitalários e teutônicos) se opuseram. E como o vigário do Papa foi assertivo, era o Papa – e não qualquer príncipe secular – quem detinha o controle absoluto da Cruzada. As razões para o legado recusar o acordo vêm da boca do próprio, como registrado por Malouf: “nunca, ele diz, aceitará negociar com os sarracenos. […] Pelágio agora está decidido a se apoderar de todo o Egito” (Malouf, p. 210).

Ao ouvir que o representante do Papa não trocaria Damietta por Jerusalém, o conde William I da Holanda se retirou da cruzada, junto com seu contingente holandês, frísio e flamengo. Com a oferta rejeitada, conflitos inconclusivos e tréguas temporárias se sucederam.

É neste cenário que surge das sombras a figura de São Francisco de Assis, o reformador moral da Igreja Católica na crise do século XIII. Embora não seja mencionado por fontes islâmicas do cerco, o santo teria aparecido no acampamento do sultão Al-Kamil para convertê-lo ou ser martirizado na tentativa. Alguns relatos hagiográficos posteriores ao fato ainda descrevem que ele recebeu a revelação de que o exército cruzado sofreria uma grande derrota naquela guerra, motivando-o a tentar encerrar o conflito sem o uso das armas.

Apesar de São Francisco ser tradicionalmente lembrado pelo seu caráter humilde, misericordioso e doce, quase como uma espécie de pacifista dos anos 60, existe um lado militante que se ofuscou com o passar dos anos. Para o bem ou para o mal, Francisco era um homem de seu tempo: na visão católica antiga, a caridade com os pobres não entrava em contradição com o fanatismo ou a intolerância religiosa.

Entre os debates teólogos travados entre o santo, o sultão e os eruditos islâmicos, destaca-se um que deixa bem nítida a visão do piedoso asceta sobre toda a questão das Cruzadas, preservado nos documentos da própria Ordem Franciscana:

“O sultão lhe apresentou outra questão:

− “Vosso Senhor ensina no Evangelho que vós não deveis retribuir mal com mal, e não deveis recusar o manto de quem vos quer tirar a túnica, etc. Então, vós, cristãos não deveríeis invadir as nossas terras, etc.”.

Respondeu o bem-aventurado Francisco:

− “Me parece que vós não tendes lido todo o Evangelho. Em outra parte, de fato, está dito: ‘Se teu olho te escandaliza, arranca-o e joga-o longe de ti” (Mt. 5,25). Com isto quis nos ensinar que também no caso de um homem que fosse nosso amigo ou parente, que nos amássemos como a pupila do olho, nós devemos estar dispostos a separá-lo, e afastá-lo de nós, até arrancá-lo de nós, se tenta nos afastar da fé e do amor de nosso Deus. Exatamente por isto os cristãos agem de acordo com a Justiça quando invadem vossas terras e vos combatem, porque vós blasfemais contra o Nome de Cristo e vos empenhais em afastar de Sua religião todos os homens que podeis. Se, pelo contrário, vós quiserdes conhecer, confessar e adorar o Criador e Redentor do mundo eles vos amariam como a si próprios”. [2]

São Francisco não admite a concepção moderna de que as cruzadas foram guerras defensivas para salvar a Europa, como costumam defender os apologistas católicos. Na verdade, o santo admite que a cruzada é essencialmente uma guerra ofensiva, sem ter em sua motivação qualquer agressão prévia ou opressão: os católicos invadem e fazem guerra contra os muçulmanos pelo simples fato destes quererem expandir sua religião e não se converterem ao catolicismo. E embora isso possa soar escandaloso para um santo lembrado pela sua piedade, Francisco é, antes de tudo, um católico: sua piedade e militância andam de mãos dadas e em conformidade com o ensino da Igreja.

Os relatos mais exaltados da hagiografia católica parecem ser mais difíceis de constatar, mas mesmo fontes cristãs concordam que o santo foi bem tratado pelo sultão e permitido que retornasse às posições cristãs sem ser lesado.

Por volta de novembro de 1219, mais de um ano após o início do cerco, os cruzados perceberam que o sítio prolongado levou a cidade de Damietta à completa miséria, sem praticamente nenhuma guarnição de homens que pudesse fazer frente aos sitiantes. Um assalto às muralhas levou a conquista do enclave sem maiores dificuldades, uma vez que quase toda a população, civil ou militar, havia perecido pela fome ou pelas doenças: se Damietta possuía cerca de 60 a 80 mil habitantes antes do advento do cerco, na sua conquista apenas 10 mil habitantes restaram; ou 3 mil, de acordo com outras fontes. A grande mesquita da cidade foi convertida em catedral, dedicada à Virgem Maria.

Mas nem tudo eram flores no comando cristão: logo começaram disputas pela posse da cidade, com o Rei de Jerusalém, João de Brienne, a reivindicando como parte de seu reino; nisto, ele foi oposto pelo legado papal, que recusou as pretensões do mesmo sobre a cidade, levando o rei de Jerusalém a voltar para sua capital, em Acre. Os cruzados permaneceram inertes em Damietta por cerca de um ano, ainda esperando a chegada do Sacro Imperador e de seu exército. Por volta desta época, os Aiúbidas foram capazes de repelir os turcos e garantir a coesão interna necessária para lidar com o próximo avanço católico; que se deu 1221, com o retorno do rei de Jerusalém e rumores de que um monarca do reino mítico de Prestes João vinha do Extremo Oriente em seu auxílio. Enquanto este marchava em direção de Jerusalém, conforme seguiam os boatos, os cruzados decidiram resumir sua marcha até o Cairo, onde dariam o golpe fatal no sultanato aiúbida.

As táticas de escaramuça pesada empregadas por Al-Kamil causaram desordem por toda a marcha, com milhares de cruzados alemães abandonando-a e retornando a Damietta. Após os cruzados atravessarem um canal seco pelo caminho até a capital, os egípcios destruíram os diques que mantinham um grande volume das águas do rio Nilo em reserva, inundando um canal imediatamente à frente dos cruzados e o canal anteriormente transposto, efetivamente encurralando a força católica. Após um ataque noturno liderando pelo sultão, causando um número imenso de baixas, o legado papal se rendeu a Al-Kamil. Os católicos se retiraram do Egito, entregando Damietta como parte do acordo. O fracasso da Quinta Cruzada – dependendo da opinião e filiação política da fonte em questão – foi atribuído ou ao Papa ou ao Imperador Frederico II. O que é indiscutível, contudo, é que se não fosse a intransigência do legado papal – e do apoio das Ordens da Igreja a ele – os cruzados teriam acabado com Jerusalém e muitas das possessões perdidas do antigo reino de Jerusalém.

Numa perspectiva religiosa, Al-Kamil incorpora perfeitamente o ensino islâmico das Leis de Guerra. Oliverus Scholasticus, um cronista católico desta cruzada, tece diversos elogios a conduta de Al-Kamil com seus prisioneiros, não só com os nobres, dos quais poderiam se obter grandes somas de dinheiro por meio dos resgates, mas até mesmo com todas as tropas capturadas:

“Quem poderia duvidar que tamanha bondade, amizade e caridade viria de Deus? Homens cujos parentes, filhos e filhas, irmãos e irmãs, morreram em agonia nas nossas mãos, cujas terras nós tomamos, a quem nós os tiramos nus de suas casas, nos retribuíram com sua própria comida quando nós estávamos famintos, mostrando a nós uma bondade que nem mesmo nós faríamos, se fossem eles que estivessem em nossso poder.” [3]

O Sobrinho-neto de Saladino que devolveu Jerusalém aos Cruzados

Embora o imperador Frederico tenha ajudado na organização de um contingente alemão para ser despachado para o Egito, ele mesmo não tomou parte nos eventos da Quinta Cruzada. Todavia, seu casamento com a filha de João de Brienne, em 1225, permitiu ao imperador usar a própria iniciativa da cruzada como forma de reivindicar para si nada menos que o próprio Reino de Jerusalém. Esta Sexta Cruzada (1228-1229) consistiu basicamente em um exército germânico, com cruzados alemães organizados por Frederico e auxiliados pela Ordem dos Cavaleiros Teutônicos.

Apesar destes preparativos aparentemente normais, o Papa excomungou Frederico ainda nas fases iniciais da expedição, quando o exército do imperador retornou à Europa três dias depois de zarpar, por conta de um surto de doenças. Embora o Papa alegasse que o imperador havia traído seus votos de cruzada (dando alguma justificativa para o ato), o movimento contra Frederico na verdade esconde razões políticas: como o Império e o Papado viviam em conflito constante pelo domínio da Itália, o retorno do imperador permitia ao Papa, através da excomunhão pela quebra de votos, deslegitimar formalmente a autoridade de Frederico sobre seus domínios. Considerando que o próprio Frederico buscou ajuda dos bispos alemães para se reconciliar com o Papado, sem que o Papa desse o braço a torcer, tudo indica que a excomunhão foi realmente uma jogada política dissimulada.

A manobra política do Papa, porém, ameaçaria gravemente o sucesso da Sexta Cruzada, uma vez que o próprio Frederico começaria sua campanha militar na Palestina com uma porção muito menor do que ele originalmente tinha, o impedindo de prestar batalha aos aiúbidas por conta de sua desvantagem numérica. Não que isto, é claro, seja o único fator: devido ao seu casamento e ao fato do reino do Chipre ser nominalmente um vassalo do Império, Frederico tentou fazer valer sua autoridade de soberano tanto no Chipre quanto na Palestina, alienando dele alguns aliados em potencial que teriam feito alguma diferença nos números finais do exército em campanha. Na verdade, por conta da excomunhão, nem o clero católico do Outremer e nem as Ordens Militares (com exceção dos teutônicos) se submeteram oficialmente a liderança do imperador.

Com um exército pequeno e sem grande auxílio dos potentados locais, Frederico procurou a vitória não em conquistas militares, mas num acordo diplomático. Como Al-Kamil, o sultão aiúbida, estava enfrentando as rebeliões dos seus parentes na Síria, Frederico procurou fazer uma demonstração de força bruta, utilizando do seu exército para ameaçar o sultanato aiúbida com uma marcha pela costa do Levante. A estratégia foi bem-sucedida, uma vez que Al-Kamil não queria começar outro conflito com um monarca tão poderoso e militarmente experiente como Frederico no meio de uma guerra civil. Assim, o imperador obteve por acordo Jerusalém e um corredor estreito de terras pela costa mediterrânea, além de enclaves como Nazaré, Belém, Jaffa, Sidon etc. Os muçulmanos retiveram controle da área do Monte do Templo e foi estabelecido uma trégua de dez anos.

Uma das consequências causadas pelo retorno de Jerusalém para mãos católicas foi a restituição das leis que proibiam os judeus de viver na cidade santa [4]. Muçulmanos, contudo, tinham livre estadia pela cidade, uma vez que não eram culpados pelo “deicídio” dos judeus. Diga-se de passagem, o próprio Frederico era bastante tolerante com seus súditos muçulmanos no Sul da Itália, de forma que o arranjo estabelecido em Jerusalém não estava exatamente diferente do que o mesmo praticava na própria Europa (salvo a expulsão dos judeus); Frederico, inclusive, moveu a população islâmica da Sicília para Lucera justamente para tê-los como aliados contra o Papado, uma vez que as excomunhões lançadas contra os soldados e os súditos de Frederico não tinham qualquer poder sobre os muçulmanos.

Após a trégua estabelecida por Frederico, a Cruzada dos Barões (1239-1241) foi responsável por expandir ainda mais o Reino de Jerusalém, atingindo a maior extensão de sua história desde 1187 (ie. antes da derrota da Segunda Cruzada). À exemplo da cruzada do Kaiser Frederico, seus frutos foram diplomáticos, ao invés de necessariamente militares.

“Gregório IX excomungou o imperador, o que não obstou que ele no ano seguinte empreendesse a cruzada com um surpreendente sucesso, que se há de atribuir principalmente à maneira e ao tino com que se soube conduzir com os maometanos com cujo trato estava familiarizado, a quem admirava e até invejava. Frederico obteve Jerusalém com Belém, Nazaré e a costa correspondente como reino. Os   sarracenos   firmaram uma trégua de dez anos sendo-lhes permitido o culto na mesquita de Omar de Jerusalém. Esta tolerância não podia ser grata aos crentes fanáticos como também o fato do imperador excomungado, forçado pelas circunstâncias, ter cingido ele próprio a coroa real davidiana em Jerusalém” [5].

Banzoli comenta mais sobre as reações dos cruzados mais fanáticos à resolução pacífica do conflito:

“Era inadmissível que Jerusalém fosse conquistada por meio do diálogo, democraticamente, sem guerras. […] os templários […] avisaram ao sultão que Frederico II pretendia banhar-se no rio Jordão, acompanhado apenas de pequena escolta, com a finalidade de assassiná-lo. Mas, para a surpresa de todos, ‘Malek-el-Kamil desdenhou da traição e deu, ao imperador, notícia da denúncia’” [6].

O Santo-Rei da França derrotado por uma Rainha muçulmana

Por volta de meados do século XIII, muito embora os corásmios muçulmanos tivessem devastado Jerusalém em 1244, pouquíssimos reis na Europa tinham nas cruzadas as prioridades de seu governo: Frederico II ainda travava seus embates com o Papado, a Hungria ainda não havia se recuperado da devastação causada pelos mongóis em 1241; a Inglaterra, por sua vez, estava afundada em uma guerra civil iniciada por um dos participantes da Cruzada dos Barões (Simon de Montfort).

Ainda que toda a Europa parecesse estar ocupada demais para a defesa e conquista da Terra Santa, Luís IX se destacava como uma notória exceção. Reconhecido por seus súditos como um verdadeiro santo vivo, o poderoso rei francês organizou esforços monumentais para esta Sétima Cruzada (1248-1254), comprometendo seriamente as finanças da Coroa nesta empreitada.

Embora todos os Estados Cruzados, sem exceção, fizessem algum tipo de apelo ao Rei Francês (eg. O Império Latino do Oriente contra os bizantinos, o reino de Jerusalém contra os corásmios etc)., era para Damietta que o rei direcionou suas tropas. Seguindo o mesmo pensamento dos participantes da Quinta Cruzada, Luís estava convicto de que a conquista de Damietta serviria de base para a conquista de Jerusalém, utilizando a riqueza e os suprimentos da cidade para alimentar e manter seu grande e formidável exército. Luís ainda se aliou com a seita dos Assassinos do Velho da Montanha e com os mongóis à Oriente, que o reconheciam como “o rei mais poderoso da Europa”. E de fato, se a França assim era considerada, tudo parecia alimentar a imensa confiança do rei católico, cuja carta ao sultão aiúbida evidência sua forte convicção no seu exército e na sua “causa santa”:

“Como você sabe, eu sou o governante da nação cristã, sei que você é o governante da nação maometana. O povo da Andaluzia me dá dinheiro e presentes enquanto os conduzimos como gado. Matamos seus homens e tornamos suas mulheres viúvas. Nós levamos os meninos e as meninas como prisioneiros e deixamos suas casas vazias. Eu já lhe disse o suficiente e o aconselhei até o fim. Mesmo se você fizesse o mais forte dos juramentos para mim, mesmo se fosse até os padres e monges cristãos, ou se suportasse chamas diante dos meus olhos como sinal de sua obediência à cruz, tudo isso não iria me dissuadir de alcançá-lo e matá-lo no seu lugar mais querido na terra. Se a terra for minha, então será um presente para mim. Se a torre for sua e você me derrotar, então terás a vantagem. Eu disse a você e avisei você sobre meus soldados, que me obedecem. Eles podem preencher campos abertos e montanhas, são numerosos como seixos. Eles serão enviados para você com espadas de destruição. ” Carta de Luís IV para as-Salih Ayyub – (Al-Maqrizi, p.436 / vol.1)

Embora esse lado sombrio e até sanguinário do Rei Luís seja ofuscado pela sua fama de rei justo e herói dos cristãos indefesos, ainda assim, similarmente ao caso de São Francisco, isto não entra em contradição com o conceito católico medieval de santidade: compaixão aos necessitados e espadas para os maus, contra tudo aquilo que ofende a Deus (ie. não-católicos como muçulmanos).

Damietta foi conquistada no mesmo mês que Luís desembarcou no Egito, em junho de 1249. A razão para tal rapidez vem do fato de que que o Emir que comandava a guarnição da cidade – talvez assustado pelo tom sanguinolento da carta – retirou-se de Damietta em direção ao acampamento do sultão, causando pânico entre a população da cidade, que fugiu em massa pela mesma ponte que permitiu o acesso fácil dos cruzados à Damietta. Reforços vindos da França e rumores da morte do sultão aiúbida motivaram Luís a avançar lentamente em direção ao Cairo.

Com o sultão aiúbida morto e sem sucessores presentes para sucedê-lo durante a ocupação católica de Damietta, coube a sua esposa, Shajar al-Durr, organizar o potencialmente instável clima do sultanato. Para evitar que as notícias da morte do sultão causassem pânico entre o exército e motivasse golpes de Estado entre a própria aristocracia interna mais gananciosa, a sultana manteve a notícia de sua morte como um segredo, compartilhado apenas pelo Emir Fakhr ad-Din (comandante dos exércitos egípcios) e o eunuco-chefe do palácio real. Embora a notícia tenha de fato vazado até os ouvidos de Luís IX no acampamento cruzado, a tática parece ter sido suficientemente eficaz para garantir a coesão necessária para derrotar os cruzados, utilizando a imponente cidade fortificada de Al-Mansurah como seu palco.

Alphonse, conde de Poitou e irmão do rei Luís, liderou uma vanguarda que se lançou contra o acampamento de Fakhr ad-Din em Gideila, numa investida noturna. Durante o confronto, há poucos quilômetros de Al-Mansurah, o próprio Emir foi morto e as tropas do acampamento massacradas. Os poucos sobreviventes fugiram em direção a Al-Mansurah, que permaneceu de portas abertas para recebê-los. A liderança foi passada para um grupo oficiais mamelucos, que com a aprovação da sultana decidiram rapidamente os próximos passos a serem tomados.

Foi a partir daí que os cruzados começaram a cometer erros decisivos. O Conde de Poitou, ao invés de esperar o resto do exército liderado pelo Rei, optou por simplesmente adentrar na cidade para perseguir os fugitivos e destruir qualquer resistência que encontrassem na mesma. Todavia, isto era justamente o que a sultana e seus comandantes queriam que os cruzados fizessem.

Uma vez dentro de al-Mansurah, que não forneceu qualquer resistência à entrada dos cruzados, o exército cruzado se viu encurralado no emaranhado de ruas estreitas da própria cidade que invadiram. Além do exército egípcio pronto para emboscá-los, os cruzados ainda sofreram pelas mãos dos próprios habitantes da cidade. Rodeados de inimigos em todas as direções, o destacamento do conde Alphonse foi massacrado, com os pouquíssimos sobreviventes fugindo desordenamente até as posições tomadas em Gideila. Apesar dos cruzados fortificarem o campo de Gideila com um fosso e paliçadas, os egípcios se engajaram numa exaustiva escaramuça contra os cruzados, capturando e matando muitos pelas semanas que se seguiriam.

Em fevereiro, Turanshah, filho do falecido sultão, finalmente retornou da Ásia Menor. Uma vez sucedendo seu pai como sultão, após o governo de Shajar al-Durr durante a crise, Turanshah se preparou para sangrar o exército cruzado até a morte.

Para isto, ele teve a brilhante ideia de transportar navios por terra. Para isto, as embarcações eram empurradas por cima de troncos de madeira, que permitiam o rolamento dos navios, até seu destino final, no rio Nilo: entre a cidade de Damietta e o acampamento cruzado em Gideila, efetivamente cortando a linha de abastecimento dos cruzados e os encurralando de todos os lados: os sitiantes agora estavam eles mesmos sitiados.

Afligidos pela fome, pelas doenças e por ataques devastadores, a força católica foi levada à miséria. De acordo com Matthew Paris, cronista inglês a serviço do rei Luís IX, a calamidade foi tamanha que alguns cruzados chegaram a perder sua fé e decidiram desertar para o lado inimigo [7]. Um cavaleiro templário registra sua angústia com a situação:

“Fúria e lamento dominam meu coração … tão firmes que eu escarçamente ouso continuar vivo. Parece que Deus deseja apoiar os turcos às nossas custas … oh, Senhor Deus …. será que o reino do Oriente está tão perdido que ele nunca será capaz de se reerguer novamente? Eles farão do Convento de Santa Maria uma mesquita. E já que o roubo [do convento] apetece seu Filho [ie. Cristo], quem pode se lamentar disso? Nós somos forçados a aceitá-lo … Qualquer um que deseja lutar contra os turcos é louco, porque Jesus Cristo não luta contra eles mais. Eles conquistaram, e vão conquistar. Porque a cada dia eles nos derrotam, sabendo que Deus, que estava acordado, agora dorme, enquanto Maomé cresce poderoso” [8].

Alguns historiadores, tais como Lucas Banzoli [9], chegam a recolher deste lamento evidências de que o próprio fracasso das cruzadas precedeu uma espécie de ateísmo e desilusão com a religião, como fica evidente pelo enxerto citado acima.

Com a moral do exército afligida, Luís IX propôs um acordo onde os cruzados entregavam Damietta em troca de Jerusalém e de algumas cidades na costa da Síria. Os egípcios, cientes da miséria católica, recusaram a oferta. No dia 5 de abril, sob a escuridão da noite, os cruzados começaram a evacuar seu acampamento em direção a Damietta. Mas seu desespero foi tão grande que alertou as tropas egípcias, que os perseguiram e finalmente os aniquilaram no dia 6 de abril, na batalha de Fariskur (1250). Luís e alguns dos seus principais nobres foram tomados cativos enquanto se escondiam em vilarejos próximos. Especificamente, Luís IX se rendeu a um eunuco chamado al-Salihi, após receber promessas de que ele não seria morto; ironicamente, uma promessa que nem mesmo ele estaria disposto a cumprir caso os papéis tivessem sido invertidos.

O fracasso da Sétima Cruzada foi absolutamente chocante para o mundo católico. Milhares de cavaleiros acompanharam o Rei Luís na sua empreitada. A preparação da expedição foi uma das mais metódicas já realizadas na história das cruzadas; com a própria cruzada sendo a guerra mais cara de toda a história da nação francesa. Com tanto apoio, investimento e preparação, auxiliado pelo caráter do próprio rei-santo, a Europa estava convencida de que Luís iria finalmente guiar os cruzados para a vitória. Ao invés disso, a cruzada foi um fracasso completo. Todo o exército foi ou massacrado ou capturado. Destes, somas enormes foram exigidas para seu resgate na Europa. A própria notícia de que o rei santo havia sido capturado causou movimentos histéricos e charlatanescos na França, à exemplo da Cruzada dos Pastores.

Cerca de 12 mil prisioneiros de guerra foram resgatados após pagamento. O Rei Luís, sozinho, foi resgatado por uma quantia de 400 mil dinares de ouro (o suficiente para alimentar 4.000 soldados por 20 anos [10]), dos quais metade deveria ser paga imediatamente, e a outra metade anualmente; levando a França a um verdadeiro caos financeiro. Luís foi liberado após prometer devolver Damietta aos egípcios e ao jurar que nunca mais voltaria para o Egito novamente; a segunda promessa, contudo, ele não viria a cumprir.

Por conta da derrota inesperada e estrondosa de Luís, nenhuma outra grande cruzada seria levantada contra o Egito. E todos os reis, com exceção de Luís, perderam o interesse em lançar novas cruzadas.

A cruzada ainda teve consequências de médio-prazo terríveis aos católicos, uma vez que pouco após a captura de Luís, os mesmos mamelucos que lutaram contra os cruzados deram um golpe no novo governante aiúbida, o apunhalando até a morte no mesmo campo de batalha que sediou a derrota dos cruzados. O novo regime de soldados-escravos se provaria bem mais fervoroso que o governo secular dos aiúbidas, tendo com pauta-chave a expulsão dos Estados Cruzados do Oriente Médio, algo que eles tiveram êxito definitivo em 1292.

Luís tentaria lançar outra cruzada contra o Egito, apesar de ter dado sua palavra de rei e cavaleiro que não a faria. Sua intenção era começar pela conquista de Tunis, enclave controlado por uma dinastia tunisiana aliada do Sultanato Egípcio. A conquista da abastada cidade também beneficiaria seu tio Charles de Anjou, que havia conquistado a Sicília – à pedido do Papa – dos herdeiros de Frederico II, da casa Hohenstaufen; seu controle também privaria o sultão Baibars, um dos comandantes mamelucos que aniquilou o exército de Luís na Sétima Cruzada, de uma das fontes de abastecimento do Egito. Todavia, os sitiantes foram acometidos por um surto de doenças, ceifando a vida de vários soldados e do próprio rei Luís, que morreu de disenteria durante o cerco.

Por conta das doenças, a cruzada encerrou-se num tratado que garantiria livre comércio entre cristãos e a cidade de Túnis, a permanência de monges e padres católicos na cidade e, finalmente, a expulsão de todos os refugiados Hohenstaufen (descendentes de Frederico) da Tunísia [11]; indicando não somente um aparelhamento da cruzada para perseguir rivais políticos cristãos como a própria interação entre os descendentes do imperador Frederico e os muçulmanos.

Em Tunis, os fracassos de São Luís foram imortalizados em poemas satíricos:

“Ó Luís, Tunis é a irmã do Egito! Tu, pois, esperava sua ordália! Encontrarás aqui sua tumba, ao invés da casa de Ibn Lokman; e o eunuco Sobih será reposto por Munkar e Nakir,” [12].  

A “casa de Ibn Lokman” referenciada no verso se referente a casa do eunuco que capturou Luís, sendo mantido nesta residência sob correntes e pela vigia de outro eunuco de nome Sobih. De acordo com o credo muçulmano, Munkar e Nakir são anjos que interrogam os mortos, fazendo alusão à morte do rei cristão na ocasião do cerco.

Bibliografia:

[1] MALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos Árabes. td. Editora Brasiliense, 1988. Quinta Parte, p. 209.

[2] FONTI FRANCESCANE, seção terceira – Outros Testemunhos Franciscanos, número 2691. Disponível em: < https://ascruzadas.blogspot.com/2013/09/sao-francisco-de-assis-e-o-fundamento.html?m=1>. Acesso em 23 de novembro de 2020.

[3] Judge Weeramantry, Christopher G. Justice Without Frontiers. Brill Publishers, 1997, p. 136–7

[4] PRAWER, Joshua. Minorities in the Crusader States. Nova York: 1964, p. 97. Apud RUNCIMAN, Steven. A History of the Crusades. Londres: 1965. p. 467.

[5] VALENTIN, Veit. História Universal –Tomo II.6ª ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961, p. 52

[6] BANZOLI, Lucas. Cruzadas: o Terrorismo Católico, p. 161-162. Disponível em: < https://www.4shared.com/web/preview/pdf/rpXpVHb7ba>. Acesso em 24 de novembro de 2020.

[7] MATTHEW PARIS. Louis IX’s Crusade. Vol. 5, p. 108.

[8] HOWARTH, Stephen. Knights Templar. Nova York: Marboro Book, 1982. p. 223.

[9] BANZOLI, ibid.

[10] HISTÓRIA ISLÂMICA. A Sétima Cruzada. Disponível em: < https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1001756500019582&id=179267965601777>. Acesso em 24 de novembro de 2020.

[11] RILEY-SMITH, Jonathan. The Crusades: A History. New Haven: Yale Univeristy Press, 2005. p. 211.

[12] AHMAD ISMAIL ALZAYAT. Al-Maqrizi, vol. 1, p. 462.

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