História Islâmica

Sayyida al-Hurra: A Rainha Pirata

Várias são as mulheres na história islâmica que se destacaram em alguma área. Algumas foram figuras proeminentes nas artes, ciências, literatura etc, já outras foram grandes nomes militares, como o caso de Keumalahayati e também de Sayyida al-Hurra, o nosso foco de hoje.

Sayyida al-Hurra nasceu em 1485 de uma proeminente família Andaluza que fugiu de Granada para o Norte da África após a Reconquista em 1492 pelos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Ela era descendente de Abd as-Salam ibn Mashish al-Alami, um santo sufi que por sua vez era descendente do proprio Profeta Muhammad.

Embora seja conhecida como Sayyida al-Hurra, que signfica “A Senhora Livre”, esse não é o seu nome de nascença, mas sim Lalla Aicha bint Ali ibn Rashid al-Alami.

Aicha receberia uma educação de primeira classe, tendo conhecimentos em Castelhano e em Português, assim como em teologia islâmica. Exemplo da qualidade de sua educação quando jovem é o fato de um de seus professores ter sido o grande santo sufi Abdallah al-Ghazwani, de grande renome no Marrocos.

Sayyida recebeu uma educação de qualidade, mas ficaria lembrada não por suas contribuições ao intelecto, mas sim por ter sido rainha de Tetuão (Marrocos) e uma grande senhora dos mares.

Em 1510 Sayyida se casaria com Abu Hassan al-Mandari (também refugiado de Granada), que era o governante de Tetuão havia 5 anos. Acontece que essa cidade possuía na época o maior porto do Marrocos, sendo também um local estratégico para eventuais incursões em Ceuta, assim como um importante local para o comércio marítimo. Resultado de sua importância, e no século XV os portugueses temendo a importante posição da cidade decidiram ataca-la, transformando o local em pura destruição.

De acordo com Leão, o Africano1, um diplomata granadino do século XV-XVI, a cidade ficou cerca de 80 anos abandonada até que o capitão de Granada, al-Mandari decidisse restaurar o local.2 Ainda segundo Leão, o capitão teria reconstruído os muros da cidade, erguido um forte e realizado várias guerras contra os portugueses, atacando Ceuta, Tânger e Aït-Ben-Haddou (Ksar).

Por ter se casado com um grande líder e sendo ela mesma uma pessoa muito preparada devido à boa educação que recebeu, Sayyida al-Hurra aprendeu muita coisa a respeito da administração do reino. Por conta disso, ela foi a vice-governadora do reinado de seu marido, e quando o mesmo viajava deixava na conta de sua esposa a administração de seus territórios.

Entretanto, o casal permaneceria pouco tempo juntos, pois Hassan al-Mandari viria a falecer em 1515, e Sayyida assumindo Tetuão como sua mais nova rainha, algo que foi muito bem aceito pelo povo local que já estava acostumado em ver ela governando o território devido às viagens do marido, chamando-a de al-Hurra³, ou “a Livre”.

A história está cheia de piratas famosos e icônicos, não sendo diferente na história islâmica que possui em suas bancas os mais famosos piratas de todos os tempos, como Jack Ward4 e Barbarossa (Barba Ruiva). Mas entre a lista de famosos corsários islâmicos se encontra uma mulher, a rainha Sayyida al-Hurra, lendária senhora dos mares.

Há especulações do porquê Sayyida al-Hurra teria se tornado uma pirata, mas costuma ser afirmado que a rainha havia se tornado uma corsária pois nunca se esqueceu de que havia sido expulsa junto com a sua família de Granada pelos cristãos espanhóis.

Para que pudesse ter mais sucesso em sua empreitada de se vingar dos Espanhóis que haviam expulsado ela e sua família da Península Ibérica, Sayyida entrou em contato com o lendário corsário otomano Hayreddin Barbarossa. Foi justamente com a sua aliança com o pirata que ajudou a construir a sua reputação de “rainha pirata”. 

Vale lembrar que o legado de Barbarossa não foi construído totalmente sozinho, mas sim com seu irmão mais velho chamado Oruç Reis, sendo os dois os mais famosos corsários da Berberia. Conforme os dois estabeleciam suas bases pelo Mediterrâneo como agentes do Império Otomano, saqueavam colônias espanholas, batalhavam com os Cavaleiros Hospitalários e chegaram a atacar até o navio almirante do Papa Júlio II.

Entretanto, a vida de Barbarossa não se resumiu em saques e guerras contra seus inimigos, mas auxiliou no transporte de refugiados muçulmanos da Espanha para o Norte da África entre 1505 e 1510, o que atraiu a simpatia e admiração de Sayyida al-Hurra. Assim nasce a aliança entre a rainha pirata e o corsário otomano, dominando juntos o Mediterrâneo, atacando tanto navios quanto cidades e capturando alguns cristãos no processo.

A maioria das fontes sobre Sayyida al-Hurra são ou portuguesas ou espanholas, e dentre elas vemos os dizeres de Sébastien de Vargas descrevendo-a como “uma mulher muito agressiva e mau humorada sobre tudo”.

De acordo com LEBBADY (2009), Sayyida não pode ser considerada uma pirata, uma vez que nessa época o Marrocos não tinha uma marinha, dependendo dos corsários para defender seu território, cujas ações não se limitavam à costa Sul do Marrocos.

Não obstante, a tal “pirataria” era algo comum no século XVI, não sendo por acaso que grandes histórias de piratas são oriundas dessa época, praticado também por Ingleses e demais países europeus. Assim, a Inglaterra saqueava as galés espanholas que retornavam das Américas, sendo o saque uma porcentagem significativa das receitas do governo de Isabel I.

Indo mais além, Lebbady ainda afirma que muitos dos corsários eram de al-Andaluz, expulsos de sua terra natal e se estabelecendo em locais como Tetuão (caso de Sayyida) ou em Salé. Assim, sob o comando da rainha pirata, os corsários ajudaram a contornar a agressiva política de colonização praticada por Portugal e Espanha no Norte da África, que por vezes escravizava uma parcela significativa da população. Nesse sentido, ainda afirma a autora de que chamar Sayyida al-Hurra de pirata é colocar a culpa naqueles que estavam tentando se defender de agressivas potências colonizadoras.

Independentemente de chamarmos Sayyida al-Hurra de pirata ou não, sua influência no Mediterrâneo foi marcante, e a sua aliança com o corsário otomano Barbarossa lendária. Assim, vemos duas figuras lendárias repelindo as invasões europeias no Norte da África e também salvando seus irmãos expulsos de seus locais de origem, feito no mínimo notável para qualquer época histórica.

Notas:

[1] Seu nome original na verdade era al-Hasan ibn Muhammad al-Wazzan al-Fasi;

[2] Al-Mandari foi um dos últimos defensores de Granada, e pela tradição é o pai fundador de Tetuão;

[3] Título que significa “mulher livre/independente”;

[4] Jack Ward ou Jack Birdy foi um pirata inglês convertido ao Islã também conhecido como Jack Sparrow;

Bibliografia:

VERDE, Tom. Malika VI: Sayyida Al-Hurra. AramcoWorld. 2017; Ibd, Muslim Heritage;

The Way of the Pirates. Sayyida al Hurra – Pirate Queen of Islamic West. [n.d];

PAULA, Frederico Mendes. As-Sayyida Al-Hurra. Histórias de Portugal e Marrocos. 2016;

LLOYD, Ellen. Sayyida Al Hurra – Feared And Respected Pirate Queen Of Morocco Had No-One To Turn At The End. Ancient Pages. 2019;

LEBBADY, Hasna. Feminist Traditions in Andalusi-Moroccan Oral Narratives. Palgrave Macmillan. 2009;

MERNISSI, Fatima. The Forgotten Queens of Islam. University of Minnesota Press. 1997;

FISHER, Humphrey J. Leo Africanus and the Songhay conquest of Hausaland. International Journal of African Historical Studies. 1978.

Equipe História Islâmica

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