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Qutuz: A Espada da Religião

Pouco se sabe de suas origens, ou local exato de nascimento, porém o período histórico onde iniciou sua vida foi particularmente turbulento. Ainda jovem, o príncipe túrquico Mahmud Qutuz, que reivindicava descendência do sultão Ala ad-Din Muhammad II, foi capturados pelas forças mongóis que invadiam a Corásmia em 1231, e despachado como escravo para a recém conquistada Síria, e em Damasco, foi vendido a um comerciante egípcio, que então o levou ao Cairo, onde finalmente passou ao serviço militar do poderoso sultão Izz al-Din Aybak.

Busto em homenagem a Saif ad-Din Qutuz, Cairo, Egito.

Por sua proeminência estratégica e habilidades marciais, Qutuz logo ascendeu na hierarquia mameluca, tornando-se segundo no comando após o sultão em 1253. Antes ele havia participado em diversas campanhas importantes, como a derrota dos exércitos cristãos da Sétima Cruzada que invadiam o Egito em 1249–50.

No ano de 1257, seu patrono, o sultão Aybak foi assassinado por intrigas palacianas, e logo Qutuz e seus partidários trataram de dar um golpe para destronar a viuva do sultão, a famosa Shajar al-Durr, e instalar seu filho, o jovem príncipe al-Mansur Ali.

O ano seguinte de sua atuação como vizir do agora jovem sultão foram ferozes. Qutuz herdou as rebeliões dos mamelucos do Levante, e seus rivais da poderosa casta militar da qual fazia parte só foram neutralizados um anos depois, em 1258, que, no entanto, seria um ano traumático para o mundo islâmico como um todo.

Em fevereiro de 1258, uma imensa horda mongol liderada pelo neto de Gengis Khan, Hulago, invadiu Bagdá, massacrou seus habitantes e matou o califa abássida Al-Mustasim. Em seguida, os mongóis avançaram em direção à Síria, que era governada pelo descendente de Saladino, o sultão aiúbida an-Nasir Yusuf, que recebeu uma carta ameaçadora de Hulagu. O vizir Qutuz e os emires egípcios ficaram alarmados com uma mensagem de Nasir Yusuf, na qual ele apelou para ajuda imediata do Egito.

O Cerco Mongol de Bagdá retratado no Jami at-Tawarikh de Rashid-al-Din Hamadani

Os emires reunidos na corte do sultão Al-Mansur Ali, com 15 anos de idade, e Qutuz, disseram a eles que, devido à gravidade da situação, o Egito deveria ter um sultão forte e capaz que pudesse combater os mongóis. Em 12 de novembro de 1259, Al-Mansur Ali foi deposto por Qutuz, que de escrevo foi a vizir, e de vizir a sultão, algo comum em seu mundo.

Ao assumir o trono, ele prometeu aos emires que eles poderiam instalar qualquer outro sultão depois que ele derrotasse os mongóis. Ele então instalou Faris ad-Din Aktai al-Mostareb como seu atabeg, e partiu para o combate.

Hulagu e suas forças estavam seguindo em direção a Damasco, onde alguns dos emires sírios sugeriram que Nasir Yusuf se rendesse e se submetesse a Hulagu como a melhor solução para salvar a si mesmos e à Síria. O proeminente guerreiro mameluco a serviço de Qutuz, Baibars, que estavam presente na reunião, se enfureceu, e os mamelucos decidiram matar Nasir Yusuf naquela noite, para impedir que entregasse a Síria aos mongóis.

No entanto, ele conseguiu escapar com o irmão para a cidadela de Damasco. Baibars e os mamelucos deixaram a Síria, viajando para o Egito, onde foram calorosamente recebidos pelo sultão Qutuz, que concedeu a Baibars a cidade de Qalyub. Quando um Nasir Yusuf soube que o exército mongol estava se aproximando de Alepo, ele enviou sua esposa, seu filho e tesouro para o Egito.

A população de Damasco e outras cidades da Síria começou a debandar. Depois de sitiar Alepo por sete dias, os mongóis a invadiram e massacraram sua população. Quando Nasir Yusuf soube da queda de Alepo, ele fugiu para o Egito, deixando Damasco com sua população restante indefesa, mas Qutuz negou sua entrada.

Yusuf ficou assim na fronteira do Egito, enquanto seus emires o abandonaram para prosseguir no país do Nilo. O sultão Qutuz ordenou a apreensão das jóias e tesouro de Nasir Yusuf, que foram enviados ao Egito com sua esposa e servos. Dezesseis dias após a queda de Alepo nos mongóis, Damasco se rendeu sem lutar. Yusuf foi feito prisioneiro pelos mamelucos e enviado para Hulagu.

Com a conquista dos centros do poder islâmico na Síria e em Bagdá, o eixo da legitimidade islâmica se transferiu para o Egito e se tornou o próximo alvo de Hulagu. Hulagu enviou mensageiros ao Cairo com uma carta ameaçadora, pedindo que Qutuz se rendesse e se submetesse aos mongóis. A resposta de Qutuz foi executá-los. Eles foram cortados ao meio e suas cabeças foram fincadas no portão de Bab Zuweila, no Cairo. Então, ao invés de esperar que os mongóis atacassem, Qutuz decidiu criar um exército para afastá-los do Egito. A população árabe residente debandou, com uma parcela seguindo para o Marrocos, e outras para o Iêmen e Hijaz. A onda mongol parecia imbatível.

Qutuz foi para Al-Salihiyya e reuniu seus comandantes para decidir quando marchar, entretanto, os encontrou em pânico, demonstrando covardia. Um bravo sultão se dirigiu a eles dizendo:

“Ó emires dos muçulmanos, já há algum tempo vocês têm se alimentado do tesouro desta terra, e odeiam ser invadidos. Eu irei ao combate sozinho, quem quiser que venha comigo, quem não, que volte para casa, mas quem não for comigo, carregará o pecado de não defender nossas mulheres.”

Qutuz ordenou que Baibars dirigisse suas forças para Gaza, afim de observar a pequena guarnição mongol ali, que Baibars facilmente derrotou. Depois de passar um dia em Gaza, Qutuz liderou seu exército ao longo da costa em direção a Acre, um remanescente do estado cruzado do Reino de Jerusalém. Os cruzados eram inimigos tradicionais dos mamelucos e haviam sido abordados pelos mongóis sobre a formação de uma aliança franco-mongol. No entanto, naquele ano, os cruzados reconheceram os mongóis como a maior ameaça. Qutuz sugeriu uma aliança militar com os cruzados contra os mongóis, mas os cruzados optaram por permanecer neutros entre as duas forças.

Eles permitiram, no entanto, que Qutuz e suas forças viajassem sem serem molestados pelo território dos cruzados e acamparam para reabastecimento perto de Acre. Qutuz e seu exército ficaram lá por três dias, até ouvirem que os mongóis haviam atravessado o rio Jordão, momento em que Qutuz e Baibars lideraram suas forças para encontrar os mongóis em Ain Jalut.

A simbologia do local da batalha era tremenda. “Ain Jalut” em árabe significa “O Olho de Golias”, pois acredita-se que ali aconteceu a épica luta descrita no Alcorão entre o Profeta Davi e o Gigante Golias. E agora, não era muito diferente, pois o pequeno sultanato egípcio enfrentava um titã que se estendia da Síria ao Mar do Japão.

A batalha de Ain Jalut, travada em 3 de setembro de 1260, foi uma das batalhas mais importantes e um ponto de virada na história. Em 1250, apenas dez anos antes, os mesmos mamelucos (Qutuz, Baibars e Qalawun) lideraram o Egito contra a Sétima Cruzada do Rei Luís IX da França. O exército mongol de Ain Jalut, era liderado pelo cristão nestoriano turco Kitbuqa Noyan, era acompanhado pelo rei cristão da Armênia Cilícia e pelo príncipe cristão de Antioquia.

Após a queda da Corásmia, Bagdá e Síria, o Egito era última cidadela do Islã no Oriente Médio, e a existência potentados cruzados ao longo da costa do Levante estava formando uma séria ameaça ao mundo islâmico. Portanto, o futuro do Islã e do Ocidente cristão também dependia do resultado daquela batalha, que foi travada entre dois dos mais poderosos combatentes da Idade Média, os mamelucos e os mongóis, acompanhados por alguns cruzados cristãos.

Baibars, que era conhecido por ser um comandante ágil, liderou a vanguarda, atraindo o exército mongol para o Ain Jalut, onde o exército egípcio liderado por Qutuz esperava. Os egípcios inicialmente não conseguiram combater o ataque mongol e foram dispersos após o flanco esquerdo de seu exército sofrer um dano grave, mas Qutuz permaneceu firme, ele jogou o capacete no ar e gritou “Pelo Islã!”, e avançou em direção ao lado danificado, seguido por seus homens.

Os mongóis foram empurrados para trás e fugiram paravizinhança de Bisan, seguidos pelas forças de Qutuz, mas conseguiram se reunir e retornaram ao campo de batalha, fazendo um contra-ataque bem-sucedido. Qutuz gritou em voz alta três vezes: “Pelo Islã! Ó Allah, conceda ao seu servo Qutuz uma vitória sobre os mongóis”. Os mongóis com seus aliados cristãos e muçulmanos (emires aiúbidas), foram totalmente derrotados pelo exército de Qutuz e fugiram para a Síria, onde se tornaram presas da população local. Qutuz beijou o chão e orou enquanto os soldados recolhiam o espólio. Kitbuqa, o comandante do exército mongol, foi morto e sua cabeça foi enviada para o Cairo.

Esta foi a primeira derrota sofrida pelos mongóis desde que atacaram o mundo islâmico. Eles fugiram de Damasco e depois de todo o Levante do norte. Qutuz entrou em Damasco com seu exército e enviou Baibars a Homs para liquidar os mongóis restantes. Enquanto Alam ad-Din Sonjar foi nomeado por Qutuz como vice do sultão em Damasco, Qutuz concedeu Alepo a al-Malik al-Said Ala’a ad-Din o Emir de Mosul e um novo califa abássida foi nomeado, dando a legitimidade religiosa que o agora todo poderoso sultão necessitava.

Todo o Levante da fronteira do Egito ao rio Eufrates foi libertado dos mongóis. Quando Hulagu soube da derrota do exército mongol, ele executou Nasir Yusuf perto de Tabriz. Hulagu continuava ameaçando o sultanato mameluco, mas logo ele foi duramente atingido por conflitos com os mongóis da Horda Dourada, na metade ocidental de a estepe da Eurásia, que haviam se tornado muçulmanos. Hulagu morreu em 1265. Ele nunca vingaria a derrota dos mongóis em Ain Jalut.

A Batalha de Ain Jalut também é notável por ser a primeira batalha conhecida em que canhões de mão explosivos (midfa em árabe) foram usados. Esses explosivos foram empregados pelo mamelucos para assustar os cavalos mongóis e causar desordem em suas fileiras, fazendo-os perder seu maior trunfo. As composições explosivas de pólvora desses canhões foram posteriormente descritas em manuais químicos e militares árabes no início do século XIV.

No caminho de volta ao Cairo, em 4 de Outubro de 1260, após menos de um ano como sultão, Qutuz foi assassinado em Salihiyah, de onde a campanha havia partido. Segundo os historiadores muçulmanos modernos e medievais, Baibars esteve envolvido diretamente no assassinato. A motivação de Baibars seria vingar a morte de seu amigo, o também mameluco Faris ad-Din Aktai, durante o reinado do sultão Aybak ou devido a Qutuz conceder Alepo a outro ao invés dele, contrariando o que havia prometido antes da batalha de Ain Jalut.

Qutuz foi enterrado pela primeira vez na cidade de Al-Qusair e depois novamente em um cemitério no Cairo. Baibars retornou ao Cairo, que estava em festa comemorando a vitória sobre os mongóis, onde se tornou o novo sultão. Ele foi imediatamente admirado pelo povo ao revogar os impostos de guerra impostos por Qutuz. Na história islâmica seu nome é sempre acompanhado pela alcunha “Saif ad-Din”, ou “Espada da Religião.”

Recomendações de Leitura

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Victor Peixoto

Digital influencer, startuper e produtor de conteúdo com impacto em mais de 200 mil pessoas por mês. Estudante da história e religião Islâmica, falante de árabe, inglês e espanhol.

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