DestaqueNotícias

Você sabia que o pai da medicina moderna era muçulmano?

Versado em diversas ciências, Avicena é visto por muitos como o grande precursor da medicina moderna. Dentre suas obras mais famosas estão o “Livro da Cura” – uma vasta enciclopédia filosófica e científica – e o “Cânone da Medicina”, que era o texto padrão utilizado em muitas universidades medievais européias, como a Universidade de Montpellier e a Universidade Católica de Leuven, ainda em 1650.

Embora seja mais conhecido no Ocidente por essa alcunha, seu verdadeiro nome era Abū ʿAlī al-Ḥusayn ibn ʿAbd Allāh ibn Sīnā e ele viveu entre os anos de 980 e 1037. Muçulmano persa, Avicena é considerado como um dos maiores médicos, astrônomos, pensadores e escritores da Era de Ouro Islâmica.

O pai da medicina moderna

Foi aos 16 anos que seu interesse pela medicina foi despertado. Apesar da pouca idade, ele não se limitou a assistir a aulas e ler livros sobre o assunto. Avicena costumava atender gratuitamente os mais necessitados e, de acordo com seus próprios escritos, assim descobria novos métodos de tratamento.

O adolescente alcançou o status de médico qualificado aos 18 anos e afirmou que “a medicina não é uma ciência difícil e espinhosa, como a matemática e a metafísica, então eu fiz um grande progresso, me tornei um excelente médico e comecei a tratar pacientes, usando curas eficazes “. A fama do jovem médico se espalhou rapidamente.

Muitos de seus (cerca de) 240 escritos sobreviveram. Desses, 150 são sobre filosofia e 40 sobre medicina. Seus estudos sobre a medicina apresentam um sistema completo desenvolvido à luz dos princípios de Galeno e Hipócrates.

Essas obras fazem dele um dos principais escritores do mundo islâmico no campo da medicina ao lado de nomes como al-Razi, al-Zahrawi, Ibn al-Nafis e al-Ibadi. Já no mundo ocidental, Avicena é lembrado como uma figura histórica importante que fez significativas contribuições para a medicina e o Renascimento europeu.

Seus textos médicos eram incomuns e apresentavam controvérsias entre os pontos de vista de Galeno e Aristóteles sobre questões como a anatomia. Para ele, a posição de Aristóteles – o seu preferido entre os dois – demandava atualização para que levassem em consideração os avanços mais recentes acerca do conhecimento anatômico.

A influência intelectual dominante de Aristóteles entre os eruditos europeus medievais resultou no aumento expressivo da importância de Avicena na região quando comparado com outros escritores islâmicos. Além disso, tornaram-se notáveis os seus escritos médicos, nos quais estabelecia ligações entre Galeno com os escritos filosóficos de Aristóteles no “Cânone da Medicina”, que também abarcava sua organização abrangente e lógica do conhecimento.

Sua influência na sequência da tradução do cânone era tal que, desde o início do século XIV até o século XVI, ele era chamado na Europa de princeps medicorum (príncipe dos médicos).

A vida de Avicena

Retrato de Avicena em preto e branco.
Reprodução / WikiMedia Commons

Avicena nasceu no ano de 980 em Afshana, uma aldeia perto de Bukhara (no atual Uzbequistão), a capital dos samânidas (819–999), dinastia muçulmana persa na Ásia Central e Grande Khorasan.

Sua mãe, chamada Sitāra, era de Bukhara; seu pai, Abdullāh, era um respeitado estudioso xiita ismaelita de Balkh, uma cidade importante do Império Samânida, no Afeganistão. Ele era funcionário público da administração samânida na cidade de Kharmasain, um potentado regional sunita.

Aos 10 anos de idade, o jovem Avicena já havia atingido a maestria nas ciências corânicas e literárias disponíveis em sua cidade, tendo memorizado de cor todo o livro sagrado islâmico.

Com um verdureiro indiano de nome Mahmoud Massahi, o jovem prodígio aprendeu aritmética e – como se não fosse suficiente ser um matemático na primeira década de vida – também passou a estudar a arte de curar com um erudito itinerante que havia conhecido. Estudou jurisprudência islâmica com o sábio sunita da escola hanafi Ismail al-Zahid e filosofia helênica com o impopular Abdullah Nateli.

Na adolescência, era a metafisica de Aristóteles que lhe ocupava a cabeça e fugia de sua compreensão. Quando se sentia irrequieto por conta dos pensamentos filosóficos, costumava deixar seus livros de lado, fazer o ritual de purificação islâmico com água e ir à mesquita mais próxima com o objetivo de entrar em estado de oração até que a luz divina clareasse suas ideias.

O jovem leu repetidamente os escritos de Aristóteles por 40 dias e os memorizou, mas ainda não conseguia compreendê-los. Até que por 3 dirhams de prata acabou comprando os comentários de Al-Farabi (872 -950) sobre os escritos do filósofo grego. Foi assim que, enfim, entendeu Aristóteles. Tão grande foi sua alegria pela descoberta, feita com a ajuda de uma obra da qual ele esperava apenas mistério, que se apressou em seus louvores a Allah e deu esmolas aos pobres em agradecimento.

A carreira de Avicena

Em 997, seu primeiro emprego foi como médico do emir samânida Nuh II, a quem devia curar de uma grave doença. Como maior parte do pagamento por seu serviço, foi-lhe permitido o acesso à biblioteca real dos samânidas, famosos por serem considerados patronos do conhecimento e de estudiosos.

Quando a biblioteca foi destruída por um incêndio não muito tempo depois, seus invejosos rivais o acusaram de ser responsável pelo crime, alegando que o rapaz desejava manter para si a fonte de seus conhecimentos.

A dinastia samânida chegou ao fim em 999 e, depois disso, há evidências de que Avicena teria recusado as ofertas do sultão Mahmud de Ghazni para que atuasse em sua corte. Ao invés disso, o pai da medicina teria prosseguido para o oeste, em direção a Urgench, onde hoje é o Turcomenistão.

Na nova região, passou a receber do vizir, que era visto como um amigo dos estudiosos, um pequeno salário. Entretanto, o pagamento era insuficiente, o que levou Avicena a vagar de um lugar para outro, percorrendo os distritos de Nishapur e Merv até as fronteiras de Khorasan, buscando uma oportunidade para seus talentos.

O pai da medicina esperava ser acolhido pelo generoso governante do Tabaristão Qabus ibn Wushmagir, que era poeta e estudioso. No entanto, nesta época (1012), ele estava morrendo de fome porque suas tropas haviam se revoltado. O próprio Ibn Sina acabou adoecendo gravemente.

Finalmente, em Gorgan, perto do Mar Cáspio, Avicena se encontrou com um amigo, que, para ajudá-lo, comprou-lhe uma casa perto de onde ele mesmo morava. Naquele local, ele passou a lecionar sobre lógica e astronomia. Esse é um momento importante de sua vida, pois vários de seus tratados – incluindo o princípio do “Cânone da Medicina” – foram escritos para esse patrono.

Após esse período, Avicena se estabeleceu em Rey, na vizinhança da Teerã moderna, a cidade natal de al-Razi; onde Majd ad-Dawla, filho do último emir buída, era o governador nominal sob a regência de sua mãe (Seyyedeh Khatun).

Aproximadamente trinta dos mais curtos escritos de Avicena foram escritos em Rey. Contudo, as disputas constantes entre a regente e seu segundo filho Shams al-Daula, obrigaram o médico a deixar o lugar. Depois de uma breve estadia em Qazvin, ele passou para o sul em Hamadan, onde Shams al-Daula, outro emir buída, reinava.

Lá, a princípio, ficou a serviço de uma dama da alta sociedade; mas o emir, ouvindo sobre sua chegada, fez questão de colocá-lo no posto de assistente médico e o enviou de volta com presentes para casa. Ele chegou até mesmo a ser elevado ao posto de vizir.

Após um desentendimento, o emir decretou que ele deveria ser banido do país. Avicena, no entanto, permaneceu escondido por 40 dias na casa do sheykh Ahmed Fadhel, até que um novo ataque de doença induzisse o emir a restaurá-lo a seu cargo.

Mesmo durante esse período conturbado, ele perseverou com seus estudos e ensinamentos. Todas as noites ele extraía escritos de suas obras e lecionava para seus estudantes. Com a morte do emir, Ibn Sina deixou de ser vizir e se escondeu na casa de um boticário, onde, com intensa assiduidade, continuou a construir o seu legado.

Nesse meio tempo, ele escreveu para Abu Ya’far, o prefeito da cidade dinâmica de Isfahan, oferecendo seus serviços. O novo emir de Hamadan, ouvindo esta correspondência e descobrindo onde Avicena estava escondido, o encarcerou em uma fortaleza. Enquanto isso, a guerra continuava entre os governantes de Isfahan e Hamadan.

Em 1024, Abu Ya’far capturou Hamadan e suas cidades, expulsando os mercenários tajiques. Quando a tempestade passou, Ibn Sina voltou com o emir para Hamadan e continuou seus trabalhos literários. Mais tarde, no entanto, acompanhado por seu irmão, um aluno favorito e dois escravos, ele escapou da cidade com as vestes de um asceta sufi. Depois de uma jornada perigosa, chegaram a Isfahan, recebendo uma honrosa saudação do príncipe.

O que Avicena seguia

Uma série de teorias foram propostas em relação a qual madhab (escola de pensamento dentro da jurisprudência islâmica) Avicena seguia. O historiador medieval Ẓahīr al-dīn al-Bayhaqī (d. 1169) o considerou como um seguidor dos “Ikhwān Al-Ṣafā” ou ”Irmãos da Pureza”, sociedade secreta medieval islâmica de filósofos.

Os estudiosos Dimitri Gutas, Aisha Khan e Jules J. Janssens, por sua vez, sustentam que Avicena era um hanafi sunita. No entanto, também há a tese de que ele seria um xiita duodecimano. Conforme Seyyed Hossein Nasr, era assim que pensava o jurista xiita Nurullah Shushtari, do século XIV.

Já Sharaf Khorasani, citando a rejeição de um convite do governador sunita (o sultão Mahmoud Ghazanavi) por Avicena a sua corte, acredita que Avicena era xiita ismaelita.

Desacordos semelhantes existem também no que diz respeito a sua família. Enquanto alguns escritores os consideravam sunitas, mais recentemente há aqueles que contestam que eram xiitas. Em resumo, não há consenso sobre qual vertente do Islã ele seguia.

A filosofia de Avicena

Uma de suas contribuições para a teologia foi sua teoria para a existência de Deus, conhecida como “Prova do Verdadeiro” (do árabe: al-burhan al-siddiqin). Avicena argumentava que deveria haver um “existente necessário” (wajib al-wujud), uma entidade pré-eterna fora da existência.

A partir de uma série de argumentos, ele identificou que esse seria o conceito de Deus para o Islã. Peter Adamson, historiador da filosofia, considerou que essa formulação seria uma das mais influentes da Idade Média para provar a existência divina, além de ser a maior contribuição de Avicena para a história da filosofia.

A psicologia de Avicena e sua teoria do conhecimento influenciaram William de Auvergne, bispo de Paris e Albertus Magnus, enquanto sua metafísica influenciou o pensamento de Tomás de Aquino.

O prestígio de Avicena

Estátua de Avicena em Bukhara.
Reprodução / WikiMedia Commons

No século XIII, Dante Alighieri o retratou no Limbo ao lado dos virtuosos pensadores não-cristãos em sua Divina Comédia, como Virgílio, Averróis, Homero, Horácio, Ovídio, Lucano, Sócrates, Platão e Saladino. Avicena foi reconhecido pelo Oriente e Ocidente, como uma das grandes figuras da história intelectual.

George Sarton, o autor de ”The History of Science”, descreveu Avicena como “um dos maiores pensadores e estudiosos médicos da história” e o chamou de “cientista mais famoso do Islã e uma dos mais famosos de todas as raças, lugares e épocas “.

Os últimos 10 ou 12 anos da vida de Avicena foram gastos a serviço do sultão kakuyida Muhammad ibn Rustam Dushmanziyar (também conhecido como Ala al-Dawla), o qual ele acompanhou como médico, conselheiro literário e científico, até mesmo em suas numerosas campanhas. Durante esses anos ele voltou ao estudo da literatura e filosofia, instigado pelo criticismo a seu estilo.

A morte de Avicena

Um cólica severa que o acometeu na marcha do exército contra Hamadan, foi tratado com remédios tão fortes que Avicena mal podia andar. Em uma ocasião similar a doença voltou; com dificuldade, ele chegou a Hamadan, aqui, vendo a doença avançar, ele se recusou a manter o regime que lhe fora receitado e se resignou ao destino.

Seu amigo lhe aconselhou a repousar, e levar uma vida um pouco mais tranquila. Ele recusou, dizendo que: ”Eu prefiro uma vida curta e larga de que uma estreita e longa”. Em seu leito de morte o remorso lhe atingiu; ele deu seus bens aos pobres, devolveu ganhos injustos, libertou seus escravos e lia todo Alcorão a cada três dias até que morreu em 1037, aos 58 anos de idade no mês sagrado de Ramadã, e foi enterrado em Hamadan, no atual Irã.

Equipe História Islâmica

O História Islâmica é uma iniciativa com mais de meia década de existência, que visa preencher uma importante lacuna no conhecimento popular: a consciência do legado muçulmano. Sendo a maior página de seu gênero em língua portuguesa, buscamos sempre nos atualizar em pesquisas para trazer um conteúdo de qualidade ao nosso público.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo
Fechar