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Abū ʿAlī al-Ḥusayn ibn ʿAbd Allāh ibn Sīnā (930-1037), mais conhecido no Ocidente como “Avicena” foi um polímata muçulmano persa que é considerado como um dos maiores médicos, astrônomos, pensadores e escritores da Era de Ouro Islâmica. Ele é visto por muitos como o grande percursor da medicina moderna precoce, e dos muitos de seus escritos cerca de 240 sobreviveram, incluindo 150 em filosofia e 40 em medicina. As suas obras mais famosas são o “Livro da Cura”, uma vasta enciclopédia filosófica e científica, e o “Cânone da Medicina”, que era o texto padrão em muitas universidades medievais européias, entre elas a Universidade de Montpellier e a Universidade Católica de Leuven, ainda em 1650. Ela apresenta um sistema completo de medicina em acordo com os princípios de Galeno e Hipócrates.A psicologia de Avicena e a teoria do conhecimento influenciaram William de Auvergne, bispo de Paris e Albertus Magnus, enquanto sua metafísica influenciou o pensamento de Tomás de Aquino.

No século XIII, Dante Alighieri o retratou no Limbo ao lado dos virtuosos pensadores não-cristãos em sua Divina Comédia, como Virgílio, Averróis, Homero, Horácio, Ovídio, Lucano, Sócrates, Platão e Saladino. Avicena foi reconhecido pelo Oriente e Ocidente, como uma das grandes figuras da história intelectual.

George Sarton, o autor de ”The History of Science”, descreveu Avicena (Ibn Sīnā) como “um dos maiores pensadores e estudiosos médicos da história” e o chamou de “cientista mais famoso do Islã e uma dos mais famosos de todas as raças, lugares e épocas “. Ele foi um dos principais escritores do mundo islâmico no campo da medicina. Junto com al-Razi, al-Zahrawi, Ibn al-Nafis e al-Ibadi, Ibn Sīnā é considerado um compilador importante da medicina muçulmana precoce. Ele é lembrado na história da medicina ocidental como uma figura histórica importante que fez importantes contribuições para a medicina e o Renascimento europeu. Seus textos médicos eram incomuns naquilo em que existia controvérsia entre os pontos de vista de Galeno e Aristóteles sobre questões médicas (como a anatomia), ele preferia se juntar a Aristóteles, onde era necessário atualizar a posição de Aristóteles para levar em consideração os avanços pós-aristotélicos no conhecimento anatômico. A influência intelectual dominante de Aristóteles entre os eruditos europeus medievais significou que a ligação de Avicena aos escritos médicos de Galeno com os escritos filosóficos de Aristóteles no Canon de Medicina (juntamente com sua organização abrangente e lógica do conhecimento) aumentou significativamente a importância de Avicena na Europa medieval em comparação com outros escritores islâmicos. Sua influência na sequência da tradução do Canon era tal que, desde o início do século XIV até o século XVI, ele era chamado na Europa de, ”princeps medicorum’ (“príncipe dos médicos”).

Avicena nasceu no ano de 980 em Afshana, uma aldeia perto de Bukhara (no atual Uzbequistão ), a capital dos samânidas (819–999), dinastia muçulmana persa na Ásia Central e Grande Khorasan. Sua mãe, chamada Sitāra, era de Bukhara; seu pai, Abdullāh, era um respeitado estudioso xiita ismaelita de Balkh, uma cidade importante do Império Samânida, no Afeganistão. Seu pai era funcionário público da administração samânida na cidade de Kharmasain, um potentado regional sunita. Aos dez anos de idade, o jovem Avicena já havia mestrado as ciências corânicas e literárias disponíveis em sua cidade, tendo memorizado de cor todo o livro sagrado islâmico. Com um verdureiro indiano de nome Mahmoud Massahi o jovem prodígio aprendeu aritmética, e como se não fosse suficiente ser um matemático na primeira década de vida, ele também passou a estudar a arte de curar com um erudito itinerante que havia conhecido. Estudou jurisprudência islâmica com o sábio sunita da escola hanafi Ismail al-Zahid e filosofia helênica com o impopular Abdullah Nateli.

Na adolescência, era a metafisica de Aristóteles que lhe preenchia os pensamentos e não atingia-lhe a compreensão. Quando irrequieto com questões filosóficas, costumava deixar seus livros de lado, fazer a purificação ritual islâmica com água, e ir a mesquita mais próxima entrar em estado de oração até que a luz divina clareasse seus pensamentos. O jovem leu repetidamente os escritos de Aristóteles por 40 dias, e os memorizou, mas não os compreendia. Até que por 3 dirhams de prata ele comprou os comentários de al-Farabi (872 -950) sobre os escritos do filosofo grego, e em fim entendeu Aristoteles. Tão foi sua alegra pela descoberta, feita com a ajuda de uma obra da qual ele esperava apenas mistério, que se apressou em seus louvores a Allah e deu esmolas aos pobres em agradecimento.

Um de seus contributos para a teologia foi sua teoria para a existência de Deus, conhecida como “Prova do Verdadeiro” (do árabe: al-burhan al-siddiqin). Avicena argumentava que deveria haver um “existente necessário” (wajib al-wujud), uma entidade pré eterna fora da existência e através de uma série de argumentos, ele identificou isto com o conceito de Deus no Islã. Peter Adamson, historiador da filosofia, chamou este argumento de um dos mais influentes da Idade Média para provar a existência divina. e a maior contribuição de Avicena para a história da filosofia.

Ele voltou-se para a medicina aos 16 anos, contudo não se limitando as aulas e livros, Avicena costumava atender gratuitamente os mais necessitados e de acordo com seus próprios escritos, assim descobria novos métodos de tratamento. O adolescente alcançou o status completo de médico qualificado aos 18 anos e descobriu que “a medicina não é uma ciência difícil e espinhosa, como a matemática e a metafísica, então eu fiz um grande progresso, me tornei um excelente médico e comecei a tratar pacientes, usando curas eficazes “. A fama do jovem médico se espalhou rapidamente, e ele tratava muitos pacientes sem solicitar pagamento.

Uma série de teorias foram propostas em relação a qual madhab (escola de pensamento dentro da jurisprudência islâmica) Avicenna seguia. O historiador medieval Ẓahīr al-dīn al-Bayhaqī (d. 1169) considerou Avicena como um seguidor dos “Ikhwān Al-Ṣafā” ou ”Irmãos da Pureza”, sociedade secreta medieval islâmica de filósofos. Por outro lado, Dimitri Gutas, juntamente com Aisha Khan e Jules J. Janssens, demonstraram que Avicena era um hanafi sunita. No entanto, o jurista xiita Nurullah Shushtari , do século XIV, de acordo com Seyyed Hossein Nasr , sustentou que ele era provavelmente um xiita duodecimano. Por outro lado, Sharaf Khorasani , citando a rejeição de um convite do governador sunita, o sultão Mahmoud Ghazanavi por Avicena a sua corte, acredita que Avicena era xiita ismaelita. Desacordos semelhantes existem no contexto da família de Avicena, enquanto alguns escritores os consideravam sunitas, alguns escritores mais recentes contestaram que eram xiitas. Em resumo, não há consenso sobre qual vertente do Islã ele seguia.

Seu primeiro emprego foi como médico do emir samânida Nuh II, a quem lhe devia a cura de uma grave doença em 997. Como maior parte do pagamento por seu serviço, foi lhe permitido o acesso a livraria real dos samânidas, bem conhecidos patronos do conhecimento e de estudiosos. Quando a livraria foi destruído por um incendio não muito tempo depois, seus invejosos rivais o acusaram de ser responsável pelo crime, alegando que o rapaz desejava manter para si a fonte de seus conhecimentos. As vezes, ele ajudava seu pai para conseguir alguma fonte de renda extra, mas ainda assim encontrava tempo para escrever seus primeiros trabalhos.

Aos 22 anos, ele perdeu seu pai. A dinastia samânida chegou ao fim em 999, e Avicena parece ter recusado as ofertas do sultão Mahmud de Ghazni para que atuasse em sua corte, então prosseguiu para o oeste para Urgench no Turquemenistão moderno, onde o vizir, considerado amigo de estudiosos, deu-lhe um pequeno salário mensal. O pagamento era insuficiente, então Avicena vagava de um lugar para outro através dos distritos de Nishapur e Merv até as fronteiras de Khorasan, buscando uma oportunidade para seus talentos. Qabus ibn Wushmagir, o generoso governante do Tabaristão, ele próprio poeta e estudioso, com quem Ibn Sina esperava encontrar asilo, estava nesta época (1012) morrendo de fome pois suas tropas haviam se revoltado. O próprio Ibn Sina foi atingido por uma doença grave. Finalmente, em Gorgan, perto do Mar Cáspio, Ibn Sina se encontrou-se com um amigo, que comprou-lhe uma habitação perto de sua própria casa na qual Ibn Sina lecionava sobre lógica e astronomia. Vários dos tratados de Ibn Sina foram escritos para esse patrono, e o início de seu Canon de Medicina também data da sua permanência ali.

Avicena subsequentemente se estabeleceu em Rey, na vizinhança da Teerã moderna, a cidade natal de al-Razi; onde Majd ad-Dawla, filho do último emir buída, era o governando nominal sob a regência de sua mãe (Seyyedeh Khatun). Aproximadamente trinta dos mais curtos escritos de Avicena foram escritos em Rey. Disputas constantes entre a regente e seu segundo filho, Shams al-Daula, no entanto, obrigaram o erudito a sair do lugar. Depois de uma breve estadia em Qazvin, ele passou para o sul em Hamadan, onde Shams al-Daula, outro emir buída, reinava.

No iniciou, ficou a serviço de uma dama da alta sociedade; mas o emir, ouvindo sobre sua chegada, o colocou no posto de assistente médico e o enviou de volta com presentes para casa. Ele chegou até mesmo a ser elevado ao posto de vizir. Após um desentendimento, o emir decretou que ele deveria ser banido do país. Avicena, no entanto, permaneceu escondido por quarenta dias na casa do sheykh Ahmed Fadhel, até que um novo ataque de doença induzisse o emir a restaurá-lo a seu ccargo. Mesmo durante esse período conturbado, Ibn Sina perseverou com seus estudos e ensinamentos. Todas as noites ele extraia escritos de suas obras e lecionava para seus estudantes. Com a morte do emir, Ibn Sina deixou de ser vizir e se escondeu na casa de um boticário, onde, com intensa assiduidade, continuou a composição de suas obras.

Enquanto isso, ele escreveu para Abu Ya’far, o prefeito da cidade dinâmica de Isfahan, oferecendo seus serviços. O novo emir de Hamadan, ouvindo esta correspondência e descobrindo onde Ibn Sina estava escondido, o encarcerou em uma fortaleza. Enquanto isso, a guerra continuava entre os governantes de Isfahan e Hamadan; em 1024, o primeiro capturou Hamadã e suas cidades, expulsando os mercenários tajiques. Quando a tempestade passou, Ibn Sina voltou com o emir para Hamadan e continuou seus trabalhos literários. Mais tarde, no entanto, acompanhado por seu irmão, um aluno favorito e dois escravos, Ibn Sina escapou da cidade comas vestes de um asceta sufí. Depois de uma jornada perigosa, chegaram a Isfahan, recebendo uma honrosa saudação do príncipe.

Os últimos dez ou doze anos da vida de Avicena foram gastos a serviço do sultão kakuyida Muhammad ibn Rustam Dushmanziyar (também conhecido como Ala al-Dawla), o qual ele acompanhou como médio e conselheiro literário e ciêntifico, até mesmo em suas numerosas campanhas.

Durante estes anos ele voltou ao estudo da literatura e filosofia, instigado pelo cristicismo a seu estilo. Um cólica severa que o acometeu na marcha do exército contra Hamadan, foi tratado com remédios tão fortes que Avicena mal podia andar. Em uma ocasião similar a doença voltou; com dificuldade, ele chegou a Hamadan, aqui, vendo a doença avançar, ele se recusou a manter o regime que lhe fora receitado e se resignou ao destino.

Seu amigo lhe aconselhou a repousar, e levar uma vida um pouco mais tranquila. Ele recusou, dizendo que: ”Eu prefiro uma vida curta e larga de que uma estreita e longa”. Em seu leito de morte o remorso lhe atingiu; ele deu seus bens aos pobres, devolveu ganhos injustos, libertou seus escravos e lia todo Alcorão a cada três dias até que morreu em 1037, aos 58 anos de idade no mês sagrado de Ramadã, e foi enterrado em Hamadan, no atual Irã.


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