DestaqueNotícias

Peregrinação à Meca: Um dos Principais destinos Turísticos do Império Britânico

Nesta semana, milhões de muçulmanos fazem a peregrinação anual à Meca, conhecida como Hajj. Um estudo recente revela como a jornada espiritual se tornou uma característica importante da cultura imperial britânica na era do Império, atraindo o interesse da Rainha Victoria, de Winston Churchill e de outros – e como virou um dos primeiros pacotes turísticos de Thomas Cook.

Os turistas modernos costumam reservar sete noites em Tenerife ou, de última hora, no Algarve. Mas, no século XIX, o principal pacote turístico de Thomas Cook era o da peregrinação à Meca.

Na década de 1880, o governo colonial britânico na Índia se viu numa situação complicada. Com mais súditos muçulmanos do que nunca viajando à cidade sagrada árabe para a realização anual do Hajj, as preocupações acerca da exploração dos passageiros e da precariedade das condições sanitárias, dois problemas que a viagem geralmente envolvia, alcançaram o limite.

Enfrentando ataques da mídia, as autoridades britânicas decidiram recorrer a profissionais. Chamaram Thomas Cook e Filho, os primeiros empreendedores turísticos. Logo, eles se tornaram os agentes de viagem oficiais do Hajj, o quinto pilar do Islã.

Essa história é uma de muitas que estão presentes num novo estudo sobre a relação da Inglaterra com o Hajj na era do Império, conduzido por Dr. John Slight da Faculdade de História de Cambridge e um companheiro de pesquisa do St. John’s College, também da Universidade de Cambridge. Em oposição à sua imagem atual como algo distante e até mesmo exótico, ele afirma que a peregrinação, que será realizada por milhões de muçulmanos neste ano entre os dias 20 e 25 de setembro, era causa de grande preocupação para o governo britânico. Personalidades históricas importantes e o público em geral se fascinavam com o ritual, à medida em que o processo de governar um império vasto levava a Inglaterra a agir como se ela mesma fosse uma potência islâmica.

O livro revela que personalidades como a Rainha Victoria, o Rei George V, Lorde Kitchener, Lawrence da Arábia e Winston Churchil se interessaram ativamente pelo Hajj, debateram sua administração e incluíram a data em suas agendas. A peregrinação chegou a ser incluída numa aventura de Sherlock Holmes, num romance de Joseph Conrad e inspirou ingleses de todo o império a se converterem ao Islã.

A relação da Inglaterra com o Hajj é um assunto que nunca havia sido bem estudado pelos historiadores. A pesquisa de Slight cobriu o período entre 1865, quando uma epidemia de cólera forçou a Inglaterra a administrar o Hajj de maneira mais proativa, até 1956, quando a crise de Suez reduziu significativamente esse poder inglês de administração.

Por grande parte deste período, a Inglaterra foi o governo de aproximadamente metade dos muçulmanos do mundo, com controle desde o oeste da África até o sudeste da Ásia. Em termos mundiais, a primeira religião do Império era o Islã e ele tinha mais cidadãos muçulmanos do que de outras religiões.

Como resultado, o Hajj – um ato religioso obrigatório que deve ser realizado ao menos uma vez na vida de todos os adultos muçulmanos capazes – se tornou um assunto da Inglaterra. O próprio Churchill comentou em 1920, num memorando ao Gabinete do Reino Unido: “Somos a maior potência mohamediana do mundo. É nosso dever estudar políticas que entrem em harmonia com o sentimento mohamediano.”

A pesquisa de Slight revela que a administração inglesa do Hajj teve início com regularizações para impedir o alastro de doenças, mas logo expandiu e virou uma burocracia integral. Da metade ao final do século XIX, as autoridades britânicas estavam cada vez mais obrigadas a gerenciar a peregrinação, para que fossem vistas como amigas e protetoras do Islã.

“Foi uma das mais importantes consequências não intencionais do domínio britânico por sobre grande parte do mundo islâmico”, disse Slight. “A Inglaterra acabou facilitando a peregrinação numa tentativa, que no fim das contas foi fútil, de obter legitimidade entre os cidadãos muçulmanos. Inadvertidamente, acabou agindo como potência islâmica.”

Slight descobriu que essa preocupação acerca do Hajj alcançou diretamente o topo do estado britânico. A Rainha Victoria desenvolveu um interesse pessoal sobre o assunto, por exemplo, após conhecer alguns peregrinos sul-africanos. Em 1898, ela ordenou ao embaixador britânico em Istambul que reivindicasse ao sultão otomano, que tinha o domínio sobre Meca, que cuidasse da situação dos maus tratos aos cidadãos britânicos que realizavam o dever sagrado.

Mais tarde, durante a guerra contra os otomanos em 1915, Lorde Kitchener reiterou ao Comitê de Guerra Britânico a necessidade de tomar o controle sobre os “Locais Sagrados Mahomedianos” e, com esse controle, atingir o prestígio da Inglaterra aos olhos dos cidadãos muçulmanos. O Rei George V também desenvolveu um plano para que os soldados indianos muçulmanos fizessem o Hajj na viagem de volta depois da Primeira Guerra Mundial, com a intenção de melhorar as relações públicas, mas o plano não teve bem o resultado esperado; alguns participantes brigaram com beduínos locais.

O governo solicitou a presença de Thomas Cook em 1886, após o escândalo acerca do naufrágio parcial de um navio de peregrinos, que virou manchete do jornal The Times. A firma de Thomas Cook recebeu um contrato para que obtivesse passagens, viagens de trem, navios e outros serviços logísticos que permitissem que os muçulmanos indianos, súditos da Coroa Britânica, realizassem o Hajj.

Já em 1893, no entanto, a empresa teve tanto prejuízo que decidiu parar com o negócio. “Alguns oficiais do governo me disseram que sou incapaz de realizar melhorias”, disse John Mason Cook, filho de Thomas. “Eu os lembrei que os oficiais do governo foram, em grande parte, incapazes de fazer qualquer coisa acerca da peregrinação.”

Esses comentários refletem uma das maiores descobertas de Slight, que diz respeito às centenas de milhares de peregrinos de pouco estudo, pobres e miseráveis, que fizeram o Hajj. De começo. praticamente sem meios de ir, muitos desses peregrinos chegavam sem dinheiro em Meca e ficavam sem ter como sair do porto de Gidá. A repatriação deles se tornou um grande problema para os ingleses e, como diz Slight, ilustra os limites do poder do Império Britânico.

Na Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra estava essencialmente omitindo dos registros os custos de levar esses peregrinos de volta para suas terras, um custo que era muito alto. Tentaram aplicar um sistema de títulos de débito, mas reaver a dívida era quase sempre uma esperança vã. O estudo de Slight sobre os arquivos revelou que muitos peregrinos analfabetos assinavam com impressões do polegar e que muitos outros davam nomes falsos ou até mesmo falsificavam o nome do vilarejo em que viviam. A maioria desses títulos de débito não foi paga.

O apuro dos peregrinos pobres também pressionou as autoridades para que empregassem mais muçulmanos, capazes de lidar com as necessidades deles, na burocracia do Hajj. Na altura de 1887, Bombaim tinha seu próprio Departamento dos peregrinos com funcionários muçulmanos que era gerenciado por um “protetor dos peregrinos” muçulmano. Em 1930, o consulado britânico de Gidá era tão dependente de funcionários muçulmanos que o cônsul comentou que nunca havia visto muito da peregrinação em si.

“Temos a ideia de que o poder no Império Britânico era sempre imposto de cima, mas na verdade era um empreendimento bastante fortuito”, disse Slight. “Em vez da imagem dos oficiais ingleses com seus capacetes salacot, distribuindo a justiça entre os súditos coloniais, é uma história onde os protagonistas dos dois lados eram muçulmanos que, até certo ponto, chegavam a moldar a política imperial.”

Um efeito do papel da Inglaterra como “potência islâmica” foi o de que outros ingleses foram inspirados a realizar o Hajj e a se converterem ao Islã. O mais famoso foi o explorador vitoriano Richar Burton, que viajou para Meca, onde era proibida a entrada de não muçulmanos, disfarçado de médico afegão. Arthur Hamilton, também conhecido como “Hajji Hamilton”, era diretor do Escritório de Inteligência Política na Malásia Britânica e realizou o Hajj em 1927 –é um dos vários convertidos de estatura registrados no livro.

Fonte: https://www.cam.ac.uk/research/news/package-tour-to-mecca-how-the-hajj-became-an-essential-part-of-the-british-calendar

Victor Peixoto

Digital influencer, startuper e produtor de conteúdo com impacto em mais de 200 mil pessoas por mês. Estudante da história e religião Islâmica, falante de árabe, inglês e espanhol.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo
Fechar