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Osman Gazi: Como o sonho de um guerreiro criou o Império Otomano

A vida de Osman I, apesar de sua importância histórica, ainda é cercada de incertezas e dúvidas devido à escassez de fontes contemporâneas sobre ele. Osman ”Gazi” (guerreiro da fé), cuja data de nascimento não é sabida, foi o líder dos Turcos Otomanos (osmanli, literalmente “de Osman”) e fundador do Império Otomano, de onde deriva seu nome e de sua casa real. Uma vez que não há nenhuma obra contemporânea de Osman que conte sua vida, é difícil distinguir o que é factual ou mítico a respeito de sua história. Infelizmente sua história não receberia registros até o século XV, pouco mais de 100 anos após sua morte. Entretanto, conforme dizia o importante historiador otomano também do século XV, Aşıkpaşazade, o conceito econômico do aumento de valor a partir da escassez pode ser aplicado também à história, então nesse sentido qualquer documento que apresente informações a respeito da vida do sultão é considerado ainda mais valioso.

De acordo com a tradição otomana, Osman era descendente da tribo dos Kayi, em que sua linhagem derivava do lendário guerreiro Oguz Khan. A tribo Kayi, estabelecida na Anatólia1, foi uma das muitas tribos turcas vassalas do Império Seljúcida, e mais tarde também exerceria um papel basilar para a própria origem do Império Otomano.

Osman tornou-se chefe, ou bey, após a morte de seu pai, o lendário Ertugrul, em 1280. Assim, o principado Otomano foi um dos vários beilhiques da Anatólia que acabaram por emergir na segunda metade do século XII, situando-se na reigião norte da Ásia Menor, mais especificamente na Bitínia, após a destruição dos seljúcidas com a invasão mongol. Devido à localização avantajada, foi possível realizar ataques no já vulnerável Império Bizantino, que mais tarde os descendentes de Osman I viriam a finalmente conquistar. O primeiro evento que da vida de Osman em que é possível estabelecer uma data foi a batalha de Bafeus, por volta de 1301 ou 1302, em que o fundador do Império Otomano derrotou uma força bizantina que havia sido enviada para combate-lo. Além disso, Osman iria controlar também a cidade de Söğüt e de lá enviar ataques contra seu vizinho: Bizâncio.

Extenção do beilhique otomano durante o reinado de Osman I.

Conquistas

Quando Osman ainda era bey (senhor) de um beylic (beilhique) conquistou uma área equivalente a uma pequena cidade anatoliana, que hoje seria equivalente à 1/3 do território de Bursa, na Turquia, que corresponde a 1.036 km².  A visão de Osman, apesar de um homem humilde, era certamente ambiciosa, e isso pode ser claramente observado nas suas conquistas, uma vez que o mesmo não era apenas um ocupador que eventualmente saqueava a cidade a abandonava à própria sorte. Isso é algo que também pode ser observado na herança que deixou para seus filhos2: uma armadura de cavalo, um par de botas, alguns estandartes, uma espada, uma lança, uma caixa de flechas, três rebanhos de ovelhas, um saleiro e uma caixa com um jogo de colheres.

A espada de Osman, utilizada desde de sua época para o entronamento de sultões otomanos, que eram sagrados governantes com elas pelas mãos de dervixes sufis como fora o fundador da dinastia.

Até o fim do século XIII, as conquistas de Osman compreendiam as áreas de Bilecik, Yenisehir, Inegol e Yarhisar, todas na Turquia, assim como castelos pertencentes à Bizâncio nas respectivas áreas mencionadas.

Um fator importante nas conquistas de Osman, é que quando conquistou os territórios mais significativos de seu legado, se seguiu também o colapso da autoridade dos turcos Seljúcidas, principalmente nos episódios das ocupações das fortalezas de Eskisehir e Kulucahisar. A cidade de Yenisehir previamente citada foi a primeira conquista significativa nos territórios seljúcidas, servindo como a primeira capital do Império Otomano.

Já no começo do século XIV, mais especificamente em 1302, Osman conseguiu uma importante vitória contra as forças bizantinas próximo da cidade de Nicéia, começando assim a estabelecer suas forças cada vez mais próximas dos territórios controlados pelo Império Bizantino, sendo uma ameaça incessante até que finalmente os sucessores de Osman conquistassem o Império, capturando sua capital Constantinopla em 1453 pelo sultão Mehmet II.

Os bizantinos ameaçados pelo crescimento constante do sultão até tentaram conter a expansão Otomana, entretanto de maneira descoordenada e com péssima organização, resultando assim em apenas uma tentativa ineficaz de parar o avanço das forças turco-otomanas.

O grande sultão iria ainda expandir seu reino em pelo menos duas direções, indo ao norte pelo rio Sacaria e em direção sudeste na região do Mar de Mármara, atingindo seus objetivos de maneira impressionante por volta do ano 1308, ano esse que também seria marcado pela conquista dos seguidores de Osman da cidade bizantina de Éfeso, próximo do mar Egeu, sendo essa até então a última cidade de bizâncio na costa.

Já no que diz respeito à última campanha da vida de Osman na cidade de Bursa, apesar de o sultão não estar presente fisicamente na batalha, a vitória em Bursa foi vital para os Otomanos, conseguindo assim uma posição cada vez mais favorável contra os Bizantinos.

Ao que parece, a estratégia de Osman foi aumentar seu território às expensas do Império Bizantino, isso tudo enquanto evitava conflito com vizinhos turcos mais poderosos. Assim, suas primeiras incursões foram através das passagens que conduzem das áreas áridas do norte da Frígia perto da moderna Eskişehir para as planícies mais férteis da Bitínia, conquistas essas que foram possíveis através da derrota dos nobres bizantinos locais, enquanto que em outros momentos o meio seria diferente, como por exemplo através de compra e venda, casamento e demais meios pacíficos ou que não englobassem disputas militares3.

O Sonho de Osman

Osman era um homem humilde, porém com grandes ambições (no bom sentido). Não somente, mas também era um homem muito religioso e de profunda espiritualidade, conforme pode ser visto nas descrições póstumas sobre sua vida. O sultão possuía relações próximas com o líder da irmandade sufi dos Ahis, o sheikh Edebali, cuja filha Rabia Bala Hatun havia se casado com Osman. Certa noite, ao dormir na casa do sheikh, o sultão teria seu famoso sonho, que foi narrado por Aşıkpaşazade da seguinte maneira:  

Ele viu que uma lua surgiu do peito do homem santo e veio afundar em seu próprio peito. Uma árvore então brotou de seu umbigo e sua sombra envolveu o mundo. Debaixo dessa sombra havia montanhas e riachos fluíam do sopé de cada montanha. Algumas pessoas bebiam dessas águas correntes, outras regavam jardins, enquanto outras ainda faziam com que as fontes fluíssem. Quando Osman acordou, ele contou a história para o homem santo, que disse ‘Osman, meu filho, parabéns, porque Deus deu o cargo imperial para você e seus descendentes e minha filha Malhun será sua esposa (FINKEL, p. 32, 2007).

Representação artística da árvore geneologica do Sonho de Osman, com seus descendentes nos ramos e ele no tronco.

Existe também outra famosa descrição do sonho do sultão Osman, que segue da seguinte maneira:

Osman viu a si mesmo e seu anfitrião repousando perto um do outro. Do seio de Edebali ergueu-se a lua cheia e, inclinando-se em direção ao seio de Osman, afundou sobre ele e se perdeu de vista. Depois disso, uma bela árvore brotou, que cresceu em beleza e força, cada vez maior.

Ainda assim, o verde envolvente de seus ramos e galhos lançava uma sombra cada vez mais ampla, até cobrir o horizonte extremo das três partes do mundo. Sob a árvore ficavam quatro montanhas, que ele sabia serem o Cáucaso, o Atlas, os Montes Tauro e o Haemus. Essas montanhas eram as quatro colunas que pareciam sustentar a cúpula da folhagem da árvore sagrada com a qual a terra agora estava centrada.

Das raízes da árvore jorraram quatro rios, o Tigre, o Eufrates, o Danúbio e o Nilo. Navios altos e inumeráveis ​​barcas estavam nas águas. Os campos estavam carregados de colheita. As encostas das montanhas eram revestidas de florestas. Daí, em abundância exultante e fertilizante, surgiram fontes e riachos que borbulhavam por entre os ciprestes e as rosas.

Nos vales cintilavam cidades majestosas, com domos e cúpulas, com pirâmides e obeliscos, com minaretes e torres. A Crescente brilhou em seus cumes: de suas galerias soou o chamado do Muezim para a oração. Esse som se misturava às doces vozes de mil rouxinóis e à tagarelice de incontáveis ​​papagaios de todos os matizes. Todo tipo de pássaro cantante estava lá. A multidão alada gorjeou e voou sob o telhado fresco dos galhos entrelaçados da árvore que se estendia por toda parte; e cada folha daquela árvore tinha a forma de uma cimitarra.

De repente, levantou-se um vento forte, que virou as pontas das folhas das espadas para as várias cidades do mundo, mas especialmente para Constantinopla. Essa cidade, situada na junção de dois mares e dois continentes, parecia um diamante engastado entre duas safiras e duas esmeraldas, para formar a pedra mais preciosa em um anel do império universal. Osman pensou que ele estava colocando aquele anel visual em seu dedo, quando ele acordou (CREASY, 1961).

Como pode ser visto através dos relatos acima, assim como pela própria história do Império Otomano, o sonho de Osman I se estenderia por mais de seis séculos, sendo um dos maiores impérios da história.

Sua Morte

O ano de 1324 (ou 1323), ao conquistar Bursa, foi também importante devido à morte de Osman. Por conta de sua idade e ao aumento da doença, ele colocou seu filho mais velho, Orhan, à frente de suas tropas. Em seu leito de morte em Sogut, Osman viveu o suficiente para ouvir de seu filho sobre a rendição de Bursa. De acordo com a lenda, Osman então deu a Orhan seu conselho final:

Meu filho, estou morrendo; e eu morro sem arrependimento, porque deixo um sucessor como tu. Seja justo; ame a bondade e mostre misericórdia. Dê proteção igual a todos os seus súditos e estenda a lei do Profeta. Tais são os deveres dos príncipes na terra; e é assim que eles trazem as bênçãos do céu.

Em reconhecimento da importância da vitória, Osman então instruiu Orhan a enterrá-lo em Bursa e torná-la a capital do novo Império. Osman morreria aos 67 anos, e conforme solicitado, foi enterrado em Bursa em um belo mausoléu que ficaria como um monumento dedicado ao sultão durante vários séculos após seu falecimento.

Notas

[1] Atual Turquia.

[2] Osman I teve sete filhos, sendo seis homens e uma mulher. É interessante observar que Osman nomeou seus filhos com base nos segmentos da sociedade, sendo: Pazarlı (Mercador), Çobanm (Pastor), Alaeddin (servo de Allah), Orhan (líder), Melik (Mestre), Hamud (Louvado). A filha do sultão se chamava Fatma Hatun.

[3] SHAW, 1976.

Bibliografia

FINKEL, Caroline. Osman’s Dream: The Story of the Ottoman Empire, 1300-1923: The History of the Ottoman Empire. Basic Books. 2007.

ARSLANBENZER, Hakan. Osman Gazi: We are all living in his dream. Daily Sabah. 2017.

CREASY, Edward S. History of the Ottoman Turks: From the Beginnings of their Empire to the Present Time. Bentley. 1961.

STANFORD, Shaw, History of the Ottoman Empire and Modern Turkey. Vol. 1. Cambridge University Press. 1976.

KAFADAR, Cemal. Between Two Worlds: The Construction of the Ottoman State. University of California Press. 1995

 

Equipe História Islâmica

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