História Islâmica

Os últimos mouros deixaram a Espanha somente no século XVII. Mas por que?

Autor: César Cervera

Os historiadores destacam as graves consequências econômicas dessa decisão e qualificam como populista a medida promovida pelo polêmico valido do rei, o Duque de Lerma.

O cardeal Richelieu, eterno inimigo da Monarquia Espanhola, escreveu em suas memórias que a expulsão dos mouriscos da Espanha constituiu “o ato mais bárbaro da história do homem“. O que não é pouca coisa, visto que o cardeal, como a maioria dos líderes europeus de sua época, não poderia ser acusado precisamente de ser um defensor dos muçulmanos ou um homem facilmente impressionável. Assim, a decisão de Filipe III de expulsar mais de 300.000 mouriscos – os mouros convertidos à fé católica – foi tão selvagem que abalou até mesmo os alicerces da profunda islamofobia que reinava na Europa. Suas consequências econômicas e demográficas também foram devastadoras.

A palavra mourisco referia-se aos muçulmanos batizados após a conquista de Granada pelos Reis Católicos. Quer se trate de uma conversão voluntária ou compulsória, todos os habitantes de origem islâmica foram designados dessa forma. Após um processo de conversão da população por meios pacíficos, uma visita dos reis a Granada em 1499 disparou alarmes na corte: o ar muçulmano continuava a permear a cidade, tanto em suas vestimentas como em seus costumes. É por isso que o Cardeal Cisneros tomou as rédeas da situação para a qual utilizou todo tipo de métodos, mais intrusivos do que os que os monarcas haviam autorizado. Não em vão, o clérigo cumpriu seu objetivo já que milhares de muçulmanos receberam a água do batismo, seja sinceramente ou para continuar praticando o Islã em segredo, tornando-se católicos romanos.

“A expulsão dos mouriscos (1984)”, de Gabriel Puig Roda.

Durante o reinado de Carlos V, os mouriscos foram responsáveis ​​por realizar doações, resultando no adiamento em várias décadas das conversões forçadas. A Coroa adotou uma posição flexível com eles e permitiu-lhes manter seus hábitos e costumes. No entanto, Filipe II se propôs a eliminar definitivamente os resquícios muçulmanos na “diocese menos cristã de toda a cristandade” – como o Papa a definiu – e a afastar a possibilidade de que os mouriscos ajudassem os turcos a realizar um ataque diretamente da terra pátria. Ameaças de Madri geraram um levante armado no Natal de 1568, que estendeu pelas íngremes montanhas de Granada.

Filipe II indica o caminho para o filho

Além de pródiga em episódios de violência extrema, a Rebelião das Alpujarras durou dois anos, muito mais do que o previsto pelo monarca. A razão foi a falta de coordenação entre os Marqueses de Vélez e Mondéjar, bem como a má qualidade das tropas residentes na península – as unidades de elite estavam em Flandres. Precisamente para sanar essas deficiências, Dom João da Áustria, junto com Luis de Requesens, foram colocados no comando de soldados vindos da Itália.

Não sei se a miséria humana pode ser retratada de forma mais natural do que ver tantas pessoas indo embora.

Embora a luta tenha sido complicada e João de Áustria – cuja atuação teve muito a ver com a sua nomeação como almirante geral da Santa Aliança em Lepanto -, a vitória cristã chegou em 1571 e trouxe consigo a deportação geral dos 80.000 mouriscos de Granada para outros lugares da Coroa de Castela, especialmente para a Andaluzia Ocidental e as duas Castelas. A visão de milhares de crianças, mulheres e homens – muitos dos quais não haviam participado da guerra – carregando seus pertences desesperadamente provocou a compaixão do irmão do rei, João da Áustria, que chegou a afirmar: “Não sei se a miséria humana pode ser retratada de forma mais natural do que ver tantas pessoas indo embora com tanta confusão e lágrimas de mulheres e crianças, tão cheias de impedimentos e com muitas mulheres grávidas.

A deportação geral dispersou ainda mais a população mourisca pela Espanha, onde muitos núcleos que antes haviam migrado já haviam se estabelecido. De acordo com várias análises de DNA da atual população da Espanha, há uma ausência quase total de cromossomos tipicamente africanos no leste da Andaluzia, mas uma forte presença desses elementos (até 20%) na Galiza, Leão e Extremadura. Mas a dispersão dos mouriscos não iria acabar com os problemas sociais e religiosos que a sua presença gerava aos olhos dos monarcas. Muitos conselheiros instaram Filipe II a expulsá-los de todos os cantos da península, mas os riscos de provocar uma nova insurreição armada fizeram o rei desistir, permitindo que seu filho realizasse quarenta anos depois algo que a corte madrilena via como inevitável.

Uma decisão baseada no medo

Em assuntos internacionais, o reinado de Filipe III é lembrado pelos acordos de paz que fechou com Inglaterra, França e Holanda, que deram ares ao esgotado Império Espanhol. Das fronteiras para o interior, a expulsão geral dos mouros foi a sua medida mais famosa. Pouco depois de subir ao trono em 1598, o Rei fez uma viagem a Valência acompanhado do seu homem de confiança, Francisco Gómez de Sandoval, o Duque de Lerma, defensor em manter a situação como estava, onde pôde observar em primeira mão que a abundante população mourisca desta região funcionava como um núcleo isolado.

Os mouriscos contataram o rei da França para levar a cabo uma revolta

A oposição de Lerma, que tinha negócios de grande importância com comerciantes mouriscos, terminou quando o rei prometeu uma compensação financeira para os nobres que poderiam ser afetados por uma eventual deportação em massa. Assim, o duque passou rapidamente de defensor máximo desta minoria social a promotor do plano de expulsão.

Entre os vários motivos que os historiadores consideram para Filipe III dar sinal verde ao que seu pai não ousou fazer 40 anos antes, destaca-se a crescente ameaça à segurança interna representada pelos mouriscos. O espetacular aumento demográfico dessa população, que em geral continuaram a praticar o Islã secretamente, ameaçava facilitar futuras invasões estrangeiras. Segundo relatos da Coroa, os mouriscos da região aragonesa entraram em contato com o rei da França, Henrique IV, para realizar um levante geral com o apoio de navios franceses. Embora o plano pudesse não ser verdade, a possibilidade existia como quando Filipe II suspeitou que os mouriscos estavam conspirando com o Império Otomano para invadir a Espanha.

Curiosamente, embora algumas vozes críticas tenham sido levantadas pela Europa cristã, a expulsão também se deveu à tentativa de acabar com a ideia que corria pela Europa sobre o discutível cristianismo da Espanha por causa da permanência dos mouriscos. A exemplo da expulsão dos judeus em 1492, a Monarquia Espanhola buscou com essas medidas abalar a fama de um país de convertidos e de herança muçulmana.

A nível pessoal, a Rainha Margarita da Áustria sentia aversão religiosa pelos mouriscos e não é difícil imaginar que a sua opinião pudesse ter uma influência poderosa sobre Filipe III. Por sua vez, o duque de Lerma acreditava que capitanear a proposta poderia melhorar seu relacionamento ruim com a rainha, que terminou uma década depois porque lhe custou seu cargo, e ele a apoiou firmemente. Depois de um ano de preparação, os primeiros mouriscos expulsos foram os do Reino de Valência (o decreto foi tornado público em 22 de setembro de 1609), seguidos pelos de Andaluzia (10 de janeiro de 1610), da Extremadura e das duas Castelas. (10 de julho de 1610), da Coroa de Castela, e os da Coroa de Aragão (29 de maio de 1610).

Consequências catastróficas para Aragão

A expulsão dos cerca de 300.000 mouriscos que habitavam a Península Ibérica aumentou inicialmente a popularidade do duque de Lerma, pois a crise econômica que começava a consumir o Império espanhol tornara os mouriscos, como antes os judeus, os habituais bodes expiatórios de todos os problemas sociais. Principalmente porque eles mantiveram seus costumes islâmicos intactos, a ponto de muitos nem mesmo falarem espanhol.

Quando ocorreu a expulsão, 33% dos habitantes de Valência eram mouriscos

No entanto, do ponto de vista econômico, foi um duro golpe para muitas regiões espanholas. A expulsão de 4% da população pertencente à massa trabalhadora, por não serem nobres, fidalgos ou militares, significou uma redução na arrecadação de impostos, e para as áreas mais atingidas (estima-se que no momento da expulsão 33% dos habitantes do Reino de Valência eram mouriscos) tiveram efeitos despovoadores que duraram décadas e causaram um vácuo significativo no artesanato, na produção de tecidos, no comércio e nos trabalhadores agrícolas. Embora os prejuízos econômicos em Castela não fossem evidentes no curto prazo, o despovoamento agravou a crise demográfica deste reino, que se mostrou incapaz de gerar a população necessária para explorar o Novo Mundo e integrar os exércitos dos Habsburgos, onde os castelhanos compunham sua elite militar.

Os mouriscos, por outro lado, não se dissolveram no mar e os que sobreviveram aos episódios de violência que acompanharam a sua expulsão acabaram dispersos pelo Norte de África, Turquia e outros países muçulmanos. Muitos camponeses mouriscos foram então forçados a se tornarem piratas berberes que usaram seu conhecimento das costas do Mediterrâneo para realizar ataques contra a Espanha por mais de um século.

Fonte: ABC España

Equipe História Islâmica

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