História Islâmica

O Universo do conhecimento de al-Farabi

Abu Nasr Muhammad ibn Muhammad al Farabi, conhecido simplesmente como al-Farabi1, foi um grande polímata muçulmano nascido no século IX, vivendo até a primeira metade do século X até falecer no ano 950. Pouco se sabe sobre a vida de al-Farabi, sua origem étnica é disputada entre persa ou turca, pendendo mais para persa nas pesquisas mais recentes de seus biografos. Entretanto, normalmente suas biografias concordam com a data de nascimento, que seria aproximadamente no ano 872 d.C.

Provavelmente al-Farabi tenha nascido em um local chamado Farab, dando origem assim ao seu nome “al-Farabi”, indicando que pertencia a tal lugar. Alguns historiadores medievais, como o turco Ibn Khallekan afirmam que Farabi nasceu na vila de Wasij (moderna Otrar no Cazaquistão), próximo de Farab e de pais turcos.

Mais tarde se mudaria para o Iraque, vivendo em Bagdá, capital do Califado Abássida na época e um grande centro intelectual, conhecido principalmente pela sua Casa da Sabedoria, uma instituição que reunia sábios do mundo todo, inclusos judeus, cristãos e muçulmanos estudando em conjunto.

Como nada foi escrito sobre sua vida enquanto al-Farabi estava vivo, as informações sobre ele são escassas, restando mais um estudo sobre suas obras do que sobre sua personalidade e história como indivíduo.

Passando quase que toda a vida em Bagdá, um dos poucos fragmentos sobre sua vida é um trecho autobiográfico preservado por Ibn Abi Usaibia2, em que al-Farabi afirma ter começado seus estudos de lógica, medicina e sociologia com um professor chamado Yuhanna bin Haylan. É interessante observar que o professor de al-Farabi não era muçulmano, mas sim um clérigo cristão nestoriano.

Vindo a estudar também Aristóteles e seus Analíticos Posteriores, al-Farabi estudaria também a obra de Porfírio, Isagoge, e posteriormente voltaria para Aristóteles mais uma vez, dessa vez estudando as obras Categorias, Da Interpretação e os Analíticos Anteriores.

Obras e Estudos

Al-Farabi viria a estudar várias áreas distintas, não sendo por acaso que recebe o título de “polímata”, possuindo vastos conhecimentos nos ramos da lógica, matemática, música, filosofia, psicologia e dentre outras áreas.

Possuindo escritos que variavam desde alquimia até música, Farabi escreveu obras em cada uma dessas áreas ou no mínimo deixou sua magistral contribuição para a posterioridade sobre aquilo que decidiu dedicar seus estudos. Exemplo temos a sua “A necessidade da arte do elixir”, de alquimia, ou seu livro sobre música, o “Kitab al-Musiqa” (Livro de Música).

Indo mais além na área da música, al-Farabi escreveu outra obra sobre o tema. Enquanto na primeira (Kitab al-Musiqa) ele lidou com os princípios filosóficos que regem a música, juntamente com suas qualidades cósmicas e suas influências, seu segundo livro (Significados do Intelecto) ele trataria sobre a musicoterapia, abordando os efeitos terapêuticos que a música possuía na alma3.

Filosofia

Exercendo grande influência na filosofia, al-Farabi chegaria a criar sua própria escola, sendo denominada posteriormente como “Farabismo”, vindo a pavimentar o caminho para outros grandes nomes da filosofia islâmica, como Avicena, principalmente através de sua obra que buscava realizar uma síntese entre a filosofia e o sufismo.

Para Netton (2008), al-Farabi iria desconectar-se com a tradição Platônica e Aristotélica, partindo da metafísica para a metodologia (método científico), movimento esse que anteciparia a modernidade. Unindo também a teoria com a prática na filosofia, na esfera política faria o oposto, libertando a prática da teoria.

Apesar de um certo distanciamento de al-Farabi com Platão, sua teologia ainda seria neoplatonista, sendo mais que a metafísica como retórica, vindo a descobrir “os limites do conhecimento humano” (NETTON, 2008).

A influência de al-Farabi na área da Filosofia (e também da ciência) duraria por séculos, mesmo quando superado pelo Avicenismo, sendo considerado em seu período como atrás somente de Aristóteles no conhecimento.

Al-Farabi, assim como outros grandes sábios muçulmanos do calibre de Avicena e Averróis após ele, escreveu comentários sobre as obras de Aristóteles, como em seu Al-Madina al-Fadila (A Cidade Virtuosa) onde teorizaria um Estado ideal, assim como Platão havia feito em sua famosa obra A República. Farabi argumentava que a religião tornava a verdade por meio de símbolos e persuasão, tendo como semelhança com Platão a ideia de que o filósofo deveria ser um guia para o Estado.

Assim como demais filósofos muçulmanos e de demais tradições religiosas, al-Farabi incorporaria a filosofia (no caso a visão platônica) ao contexto islâmico, mais especificamente no que diz respeito ao pensamento expressado em A República, adaptando o líder ideal ao contexto muçulmano. Dessa maneira, Farabi argumentaria que a cidade-estado ideal era Medina quando fora governada pelo Profeta Muhammad, uma vez que também estava em comunhão direta com Allah, pois as leis provinham diretamente de Deus, reveladas a Seu profeta.

Metafísica

Considerado como o pai do neoplatonismo islâmico, al-Farabi substituiria o relato corânico da criação ex nihilo (do nada) pela teoria neoplatônica da emanação do universo de um Ser Divino, chamado por al-Farabi de “o Primeiro”, em cuja existência e essência são totalmente um só.

Não somente, mas al-Farabi negaria o relato da predestinação islâmica, argumentando em seu comentário no De Interpretatione de Aristóteles que a onisciência não implica determinismo.

Epistemologia

Incluindo elementos tanto de Aristóteles quanto de Platão em seu pensamento, al-Farabi desenvolveria uma complexa teoria epistemológica. Dessa maneira, em sua obra Risala fil-aql classificaria o intelecto (aql) em seis categorias maiores: discernimento (ou prudência); senso comum (aquilo que reconhece o que é óbvio); a percepção natural (que permite ter certeza sobre verdades fundamentais); a consciência (que distingue o bem e o mal); o intelecto e a Razão Divina, fonte de toda energia e poder intelectual.

No que tange ao intelecto, Farabi dividiria também em quatro categorias, sendo elas: potência (aql bil quwwa), atual (aql bil-fil), adquirida (aql mustafad) e o Agente, também chamado de “intelecto ativo” (aql al-faal). As primeiras três categorias mencionadas seriam os diferentes estados do intelecto humano, enquanto que a quarta categoria seria o que foi chamado de o Décimo Intelecto na emanação cosmológica de al-Farabi.

O intelecto potencial seria a capacidade do indivíduo de pensar, algo que é característica de todos os seres humanos, algo “universal”, enquanto que o intelecto atual (presente) é quando o intelecto está comprometido com o pensamento. Com pensamento, al-Farabi queria dizer em abstrair universais inteligíveis de formas sensoriais dos objetos no qual foram apreendidos e retidos pela imaginação de cada indivíduo.

Lógica

Outra área do conhecimento em que al-Farabi teve uma atuação especial e uma grande influência foi a da Lógica, vindo a discutir assuntos como contingentes futuros, número e a relação das categorias, assim como a relação entre lógica e gramática. Indo mais além, influenciado por Aristóteles, mas sem se limitar ao sábio grego, estudaria sobre formas de inferência não-Aristotélicas, vindo posteriormente a separar a lógica em dois grupos distintos: o primeiro seria a “ideia”, enquanto o segundo seria a “prova”.

Al-Farabi via a lógica como o caminho para a felicidade. Quando discutiu sobre os contingentes futuros, se o valor de verdade das declarações sobre contingentes futuros for determinado imediatamente, ou seja, antes que o evento aconteça, então tudo é predeterminado e o livre arbítrio é uma ilusão. Apesar de Aristóteles já ter discutido isso em uma das primeiras obras do grande grego estudada por al-Farabi (De Interpretatione), o sábio muçulmano iria mais além na discussão, adicionando ao problema a questão do conhecimento prévio de Deus, defendendo o livre arbítrio contra alguns dos teólogos de sua época, afinal, como dito anteriormente: al-Farabi em sua metafísica negava que a onisciência de Deus implicasse em um determinismo.

Legado

Tendo sido um grande escritor, apesar de uma quantia significativa de suas obras terem sido perdidas, chegou até nós 117 volumes de seus escritos. Dentre essas obras sobreviventes, 43 são de lógica; 11 de metafísica; 7 de ética, outras 7 sobre ciência política; 11 comentários; 17 sobre música, medicina e sociologia.

A obra mais famosa de al-Farabi foi a sua al-Medina al-Fadila, brevemente discutida no presente artigo, um importante tratado de sociologia e ciência política que foi amplamente original em seu tempo, aproveitando muitos dos elementos do pensamento platônico.

Al-Farabi deixaria seu legado na ciência com seu livro Kitab al-Ihsa al Ulum, onde elaboraria os princípios fundamentais da ciência, sugerindo ainda um sistema de classificação.

Há ainda os já mencionados trabalhos na música, que juntamente com al-Kindi revolucionariam a maneira que essa fascinante arte era vista, ganhando um caráter de tratamento de doenças físicas e espirituais nos hospitais muçulmanos. Porém isso não é tudo, uma vez que Farabi também inventou seus próprios instrumentos musicais, dominando também outros, assim como seu “tom árabe puro” é usado até os nossos dias na música árabe.

Na física, al-Farabi seria responsável por demonstrar a existência do vácuo.

Na filosofia, metafísica, lógica e epistemologia, pavimentaria o caminho para Avicena. Desta feita, al-Farabi não pode ser considerado um aristotélico nem um platônico, mas sim um pensador original que se valeu dos recursos de seu tempo parar criar um pensamento único e que viria a influenciar outros grandes pensadores posteriormente.

Assim, al-Farabi levou seu nome das regiões incertas de onde surgiu até o espaço, onde se encontra marcado em um dos asteroides do grande cinturão que circunda o sistema solar, isso em homenagem a um dos maiores intelectuais que surgiu no seio da civilização do Islã medieval.

NOTAS

[1] Por vezes chamado também de Alfarabius, seu nome deu origem à palavra portuguesa “alfarrábio”, que significa “livro velho, de pouco valor ou utilidade”.

[2] Médico do século XIII que fez um compilado enciclopédico de biografias de grandes nomes da medicina, incluindo gregos, romanos, indianos etc.

[3] Vale lembrar que a musicoterapia, isto é, a música utilizada para tratar doenças físicas ou espirituais, foi amplamente utilizada nos hospitais islâmicos medievais, possuindo também influência de outros pensadores muçulmanos além de al-Farabi, como al-Kindi.

BIBLIOGRAFIA

MAHDI, Muhsin; LERNER, Ralph Lerner. Medieval Political Philosophy. Cornell University Press, 1972.

NETTON, I. R. Allah Transcendent: Studies in the Structure and Semiotics of Islamic Philosophy, Theology and Cosmology. London and New York: Routledge, 1989.

NETTON, Ian Richard. Breaking with Athens: Al-Farabi as Founder, Applications of Political Theory By Christopher A. Colmo. Journal of Islamic Studies. Oxford University Press. 2008.

FAKHRY, Majid. Al-Farabi, Founder of Islamic Neoplatonism: His Life, Works, and Influence. Oxford: Oneworld Publications, 2002.

Al-Farabi. (2016, February 20). New World Encyclopedia.

LAMEER, Joep. Al-Fārābī and Aristotelian syllogistics: Greek theory and Islamic practice. E.J. Brill, 1994.

Equipe História Islâmica

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