Em 30 de setembro de 2000, no segundo dia da Segunda Intifada, Muhammad al-Durrah, de 12 anos, e seu pai, Jamal, foram atingidos por tiros na Faixa de Gaza. O incidente ocorreu no cruzamento de Netzarim, em meio a protestos generalizados contra a ocupação militar israelense. A gravação do ocorrido foi feita por Talal Abu Rahma, um cinegrafista freelancer que trabalhava para a emissora France 2, registrando o momento em que pai e filho tentavam se proteger atrás de um cilindro de concreto.
As imagens transmitidas pela televisão francesa duraram 59 segundos e mostravam a dupla encurralada pelo fogo cruzado. Charles Enderlin, chefe da filial da emissora em Israel, narrou as cenas informando que os dois eram alvo de disparos vindos das posições israelenses. O vídeo termina com o menino caído sobre as pernas do pai após uma nuvem de poeira causada pelos impactos dos projéteis na parede, momento em que Enderlin afirmou que a criança estava morta.
O cinegrafista Talal Abu Rahma afirmou sob juramento que o tiroteio durou cerca de 45 minutos. Ele foi categórico ao dizer que os disparos contra pai e filho foram intencionais e partiram do lado israelense. Segundo seu relato, as balas choviam no local, atingindo primeiro o pai na perna e no braço, antes de ferirem fatalmente o menino.
As cenas foram amplamente divulgadas em todo o mundo.
Logo após a divulgação das imagens, as Forças de Defesa de Israel (IDF) assumiram a responsabilidade pelo incidente. A justificativa inicial apresentada pelos militares, similar ao que vemos hoje, foi de que palestinos utilizavam crianças como escudos humanos. Contudo, essa posição oficial mudaria anos depois, em 2005, quando o exército retirou a admissão de culpa.
A partir de então, Israel buscou “refutar” o que foi visto pelo mundo todo. Investigações internas lideradas pelo Major-General Yom Tov Samia buscaram levantar dúvidas técnicas sobre a origem dos tiros. A equipe construiu réplicas das estruturas presentes no local e concluiu que, fisicamente, os disparos não poderiam ter vindo das posições israelenses. O ângulo de visão e a proteção oferecida pelo cilindro de concreto indicavam, segundo essa análise, a probabilidade de fogo palestino.
A credibilidade dessa investigação, no entanto, foi duramente questionada desde o início. O inquérito foi conduzido por Nahum Shahaf e Joseph Doriel, figuras controversas envolvidas em teorias da conspiração sobre o assassinato de Yitzhak Rabin (ex-primeiro ministro israelense).
O jornal Haaretz classificou a investigação como “amadora” e “quase uma empreitada pirata”, enquanto o próprio Chefe do Estado-Maior da IDF, Shaul Mofaz, distanciou o exército das conclusões do grupo. Para agravar a desconfiança, as IDF destruíram o muro e o local do incidente logo após o ocorrido, eliminando evidências forenses e tornando qualquer verificação independente impossível, restando apenas simulações controladas pelos próprios militares.
Uma controvérsia paralela surgiu com a alegação de que a cena teria sido encenada, tese conhecida como “Pallywood” (ou seja, Palestine Hollywood, termo pejorativo que busca afirmar que palestinos encenam e criam cenários falsos tentando incriminar Israel). Philippe Karsenty, um comentarista de mídia, liderou essa acusação, sugerindo que manifestantes palestinos forjaram o incidente para criar a imagem de um mártir. Essa teoria apontava a falta de sangue visível na cena e supostas inconsistências no comportamento do menino nas filmagens brutas como indícios de fraude.
Em resumo, Israel e seus apologistas apresentaram duas teses conflitantes e mutuamente excludentes: “o fato não aconteceu, não passando de uma falsificação; porém, caso seja verdadeiro, então a culpa não foi nossa”.
A France 2 processou Karsenty por difamação em resposta às acusações de manipulação. O caso arrastou-se nos tribunais franceses por uma década, passando por diversas instâncias com resultados oscilantes. O desfecho definitivo ocorreu em 2013, quando a Corte de Apelação de Paris condenou Karsenty e validou a integridade da reportagem da emissora, aplicando uma multa ao réu.
Simultaneamente à conclusão do processo na França, o governo israelense divulgou um relatório oficial que desafiava a versão original dos fatos. O documento concluía que não havia evidências de que Muhammad ou Jamal tivessem sido atingidos por fogo israelense e chegava a sugerir que o menino poderia não ter morrido no incidente.
Jamal al-Durrah reagiu com a justa indignação esperada às conclusões do relatório israelense. Sobrevivente do episódio, ele carrega cicatrizes e sequelas físicas permanentes. Para contestar a tese de que seu filho não havia morrido, Jamal ofereceu publicamente a exumação do corpo de Muhammad para a realização de testes de DNA, buscando encerrar as especulações sobre a veracidade do óbito.
A imagem de Muhammad al-Durrah tornou-se um símbolo no mundo árabe e islâmico. A cena foi reproduzida em selos postais no Oriente Médio e o nome do garoto foi dado a ruas e parques. A morte registrada pelas câmeras transcendeu o fato jornalístico para se consolidar como uma representação icônica, comparada à força de uma bandeira de batalha.
Entretanto, esse não foi o último incidente triste na vida família al-Durrah. Em outubro de 2023, Jamal perdeu dois irmãos após ataques israelenses. Já em janeiro de 2024, Ahmad al-Durra, irmão de Muhammad, também foi morto pelo exército de Israel.
Referências:
GOLDENBERG, S. Israel washes its hands of boy’s death. The Guardian, 2000.
HAARETZ. French court examines footage of Mohammad al-dura’s death. 2007.
MIDDLE EAST EYE. Israeli forces kill brother of Mohammed al-Durra. 2024.
SHERWOOD, H. Father of Muhammad al-Dura rebukes Israeli report on son’s death. The Guardian, 2013.




