Necrocasts: por que sionistas batem ponto em podcast todo dia?

Facebook
Twitter
WhatsApp

Os podcasts transformaram radicalmente o cenário do entretenimento online no período pós-pandemia, consolidando-se como um dos formatos mais democráticos e flexíveis para consumo de conteúdo. Durante o isolamento social, a praticidade de se ouvir programas sob demanda, a diversidade temática e o baixo custo de produção permitiram que uma explosão de criadores, jornalistas, artistas e especialistas ocupassem esse espaço. Plataformas como Spotify, Apple Podcasts e YouTube ampliaram a acessibilidade, oferecendo desde conteúdos altamente especializados até produções de humor, cultura pop e jornalismo investigativo – e algumas opções que realmente não se especializam em nada e parecem não ter propósito algum além de serem geradores de lero-lero. A intimidade criada pela voz do apresentador e o consumo multitarefa — ouvir enquanto se trabalha, se desloca ou realiza tarefas domésticas — consolidaram o podcast como parte da rotina digital global, reduzindo barreiras entre produtor e audiência.

Ao mesmo tempo, esse formato se revelou uma poderosa ferramenta para fins políticos, incluindo a difusão de propaganda. O caráter pessoal e contínuo do podcast cria um vínculo de confiança entre o apresentador e os ouvintes, o que pode ser explorado para moldar percepções, reforçar narrativas ideológicas e criar comunidades de opinião coesas. Partidos, ativistas e influenciadores políticos perceberam que, por meio de uma linguagem informal e aprofundada, podem transmitir mensagens complexas, responder críticas e apresentar interpretações específicas de eventos, sem a filtragem típica da mídia tradicional. Isso se traduz em potencial para mobilização, construção de identidade coletiva e até radicalização, como iremos ver logo à frente.

O pós-pandemia (Covid-19), portanto, não apenas ampliou a relevância cultural dos podcasts, mas também mostrou que eles podem ser instrumentos estratégicos no campo da comunicação política contemporânea, criando um fenômeno de mídia de massas (mass media), independente dos grandes veículos de informação midiáticos, mas, ainda assim, sujeitos às mesmas formas de cortejo e influência que os veículos tradicionais têm sido sujeitos a décadas.

Uma dessas mais notórias influências – que tem crescido exponencialmente aqui na Terra Brasilis através dos últimos anos, é a proveniente da Hasbará, o conglomerado propagandístico de “Israel” que forma um conjunto de estratégias de comunicação e relações públicas usadas por Israel para defender suas políticas, melhorar sua imagem internacional e influenciar a opinião pública externa. Ela atua por meio de campanhas diplomáticas, produção de conteúdo midiático, uso de redes sociais, engajamento de porta-vozes e treinamento de apoiadores para rebater críticas, moldando narrativas favoráveis às ações do Estado israelense, especialmente em temas ligados ao conflito com os palestinos.

Assim, a hasbará tem percebido essa “revolução” informacional realizada pelo modelo dos podcasts e não tardou em estender seus tentáculos para dentro deles, tanto dentro quanto fora do Brasil. Nos EUA, grandes podcasts conhecidos por serem “alternativos”, no sentido de se oporem ao que é chamado por lá de “politicamente correto” (political correctness), geralmente associados ao espectro de direita e ao fenômeno trumpista, têm sido grandes peões do jogo de propaganda da hasbará, até mesmo convidando, recentemente, o criminoso de guerra procurado pela Corte Internacional de Justiça (ICJ) Benjamin Netanyahu para falar (mentir) livremente para sua audiência.

Aqui no Brasil, não chegamos a esse nível de decadência, mas o mofo e a podridão se espalham: a influência da propaganda israelense nos podcasts brasileiros se manifesta principalmente através de convidados, pautas e enquadramentos que reproduzem narrativas pró-Israel de forma explícita ou sutil. Muitos programas recebem diplomatas, acadêmicos, “militares” da reserva israelense e influenciadores ligados direta ou indiretamente à rede da hasbará, que utilizam o formato de conversa longa e descontraído, supostamente descompromissada, para contextualizar eventos sob a perspectiva sionista, minimizar críticas e associar o país a valores visto como compartilhados com o público, como democracia, liberdades individuais, inovação tecnológica e combate ao terrorismo. Essa inserção é facilitada pela natureza intimista do podcast, que cria uma sensação de proximidade e credibilidade junto ao público – aumentada pela demagogia (e, muitas vezes, verborragia estatística para passar ares de ‘inteligência’) dos convidados.

Além disso, muitos produtores brasileiros que já possuem (seja de maneira aberta ou velada) um alinhamento ideológico com a direita liberal-conservadora — defensora assídua do discurso da “civilização judaico-cristã”, uma bandeira que nas últimas décadas tem sido hasteada nos discursos políticos, tornando-se estandarte obrigatório de certos espectros políticos, e ao alinhamento geopolítico com os EUA. Eles acabam incorporando mensagens e talking points da hasbará de forma orgânica, seja por convicção, seja por joguetes semânticos sutis e truques pavlovianos, como a falsa adoção de uma neutralidade que, no final, serve apenas para inocentar o Estado Sionista e condenar suas vítimas palestinas (é o famoso “dois-ladismos”, como ficou consagrado na gíria popular). Isso inclui a escolha de termos como “autodefesa” e o mantra “você condena o Hamas?”, além da seleção de “especialistas” que confirmem a narrativa e a omissão de vozes críticas palestinas.

Essa demagogia em podcasts e debates costuma operar por meio de técnicas retóricas calculadas para moldar a percepção do público sem parecer propaganda explícita. Os convidados ou comentaristas pró-Israel frequentemente recorrem a jogos de palavras — por exemplo, chamando ocupação de “presença” ou bombardeios de “operações cirúrgicas” — e utilizando termos carregados de valor positivo, como “defesa” e “segurança”, para enquadrar ações militares como legítimas e inevitáveis. Outro recurso comum é a mudança estratégica de foco: quando confrontados com críticas, desviam para exemplos de países vizinhos com piores índices de direitos humanos, insinuando que Israel é um “oásis” democrático no Oriente Médio. A cumplicidade do host potencializa esse efeito, seja pela escolha de perguntas brandas e que evitem o confronto ou ‘temas inconvenientes’, seja pela aceitação das narrativas apresentadas, sem contrapontos significativos. Essa combinação cria um ambiente onde a versão oficial israelense se apresenta como a mais razoável e equilibrada, minando gradualmente a visão crítica dos ouvintes — não por imposição direta, mas pelo uso suave e repetitivo de linguagem persuasiva, enviesada e emocionalmente carregada.

Essas palavras produzem um verdadeiro fascínio nos ouvintes. A própria palavra “fascínio” vem do latim fascinium ou fascinatio, derivado do verbo fascinare, que significa “enfeitiçar, enredar, seduzir com um encanto poderoso”. No latim clássico, fascinum designava tanto um encantamento ou feitiço quanto um amuleto fálico, ligado à ideia de poder mágico que subjugava o espírito ou a vontade de alguém. O culto de Baco (Dionísio na tradição grega) frequentemente era associado à capacidade de fascinar — de exercer um poder arrebatador sobre os sentidos e a razão (mania) de suas vítimas ou devotos.

Num país onde não há cultura de leitura ou aprofundamento em temas que o exigem, o povo – no caso, os ouvintes dos podcasts – são facilmente enredados pelos encantos báquicos dos sofistas da hasbará – seus amuletos são dados e estatísticas fraudulentos, seus feitiços são jogos verbais e retóricos e seus mantras sagrados são palavras-chave como “autodefesa”, “terrorismo” e “democracia”. Tudo, é claro, ressoando com certas pré-disposições de um certo segmento dentre o público, mais inclinado à direita e familiarizado com jargões como “Civilização Ocidental” e “Liberdade acima de tudo”.

Contudo, a podridão não para por aí: além da demagogia on air e as retóricas rebuscadas (ou não), dentre faniquitos e cortadas discursivas do host em vozes pró-Palestina, há uma outra forma de cortejo, noivado e casamento da hasbará com grandes podcasts tupiniquins, e ele consiste numa verdadeira lua de mel. Não é raro que os hosts e seus associados de podcast sejam levados em viagens a “Israel”; associações e órgãos ligados à hasbará frequentemente organizam viagens – com tudo pago – para hosts de podcasts e influenciadores brasileiros, levando-os a Israel para conhecer pontos turísticos, centros de “inovação”, instituições e as “Ruínas do Sete de Outubro” (majoritariamente destruídas pelos próprios israelenses através do Protocolo Aníbal, diga-se de passagem), muitas vezes a poucos quilômetros de onde, em Gaza, valas coletivas com corpos de mulheres e crianças evidenciam a brutalidade da ocupação sionista e do Genocídio em curso.

Nessas visitas, Israel é apresentado como um oásis de democracia, modernidade e civilidade no Oriente Médio, ocultando ou minimizando as dimensões da ocupação e das violações de direitos humanos. O componente psicológico dessas viagens é crucial: ao proporcionar experiências exclusivas, hospitalidade calorosa e benefícios custeados, cria-se um laço de gratidão sutil, semelhante à lógica de “favor” cultivada por mafiosos — gestos que não vêm com cobrança explícita, mas que geram uma expectativa tácita de reciprocidade, seja na forma de silêncio (ou interrupção abrupta) diante de críticas, seja na reprodução de narrativas e linguagem favoráveis à Entidade Sionista. No fim, essas viagens acabam sendo “provas” dos pontos apresentados pelos demagogos pró-sionismo, dando a possibilidade do host e seus associados poderem dizer as palavrinhas mágicas que encantam a audiência: “eu fui até lá, eu vi como é.”

Assim, os agentes da propaganda sionista conduzem os hosts e os ouvintes de tais podcasts como ume espécie de flautista mágico, e os podcasts tornam-se um canal eficaz para disseminar propaganda política em linguagem coloquial, com alcance segmentado e alto engajamento, influenciando a opinião dos brasileiros para que acreditem nas mais descaradas mentiras que o arsenal sionista tem e, até mesmo, ao ponto de muitos negarem o primeiro genocídio televisionado e gravado da história… enquanto o mesmo ainda está em curso. A ficha da monstruosidade desse feito demorará para cair, assim como também demorarão para cair os podcasts cúmplices nessa mortandade, assim como também demorará para cair o regime colonial que se instalou na Palestina. Mas eles hão de cair.

ÚLTIMOS ARTIGOS PUBLICADOS