História Islâmica

Miguel de Cervantes e Mahmud: Dois escritores na Batalha de Lepanto

A Batalha de Lepanto travada em 1 571, é conhecida entre os turcos como “Guerra de Inebahti”. Este é um dos mais famosos eventos na longa história das relações otomano-europeias.

O simbolismo, memórias e emoções que evoca desde o século XVI, tornaram-se numa perçeção permanente que o Islã e o ocidente têm um do outro. Tendo sido mais que uma mera batalha naval, este evento ligou os destinos de diferentes pessoas de formas inesperadas.

As histórias de Miguel Cervantes, o mais famoso autor medieval espanhol e uma figura de proa da literatura ocidental, e de “Hindi” Mahmud – o estadista otomano, poeta e historiador – são um exemplo que interliga as noções de cativeiro, separação e regresso a casa, em circunstâncias improváveis.

Quando a marinha europeia, liderada por Don João da Áustria, derrotou a frota otomana em Lepanto – perto do Golfo de Coríntia na Grécia – o acontecimento foi altamente noticiado em todo o lado. Os europeus ficaram mais chocados que os otomanos: os turcos invencíveis tinham sido derrotados pela primeira vez em vários séculos, e o Mediterrâneo já não era um “lago turco” como temido.

A Europa celebrou em júbilo. A “queda dos turcos” estava iminente. Deus, que tinha abandonado os bons cristãos da Europa pela sua infidelidade e más ações, vinha finalmente ajuda-los. O Papa Pio V, que teve um papel importante na vitória de Lepanto, estava agora bem colocado para lançar uma nova cruzada contra os “sarracenos”.

Mas a euforia rapidamente esmoreceu. Nesse mesmo ano os otomanos conquistaram Chipre. Reconstruíram a sua marinha e voltaram mais fortes. Novas conquistas foram feitas ano seguinte. Mehmet Sokullu – o Grande Vizir do Sultão Selim II – disse ao embaixador de Venezia Marcantonio Barbaro: “Veio ver o nosso infortúnio. Mas a diferença entre a nossa derrota e a sua, é que quando lhe tirámos Chipre, você perdeu um braço. Quando nos derrotaram em Lepanto, apenas perdemos a barba. Um braço, quando cortado, já não volta a crescer. Mas uma barba cortada volta a crescer mais forte”. Anos mais tarde, Voltaire diria com cinismo que “Parece que os turcos ganharam em Lepanto”.

A Batalha de Lepanto coloriu a imaginação de gerações de várias maneiras. Entre elas, ficaram as histórias do espanhol e do otomano, pela sua relevância, génio literário e importância multi-cultural.

Cheio de zelo religioso e patriotismo, Miguel Cervantes juntou-se aos exércitos europeus para defrontar os otomanos em Lepanto, em 1 571. Apesar da sua doença e de repetidos avisos do seu capitão, ele atirou-se para a batalha e feriu-se na mão esquerda. Mas viu isto como uma bênção de Deus, que lhe permitiu concentrar-se na escrita com a mão direita – a sua maior arma como escritor. Ele recordou os seus dias na batalha com orgulho, dizendo que “nesse dia, eu estava lá”.

Mas alguns anos mais tarde, Cervantes foi raptado por piratas muçulmanos e levado para a Argélia. Foi ali que permaneceu 5 anos em cativeiro. Cervantes fala dos seus anos na Argélia em várias obras, incluindo “O Tratamento de Argel”, “Os Banhos de Argel”, e claro, a sua obra mais famosa, “Don Quixote”. Ele foi libertado em 1 580, graças à mediação e pagamento de resgate por uma ordem Trinitária.

Durante a sua vida, os 5 anos de cativeiro de Cervantes foram alvo de controvérsia em Espanha. O que fez ele durante esse tempo? Será que duvidou da sua fé? Serão verdadeiros os rumores de que se tornou muçulmano? Como explica ele as suas boas relações com Hassan Pachá, o Emir da Argélia debaixo de domínio otomano? Sim, ele tentou fugir várias vezes, mas nunca foi castigado. Pelo contrário, foi bem tratado. Porquê? Estas questões perturbaram os espanhóis. Mas parece que sempre teve a esperança de fugir e voltar a casa.

Durante o cativeiro, e ao ver os prisioneiros muçulmanos, cristãos e judeus ir e vir, Cervantes fez observações detalhadas sobre a fé muçulmana, cultura, arte, governo e geografia do Norte de África, que acabariam por enriquecer os seus livros. Mas Cervantes não era um liberal ou pluralista. Ele olhava para o Islã e para os muçulmanos com uma perspetiva falsa, das lendas e preconceitos da cristandade medieval.

No entanto, o seu regresso a casa foi um evento cultural e literário, já que os seus contatos com as pessoas vulgares e governantes da Argélia lhe deram uma oportunidade única, que muito poucas outras pessoas tiveram no século XVI.

O outro homem cujo destino ficou traçado pela Batalha de Lepanto, foi “Hindi” Mahmud, um estadista otomano, autor, poeta e historiador. A história dele é também de cativeiro e regresso, que resultou numa notável obra poética chamada “O Diário de Hindi Mahmud”.

Nascido em 1 513 em Afyonkarahisar no seio de uma família humilde, Hindi Mahmud subiu de posição no Império Otomano enquanto oficial de justiça, tesoureiro e embaixador. O seu nome literário de “Hindi”, foi-lhe dado pelo príncipe Selim, que mais tarde se tornou sultão.

O infortúnio bateu-lhe à porta, quando se juntou à armada otomana para a Batalha de Lepanto. Quando os otomanos perderam o confronto, ele foi feito prisioneiro por Don John. Depois de semanas de penosa viagem, Hindi e outros foram levados para Messina e depois para Nápoles e Roma, onde acabaria por ficaria preso no Castelo Sant´Angelo, também conhecido como Mausoléu de Hadrian.

Foi aqui que o destino de Hindi se cruzou com o de Cem Sultan, o irmão do Sultão Otomano Bayezid, conhecido no ocidente como Príncipe Zizim. Depois de perder a coroa para o seu irmão, Cem passou os últimos 13 anos da sua vida como prisioneiro às mãos dos Cavaleiros de Rodes, do Papa Inocêncio VIII e de vários lordes feudais, até à sua morte em Nápoles em 1 495. Durante a sua prisão em Roma, Cem foi alvo de grande curiosidade e imaginação em toda a Europa.

Durante os seus anos em cativeiro, Hindi Mahmud nunca perdeu a esperança de regressar a casa. Ele lembrava com lágrimas a sua família, mulher e crianças. Ele pedia a Deus por firmeza face ao infortúnio. Ele encorajava os outros detidos a permanecerem fortes. Eles ficaram mais próximos uns dos outros e rezavam juntos. Eles agradeceram o fato de os deixarem fazer as orações de sexta-feira e de os deixarem celebrar datas importantes como o mawlid, aniversário do Profeta do Islã. Eles até faziam a chamada para a oração (adhan) em voz alta na prisão. Os Castelo de Sant´Angelo tornou-se num santuário para estes prisioneiros otomanos.

No seu diário escrito de forma poética (do qual apenas pedaços sobreviveram), Hindi Mahmud trouxe o seu talento literários para os dias de cativeiro em Roma. Ele louvou Don João pela sua caridosa e nobre atitude para com eles e castigou as políticas do Vaticano. Da sua cela, acompanhou os tumultos de Roma em 1572, a morte de Pio V e a sucessão de Gregório XIII. Hindi fez observações coloridas da cultura e povos europeus. Ele sonhava em conquistar Roma um dia, chamando a esta cidade a “Maçã Vermelha” – a velha frase usada pelos turcos para descrever o objetivo final e grande façanha.

Quando Hindi Mahmud foi libertado em 1575 como parte de uma troca de prisioneiros, ele tinha 64 anos. Ele passou o resto dos seus dias em Istambul e escreveu o seu famoso livro “Kisas-i Enbiya” (Histórias dos Profetas), que dedicou ao Sultão Murad III que lhe devolveu a liberdade.

Tanto para Cervantes como para Mahmud, o regresso a casa foi um renascer e motivo de grande alegria e gratidão. Apesar de terem crenças diferentes e terem vivido em circunstâncias diferentes, a fé, esperança e firmeza mantiveram-nos vivos. Ambos tiveram também talento literário, imaginação e profundeza multi-cultural, as qualidades que os tornaram relevantes até aos nossos dias.

As suas histórias fazem também lembrar as de Hasan al-Wazazan, outro homem notável do século XVI – conhecido no ocidente como Leo Africanus, que foi feito prisioneiro em 1518 e que se tornou empregado do Papa Leão X e escreveu a famosa obra “Descrição de África”.

Amin Maalouf transformou a sua obra numa pérola literária com “Leo Africanus”, onde se mostra como este homem extraordinário atravessou várias barreiras religiosas, linguísticas e culturais para regressar.

Estas histórias atestão a resistência do espírito humano perante os desafios. Elas mostram as noções comuns de cativeiro e regresso a casa. Mas elas também mostram as formas complicadas e interligadas nas quais as civilizações islâmica e ocidental interagem uma com a outra a tantos níveis.

As nuances da atual narrativa islã-ocidente, são demasiado importantes para não olharmos para elas, nesta altura tão complexa e desafiante.

Fonte: t.ly/Nivd

Equipe História Islâmica

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