Lygia Maria está errada sobre o impasse existencial do Ocidente

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O artigo “Jihadismo põe Ocidente num impasse existencial”, publicado recentemente na Folha de São Paulo e de autoria de Lygia Maria, incorre em um erro profundo ao tentar reduzir a complexidade da fé islâmica e de seus quase 2 bilhões de fiéis a uma caricatura de violência política que precisa de uma reforma, citando o catolicismo como exemplo a ser seguido.

Ao utilizar recortes enviesados e figuras polêmicas (como a carimbada figura do “ex-alguma-coisa”) como porta-vozes da “verdade” sobre o Islã, o texto não apenas desinforma, mas alimenta uma engrenagem de hostilidade que a academia moderna rechaça não por medo de ser tachada de “islamofóbica” ou por mera passividade, mas simplesmente por se tratar de uma visão equivocada e reducionista sobre a religião islâmica, quando não um mero espantalho.

A tentativa de definir o jihadismo como a “essência” do Islã – que aqui tratamos como uma conclusão lógica, visto que o artigo e sua principal referência propõem uma reforma da religião e não de um único ponto dela –, a autora ignora a distinção jurídica fundamental entre o conceito de Jihad e o crime de Hirabah já bem definido entre os sábios islâmicos há vários séculos.

Na jurisprudência islâmica clássica, atos de terrorismo, massacres de civis e usurpação de propriedade são classificados como Hirabah e não como Jihad, um dos crimes mais graves possíveis, descrito como uma “guerra contra Deus”. Longe de ser “permitido” ou um “irmão feio” da Jihad espiritual (esta mencionada no texto de Lygia), o terrorismo é categoricamente punido com as penas mais severas da Sharia, independentemente de as vítimas serem muçulmanas ou não.

O texto publicado na Folha alega que o Alcorão contém “comandos explícitos de violência”, uma leitura míope que ignora o contexto das revelações e os princípios éticos de guerra estabelecidos pelo Profeta Muhammad e seus sucessores. As ordens militares de Abu Bakr, o primeiro califa, são claras: a proibição absoluta de matar mulheres, crianças, idosos ou enfermos, e até de destruir infraestruturas civis ou colheitas. O mesmo pode ser visto em seu sucessor, Omar, que conquistou a cidade de Jerusalém e trouxe os judeus de volta para a Terra Santa, que haviam sido expulsos pelos governantes cristãos.

Yahya ibn Saʿīd relatou: Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — enviou exércitos à Síria e disse:

“Dou-vos dez instruções: não mateis uma mulher, nem uma criança, nem um idoso debilitado. Não corteis árvores frutíferas, nem destruís construções habitadas. Não abatam ovelhas ou camelos, exceto para alimentação. Não queimem nem afoguem colmeias. Não roubem do espólio e não ajam com covardia.”

Fonte: al-Muwaṭṭaʾ, 918

Não somente, mas ao mencionar os ditos “versos violentos”, a autora ignora um gênero literário-exegético de extrema relevância nos estudos corânicos: o asbab al-nuzul, isto é, o contexto da revelação. Esses versos foram revelados em circunstâncias históricas muito específicas, quando a comunidade islâmica nascente sofria ataques constantes de forças numericamente superiores e mais poderosas, correndo sério risco de extinção (e de fato, muçulmanos foram mortos e torturados nesse período, tanto que precisaram abandonar e fugir de seus lares). Portanto, não se trata de um “comando universal e perene”, mas de disposições claramente contextualizadas e situadas em determinado momento histórico, convenientemente sequestrados por grupos terroristas.

Ao citar Ayaan Hirsi Ali – cuja autoridade se resume a ser “ex-muçulmana” – para validar a tese de que o Islã é intrinsecamente hostil aos valores ocidentais e em especial às mulheres, o artigo se apoia no que a teoria crítica chama de “feminismo colonialista” (por todos, consultar a obra The Routledge Handbook of Islam and Gender, 202c1). Esse discurso utiliza a pauta dos direitos das mulheres não para emancipá-las, mas como uma ferramenta política para legitimar a dominação e o preconceito contra o que se convencionou chamar em alguns círculos acadêmicos de ‘Sul Global’ – termo que guarda seus problemas, é verdade, mas que utilizaremos pela possível familiaridade do leitor com ele.

A questão da “mutilação genital”, mencionada no artigo quase como uma prova de uma suposta bestialidade islâmica, é outro exemplo de manipulação terminológica. Estudos comparativos mostram que tais práticas são costumes locais que precedem o Islã e são praticados por diversas religiões nessas mesmas regiões, inclusive por cristãos. O termo “mutilação genital feminina” é frequentemente usado como propaganda para demonizar tais práticas, em especial em países africanos, enquanto cirurgias cosméticas na genitália feminina no Norte Global são enquadradas como “escolha” e “autonomia”.

Complementando essa visão enviesada, o artigo sustenta-se no mito da “autonomia liberal” para diferenciar a atitude das mulheres. Poder-se-ia argumentar falaciosamente que as mulheres ocidentais “escolhem” livremente cirurgias plásticas genitais, enquanto as mulheres islâmicas (convenientemente ignorando as de outros grupos religiosos nos mesmos locais, é claro) são apenas vítimas da coerção fundamentalista, embora não exista qualquer passagem nas fontes islâmicas chancelando ou ordenando tais práticas. No entanto, essa suposta “escolha” no Ocidente é frequentemente uma resposta a pressões sistêmicas da indústria da beleza, da pornografia e do próprio olhar masculino (male gaze), o que torna a liberdade de escolha uma ilusão.

Ao construir essa falsa dicotomia, o discurso exime suas próprias práticas de opressão estética de qualquer escrutínio moral, preferindo focar na alteridade muçulmana para reafirmar uma superioridade. Para maiores aprofundamentos, remetemos o leitor ao artigo Women and Islamic law: decolonizing colonialist feminism, de Lena Salaymeh, no Routledge Handbook of Islam and Gender (2021), onde a autora aprofunda o assunto e cita pesquisas relevantes ao tema.

O artigo de Lygia sugere ainda uma “tolerância suicida” das elites ocidentais, ecoando perigosamente o mito da “Eurábia” e a teoria da “Grande Substituição”. Essas teorias da conspiração, que postulam um plano secreto para islamizar a Europa através da imigração, não têm base factual e são o sustentáculo ideológico de extremistas e terroristas supremacistas, como Anders Behring Breivik, responsável pelo massacre de Oslo em 2011, bem como o massacre de Christchurch ocorrido em 2019.

A crítica do artigo à “esquerda global” por tachar questionamentos sobre o Islã como islamofobia ignora que o que se combate não é o debate intelectual, mas o uso de figuras desumanizantes. A “islamofobia”, não raras as vezes, opera como um modo de intolerância étnico-racial, onde o corpo muçulmano é lido antecipadamente como uma ameaça. Além disso, tratam “o muçulmano”, como um ente abstrato e caricato, como se todo e qualquer fiel fosse dotado de uma mentalidade coletiva (hive mind), tal qual numa colméia.

Pensadores ocidentais contemporâneos, como o caso de Timothy Winter, preferem adotar o termo “Lahabismo” em vez de islamofobia. Em sua obra Travelling Home (2020), livro que reúne uma coleção de ensaios sobre o Islã na Europa, Winter propõe um diagnóstico interno, cunhando o termo para descrever o ódio irracional e visceral contra o Islã. Ele sugere que a inimizade contra o Islã deve ser entendida através do arquétipo de Abu Lahab, o tio de Muhammad, um virulento opositor ao Islã e aos muçulmanos em seus anos iniciais.

Abu Lahab não odiava o Islã por medo do desconhecido, mas por rejeitar um movimento que emergia de seu próprio meio e “ameaçava a ordem social e econômica de Meca”. Winter usa essa analogia para interpretar o populismo nacionalista europeu contemporâneo (curiosamente importado acriticamente para o Brasil, mesmo nossa realidade sendo totalmente diferente), que vê os muçulmanos não como uma ameaça externa, mas como um “outro” interno cuja presença desafia identidades nacionais fragilizadas.

Ao definir o “Lahabismo” como expressão de verdadeira arrogância (e até de insegurança, complementamos), Winter afirma se tratar de um vício da alma, uma idolatria do eu e da tribo, marcada pela recusa em reconhecer a legitimidade de outras formas de fé e vida. No contexto europeu pós-cristão e secularizado, os muçulmanos tornam-se um espelho incômodo, não por inferioridade racial, religiosa ou de costume, mas por representarem uma alteridade moral e espiritual que desafia o consenso secular. Apenas o deus do secularismo pode ser cultuado nas sociedades modernas e apenas o seu evangelho pode ser pregado.

Portanto, o suposto “impasse existencial” do Ocidente não é causado pelo Islã, mas pela própria incapacidade de certos setores ocidentais em lidar com a pluralidade em meio a sua própria crise de identidade. O medo de uma “submissão” ficcional serve como cortina de fumaça para ocultar as dinâmicas de poder reais que moldam a política externa e interna contemporânea, muitas vezes movidas por interesses financeiros e lobbies que punem qualquer dissidência do pensamento hegemônico. Isso, claro, para não adentrarmos na questão do “bode expiatório”, na necessidade de um inimigo em comum para que problemas reais possam ser ignorados (inflação, desemprego, especulação imobiliária etc.), ou ainda para legitimar invasões em países de maioria islâmica em busca de recursos naturais.

Como bem demonstra o Dr. Sherman Jackson em The Islamic Secular (2024), a insistência ocidental em uma ‘reforma’ que neutralize o Islã ignora a própria natureza da tradição jurídica islâmica. A Sharia não é um sistema totalizante; ela é, por definição, limitada. Os juristas clássicos sempre reconheceram um vasto domínio de atuação humana — o ‘Secular Islâmico’, para nos valermos do próprio título da obra — onde a razão e a busca pelo bem comum operam de forma autônoma. Como bem diz o Dr. Jackson, a palavra “secular” no Ocidente implica “como se Deus não existisse”. No Islã, o “secular” é um espaço onde se busca a eficiência e a justiça porque Deus existe.

O erro de Lygia Maria é o mesmo de muitos reformistas modernos: confundir a necessidade de boa governança e prudência com a necessidade de uma secularização que esvazie a fé. O Islã não precisa de uma reforma que o transforme em um ‘catolicismo reformado’, como proposto no artigo, mas sim recuperar sua própria tradição de diferenciação entre a lei revelada e a gestão racional da vida pública, um equilíbrio que o colonialismo e o extremismo (este alimentado pelo primeiro, diga-se de passagem), em lados opostos da mesma moeda, tentaram destruir.

O impasse existencial mencionado pela autora não é do Islã, mas da incapacidade do Ocidente de enxergar uma religiosidade que não seja ou privada (silenciosa) ou fundamentalista (violenta). O suposto “impasse existencial” do Ocidente revela-se, assim, não como uma deficiência da fé islâmica, mas como um desconhecimento da religião e uma tentativa de universalizar o trauma europeu e impor uma reforma que, em última análise, busca apenas a domesticação da religião e o apagamento de uma tradição que sempre soube integrar os diferentes espaços de convívio sem abandonar sua essência espiritual, ao menos até que o homem ocidental exportasse seus traumas para outros povos e os maculasse com seus próprios pecados.

Referências:

AL-DAWOODY, A. The Islamic law of war: Justifications and regulations. Palgrave Macmillan, 2015.

BONNER, M. Jihad in Islamic history: Doctrines and practice. Princeton University Press, 2008.

CESARI, J. Why the west fears Islam: An exploration of Muslims in liberal democracies. Palgrave Macmillan, 2013.

EL FADL, K. A.; AHMAD, A. A.; HASSAN, S. F. (Eds.). Routledge Handbook of Islamic law. Routledge, 2021.

ESPOSITO, John L. The Islamic Threat: Myth or Reality? Oxford University Press, 1995.

HOWE, Justine (Ed.). The Routledge Handbook of Islam and Gender. New York: Routledge, 2020.

JACKSON, Sherman A. The Islamic Secular. Oxford University Press, 2024.

LEAN, Nathan. The Islamophobia Industry: How the Right Manufactures Fear of Muslims. Pluto Press, 2012.

MARIA, Lygia. Jihadismo põe Ocidente num impasse existencial. Folha de S.Paulo, 21 dez. 2025.

QURESHI, Emran; SELLS, Michael A. The New Crusades: Constructing the Muslim Enemy. Columbia University Press, 2003.

WINTER, Timothy. Travelling Home: Essays on Islam in Europe. Quilliam Press Ltd, 2020.

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