História Islâmica

Ibn Zuhr (Avenzoar): O Pai da Traqueostomia

A história islâmica está repleta de sábios dos mais diversos ramos e calibres, porém uma das áreas onde mais os muçulmanos se destacaram foi a da medicina. Dentre os grandes especialistas das ciências médicas, vemos pessoas como al-Kindi, ibn Sina (Avicena), al-Razi, al-Zaharawi e muitos outros.

Não bastasse isso, os hospitais islâmicos, também chamados de bimaristans, ainda seriam revolucionários, possuindo todo um sistema de farmacologia, métodos especializados de tratar os pacientes e até mesmo procedimentos sofisticados que ficariam esquecidos por séculos depois até serem recuperados e reaplicados na contemporaneidade, como a própria musicoterapia (RISSE, 1999).

Com base nisso, um dos mais proeminentes nomes da história da medicina islâmica foi justamente ibn Zuhr, conhecido no Ocidente também como Avenzoar, cujo nome original foi Abu Marwan Abd al-Malik ibn Zuhr.

Em 1094 nascia em Sevilha de al-Andaluz (Espanha Islâmica) um dos maiores nomes da medicina de seu tempo, o famoso ibn Zuhr. Oriundo de uma família árabe da tribo de Iyad1, Avenzoar nasceria cercado de uma tradição familiar voltada para a medicina, e há mais de um século a sua família construía um legado no ramo, contemplando seis gerações de grandes médicos. Não somente, mas a família de Zuhr também veria especialistas de outras áreas, englobando juristas, poetas, vizires e assim por diante, todos servindo ao governo de al-Andaluz.

Como era de costume na educação islâmica medieval, ibn Zuhr começou seus estudos sobre religião e literatura, vindo a começar a estudar medicina com seu pai, Abul-Ala Zuhr, quando ainda muito jovem. Com o pai, ibn Zuhr estudaria as obras clássicas de medicina pela qual estudante sério algum poderia deixar de estudar, ou seja: Galeno e Hipócrates, chegando a realizar o Juramento de Hipócrates ainda em tenra idade.           

Assim como os membros de sua família antes dele, ibn Zuhr começaria sua carreira trabalhando como médico da corte da dinastia Almorávida. Apesar das origens renomadas e ele mesmo sendo um médico competente, se desentenderia com o governante, Ali bin Yusuf Tashufin, tendo de fugir de Sevilha. Em que pese tenha fugido, ibn Zuhr seria preso no Marrocos em 1140, até que em 1147 pudesse voltar para Sevilha após a dinastia Almoada conquistar Sevilha dos Almorávidas, continuando a se dedicar à medicina.

Obras e Contribuições

Muitos foram os escritos de ibn Zuhr na área médica, sendo citados inclusive por Ibn Abi Usaibia, médico do século XIII que compilou diversas biografias sobre médicos do mundo todo em sua enciclopédia.

Dentre as notáveis obras de ibn Zuhr pode ser citada o Kitab al-Iqtisad, dedicada ao príncipe Almorávida Yusuf ibn Tashfin quando ibn Zuhr ainda era jovem. No livro em questão, é possível encontrar um sumário de várias doenças diferentes e a maneira de trata-las, juntamente com textos relativos à higiene de modo geral. Porém, o que chama atenção nessa obra é justamente o momento em que ibn Zuhr trata de assuntos como cosmética e beleza, chegando inclusive a recomendar cirurgia plástica para questões estéticas, como para o nariz, boca e assim por diante.

Assim como grandes médicos do medievo islâmico, ibn Zuhr escreveu sobre uma variedade de temas dentro de uma área. No seu livro Kitab al-Aghdhiya o sábio andaluz tratou sobre dietética, escrevendo assim um manual sobre alimentos e dieta, contendo guias muito úteis para que o leitor possa levar uma vida saudável pautando-se sempre numa boa alimentação.

Nessa obra escrita pouco tempo após ter saído da prisão, dedicando a seu novo patrono, o governante Almoada Abd al-Mumin, ibn Zuhr classifica vários tipos distintos de alimentos, desde pães, frutas e doces até carnes atípicas, como de leão, gazela e serpente. Ainda sobre esses alimentos incomuns, ibn Zuhr classificou-os com base em seu gosto, capacidade digestiva e até mesmo em sua utilidade. É curioso observar que ibn Zuhr ainda recomendou alimentos específicos para épocas do ano, levando em consideração o gasto calórico de estações quentes e estações frias, como o fato de que no inverno o gasto calórico é maior, devendo, portanto (nos dizeres de Avenzoar), aumentar a quantidade de consumo de alimentos, de preferência mais quentes e secos, afinal as temperaturas são mais frias e o ambiente mais úmido.

Entretanto, apesar dessas obras e muitas outras, a mais importante seria o seu Kitab al-Taysir, escrita a pedido de ninguém menos que seu amigo Ibn Rushd, ou Averróis, nome que ficou mais conhecido no Ocidente, que pretendia acrescentar como compêndio a sua obra Kulliyat, uma enciclopédia de medicina.

Nos 30 capítulos do al-Taysir, Avenzoar iria oferecer descrições clínicas juntamente com diagnósticos de doenças, começando pela parte superior do corpo até a inferior, sendo a cabeça seu ponto de partida. Entretanto, o que mais chamaria a atenção de sua obra foi a descrição extremamente precisa de câncer no esôfago, estômago e no mediastino2.

Ibn Zuhr realizava seus experimentos de traqueotomia em animais antes de aplica-los em seres humanos, sendo que somente séculos depois se tornaria uma prática mais comum na medicina. Sendo um grande entusiasta do método experimental, ibn Zuhr diria que a experimentação é “a única forma de provar ou descartar uma falácia”. Dessa maneira:

A aplicação de Ibn Zuhr de um modelo experimental [cirurgias em animais] a um problema clínico foi o primeiro uso relatado de cirurgia experimental. Foi o precursor do método pelo qual muitos procedimentos cirúrgicos atuais foram desenvolvidos (ABDEL-HALIM, 2011).

Posteriormente outros médicos como Muhdhdhab Al-Deen AI-Bagdadi e Ibn Al-Quff viriam a recomendar o procedimento de traqueotomia, descrevendo o mesmo com mais detalhes que seus predecessores. Ibn Zuhr, assim como muitos outros médicos muçulmanos, valorizaria imensamente a prática de dissecação, juntamente com o conhecimento de anatomia na educação médica, seja ela teórica ou prática. Mais adiante, a presença de desenhos anatômicos nos livros de sábios da medicina é uma tendência que começou e floresceu na era islâmica, refletindo o papel das observações diretas e da experiência na dissecação. Indo mais além, o método de experimentação amplamente difundido no mundo islâmico por estudiosos e grandes médicos como o próprio ibn Zuhr levaria ao enorme avanço da Anatomia, uma vez que através da observação prática, muitas críticas às obras de Galeno foram possíveis de serem feitas.

Citemos como exemplo o relato do próprio Zuhr sobre a já mencionada traqueotomia, até então controversa para época:

No início do meu treinamento, quando li essas opiniões (controvérsias), cortei o tubo do pulmão de uma cabra depois de fazer uma incisão na pele e na bainha de cobertura. Em seguida, cortei completamente a substância do tubo, uma área pouco menor que do tamanho de uma tirmisah (semente de tremoço). Aí fui lavando a ferida com água e mel até sarar e (o animal) se recuperar totalmente e viver muito tempo (AL-KHOORI, p. 149, 1983).

O al-Taysir de Zuhr ainda viria a trazer mais contribuições para a medicina, dessa vez para a microbiologia, pois seu estudo sobre a sarna viria a auxiliar o avanço científico nessa área:

Existem piolhos sob a mão, tornozelo e pé, como vermes, e feridas afetando as mesmas áreas. Se a pele é removida, surge de várias partes dela, um animal muito pequeno que dificilmente pode ser visto (GROVE, p. 72, 2014).

Ainda sob a luz do catálogo de Ibn Abi Usaibia, somos informados de mais outras obras de ibn Zuhr, como sobre antídotos (Al-Tiryaq al-Sabini); doenças do fígado (Fi illat al-Kila); lepra e vitiligo (Fi Illat al-Baras wa al-Bahaq), dentre outras mais citadas pelo médico do século XIII em sua enciclopédia.

Sendo o primeiro a identificar precisamente o câncer se desenvolvendo em várias partes do corpo (TASCI, 2020), o lendário médico andaluz viria a falecer em 1162 aos 68 anos na mesma cidade que nasceu, deixando para trás um legado que suplantou seu tempo e chega até os dias modernos, podendo ser considerado como um dos maiores e mais influentes nomes da medicina de todos os tempos.

NOTAS

[1] Tribo árabe que vivia na região da Mesopotâmia e norte da Síria.

[2] Área da caixa torácica entre os pulmões.

BIBLIOGRAFIA

AL-KHOORI, M. Translated from: Ibn Zuhr (Avenzoar) 1st ed. 1 and 2. Damascus: Darul Fikr Press for the Arab Educational Scientific and Cultural Organization; 1983. Kitab Al-Taisir Fi Al-Mudawat Wa Al-Tadbeer; p. 149.

RISSE, Gunter. Mending Bodies, Saving Souls. A History of Hospitals. Oxford University Press, 1999.

ABDEL-HALIM, Rabie E. Experimental medicine 1000 years ago. Pub Med. 2011.

ABDEL-HALIM, Rabie E. Ibn Zuhr and the Progress of Surgery. Muslim Heritage, 2017.  

TASCI, Ufuk Necat. How the 11th-century Muslim physician Ibn Zuhr was first to identify cancer. TRT World. 2020.

GLICK, Thomas F; LIVESEY, Steven; WALLIS, Faith. Medieval Science, Technology, and Medicine: An Encyclopedia. Routledge, 2014.

GROVE, David. Tapeworms, Lice, and Prions: A Compendium of Unpleasant Infections. Oxford University Press, 2014.

 

Equipe História Islâmica

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