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As Raízes do Islã nas Américas – Escravos muçulmanos e a Colônia Perdida de Roanoke

Por: Dr. Umar Farooq Abdullah, Phd.

Os fatos, às vezes, são mais estranhos do que a ficção. Um evento muito incomum e pouco conhecido ocorreu no início da história norte-americana colonial em 1586. Naquele ano, Sir Francis Drake (1540 – 1596), famoso capitão de navios, explorador e capitão mercenário (“corsário”, ver adiante) inglês, trouxe no mínimo duzentos muçulmanos (identificados como turcos e mouros, o que inclui os moriscos) à recentemente estabelecida colônia de Roanoke na costa do atual estado da Carolina do Norte nos Estados Unidos. O povoado de Roanoke foi a primeira colônia inglesa nas Américas e constitui o primeiro capítulo da história colonial inglesa no Novo Mundo e aquilo que, no fim, viria a ser a história dos Estados Unidos. Pouco antes de chegar em Roanoke, a frota de Drake de cerca de trinta navios, havia libertado esses muçulmanos da força colonial espanhola no Caribe. Eles tinham sido condenados a trabalhos forçados como escravos remadores.

Não se sabe ao certo o que Drake planejava para os escravos libertos. Os espanhóis temiam que ele os recrutaria para reforçar a colônia de Roanoke. Eles sabiam da existência da colônia, mas não da sua localização; por isso, não foram capazes de destruí-la. Registros históricos indicam que Drake havia prometido devolver os escravos libertos ao mundo islâmico e o governo inglês entregou cerca de cem deles ao domínio otomano, os repatriando. Dado que o relato original sobre a quantidade de escravos libertados era de mais de o dobro dessa quantidade, faz sentido questionar o que aconteceu com o restante deles. Simplesmente morreram? Decidiram ficar para trás no litoral da Carolina do Norte? Por acaso Drake os abandonou em algum lugar remoto? Ou os levou de volta para a Inglaterra? Todos eles foram repatriados ao mundo islâmico? Como a narrativa de Roanoke não se conclui sem a inclusão da inusitada história dos escravos muçulmanos libertados por Drake, os acontecimentos da colônia também constituem o primeiro capítulo da história da presença islâmica na América britânica e, posteriormente, nos Estados Unidos.

A colônia de Roanoke acabou por fracassar depois de alguns anos, tendo existido pelo breve período de 1585 a 1590. A colônia havia sido fundada como base militar de ataque aos navios espanhóis no Caribe e foi parte de uma guerra marítima que se intensificava entre a Inglaterra e o Império Espanhol, que culminou no ataque fracassado da “Invencível Armada” espanhola à Inglaterra em 1588. Como colônia, Roanoke fracassou principalmente porque foi isolada da rota de suprimentos vitais da Inglaterra de 1587 a 1590 (os últimos três anos), devido à ameaça iminente do ataque da Armada à Inglaterra e ao risco constante de um subsequente ataque naval da Espanha, que perdurou por anos. Quando os ingleses finalmente retornaram a Roanoke em 1590, não encontraram nenhum dos primeiros colonos. Não encontraram indícios de violência, mas concluíram dos vestígios que os colonos haviam deixado deliberadamente que eles haviam migrado pacificamente e, provavelmente, se estabelecido entre diversas tribos de nativos norte-americanos da região. Como o fim dos últimos colonos de Roanoke permanece desconhecido, os historiadores norte-americanos costumam chamá-la de “a colônia perdida”.

Considerado isoladamente, o episódio da libertação dos escravos de galé por Drake em Roanoke aparenta ser apenas mais uma das curiosidades notáveis da história. No entanto, para entendê-lo da maneira correta todos os acontecimentos devem ser considerados dentro do contexto global da época, em que as relações entre ingleses e muçulmanos eram, no geral, positivas. Esta realidade global mais extensa explica o motivo de Drake ter se interessado dessa forma com os prisioneiros muçulmanos libertados, ter ordenado sua tripulação a tratá-los com hospitalidade e, aparentemente, ter os considerado como aliados em potencial contra a Espanha.

No seu todo, a presença dos muçulmanos no início do Novo Mundo deve ser observada de um ponto de vista mundial, como Hernán Taboada lembra com razão no seu estudo sobre o receio dos Espanhóis para com o Islam e os muçulmanos nas Américas durante o século XVI – um dos séculos formativos da história das Américas. Taboada lamenta a incapacidade dos historiadores ocidentais de conceberem a importância crucial da civilização islâmica mundial nos primórdios da história das colônias americanas, e atribui como causa a essa incapacidade o fato de poucos especialistas de história americana terem conhecimento adequado da história islâmica. Além disso, ele salienta a falta de documentação, a falta de métodos historiográficos adequados e a persistência de um foco míope e eurocêntrico nos registros da história ocidental. Todos esses fatores intensificam a incapacidade dos historiadores de articularem seus estudos num contexto mundial, mais abrangente.

Os espanhóis do século XVI não ignoravam as consequências políticas globais que a libertação de Drake dos escravos de galé muçulmanos no Caribe teria nas relações da Inglaterra com o mundo islâmico. É interessante que muitos observadores espanhóis da época parecem ter mais conhecimento das consequências de maior escala das investidas de Drake contra os espanhóis do que muitos historiadores atuais ocidentais. Um navegador espanhol que escapou após ter sido prisioneiro de Drake foi perspicaz em observar num relatório oficial sobre os ataques de Drake para a coroa espanhola que a Rainha Elizabeth I “enviou seu embaixador para encontrar o Turco [o sultão otomano] e lhe enviou grandiosos presentes.” O mesmo navegador espanhol dizia que o próprio Drake tinha planos pessoais de se refugiar entre os muçulmanos do norte da África, caso o ataque previsto da Armada Espanhola saísse vitorioso.

Não é coincidência que os relatos dos espanhóis sobre Drake sempre se referem a ele e a outros navegadores mercenários europeus como “corsários (ou “corsários berberes” – o termo designava os capitães mercenários muçulmanos). Na época, os corsários da África do Norte e do Marrocos estavam no auge de seu poder. Drake, o seu amigo próximo, Sir Walter Raleigh – que era a força motriz da colônia de Roanoke – e muitos outros capitães mercenários ingleses conheciam bem os verdadeiros corsários; eles mantinham relações amigáveis entre si e às vezes até uniam frotas. Os relatos espanhóis da época não estavam completamente enganados a respeito da afinidade que existia entre os capitães mercenários ingleses e do restante da Europa e os formidáveis corsários, que os espanhóis frequentemente combatiam em alto mar ou encontravam atacando seus portos. Na verdade, os prisioneiros turcos e mouros que os espanhóis haviam condenado às galés caribenhas eram provavelmente corsários.

Estudos recentes de história trouxeram à luz o fato de que havia uma quantidade significativa de muçulmanos no Novo Mundo durante o período colonial, que costumavam viver clandestinamente como escravos e, raramente, como livres trabalhadores. A maioria dos indivíduos com antepassados islâmicos nas colônias americanas pertenciam a um de dois grupos: o dos escravos africanos, normalmente do oeste da África (entre dez a vinte por cento deles tinham raízes islâmicas), e o dos moriscos da Espanha e de Portugal, que haviam sido convertidos à força para o cristianismo no século XVI. Os dois grupos viviam lado a lado nas colônias espanholas e portuguesas. Contudo, nas colônias britânicas, pessoas de origem morisca ou moura eram raras, e os Africanos eram de longe a população maior e mais visível entre as duas.

A libertação de Drake dos escravos de galé muçulmanos demonstra que esses outros povos islâmicos de origens diferentes também estavam presentes nas colônias espanholas e eram um elemento inusitado da presença islâmica na América colonial. Sem dúvida havia outras galés militares na frota espanhola como as que Drake encontrou em Cartagena. Esses navios eram essenciais no poderio naval espanhol, pois eram mais eficazes para manobrar em batalha do que os navios à vela e empregavam de maneira mortífera a artilharia pesada que carregavam. É muito plausível que os mouros norte-africanos e turcos capturados na guerra acabassem se tornando escravos remadores de galé – não é surpreendente que Drake tenha encontrado centenas deles ao acaso no Caribe, nem é fora da realidade que houvesse muitos escravos de galé muçulmanos nas colônias espanholas. Mas a escravidão nas galés também era destino comum de milhares de moriscos espanhóis e portugueses condenados de “heresia” (normalmente a prática clandestina do Islam) nos tribunais da Inquisição e alguns dos “mouros” que Drake libertou eram provavelmente moriscos (mouros da Península Ibérica) pegos pela Inquisição.

Não temos provas conclusivas de que alguns dos turcos, mouros e (possivelmente) moriscos libertados por Drake tenham permanecido em Roanoke e estabelecido raízes na América do Norte. Mas os misteriosos melungos do Apalache e os seus primos, os lumbees da Carolina do Norte, remontam suas origens em Roanoke e provavelmente têm a mais autêntica reivindicação do legado de Drake. Tanto os melungos quanto os lumbees precedem a colonização britânica da América do Norte e constituem populações únicas, diferentes dos brancos, negros e nativos norte-americanos. Por séculos, os melungos e os lumbees orgulhosamente se identificam como “Portugueses” e muitos acreditam que tenham raízes mouras.

As nossas dúvidas sobre o que, no fim das contas, aconteceu com os “turcos”, “mouros” e outros escravos resgatados por Drake continuam em sua maior parte sem respostas, e é possível que permaneçam como mistérios não resolvidos da “colônia perdida” de Roanoke. O que é importante em específico sobre a história de Drake é o seu contexto mundial, que não somente revela as boas relações que existiam entre a Inglaterra e o mundo islâmico, mas também a presença ubíqua do Islam como civilização mundial. Além disso, o episódio chama a nossa atenção à importância de procurar por raízes islâmicas inusitadas nas Américas, como a dos escravos de galé libertos, cujos antecedentes étnicos e culturais eram extremamente diversificados e variados – o que reflete a realidade cosmopolita da época. Precisamos ver a história das Américas como uma peça importante de um quebra-cabeça mundial que envolvia não somente os europeus ocidentais, mas contava com a participação de vários povos de raízes diversas e, às vezes, inesperadas. Os muçulmanos sempre foram parte desse quebra-cabeça. Mesmo em menores números e com papéis menos visíveis, eles estiveram presentes nas Américas por tanto tempo quanto os europeus ocidentais.

Os Turcos, Mouros e Moriscos

O princípio do conhecimento é o uso da terminologia correta. É impossível avaliar precisamente as referências históricas aos “turcos” e aos “mouros” dos registros sobre os escravos libertados por Drake sem saber precisamente o que esses termos indicavam no século XVI. Ambas as palavras eram usadas tanto de maneira abrangente, genérica, quanto para designar características específicas, então é necessário que tenhamos todos os significados possíveis em mente. A maioria dos historiadores contemporâneos que escrevem sobre os escravos libertados por Drake tratam a palavra “mouro” de maneira muito restrita, se referindo exclusivamente aos “mouros” norte-africanos, sem incluir os “moriscos”, os antigos mouros da Espanha e de Portugal. A incompreensão dos significados mais abrangentes da palavra “mouro” tornou a narrativa histórica confusa, deixando de indicar as origens de todas as populações envolvidas, que eram potencialmente muito diferentes.

No século XVI, as palavras “turco” e “mouro”, em seu sentido mais amplo, eram empregadas como referências aos muçulmanos em geral, independentemente de nacionalidade, cultura ou etnia. No contexto ibérico, “mouro” ainda era a palavra comum e genérica usada para designar os muçulmanos e este uso genérico também está presente nos registros espanhóis sobre os escravos de galé libertados. Desde a Idade Média, os códigos jurídicos espanhóis definem os muçulmanos como “mouros”. Nas leis do Rei Alfonso X de Castela (1221 – 1284), “mouro” designava “um tipo de gente que crê que Muḥammad era o profeta ou o mensageiro de Deus.” Durante os séculos do movimento cruzado europeu, as populações islâmicas conquistadas dos antigos territórios mouros da Espanha e de Portugal, que continuaram vivendo sob o domínio cristão, ainda eram consideradas mouras e viviam nos “bairros mouros” (morerías). Quando os espanhóis conquistaram as Filipinas no século XVI, eles chamaram os grandes povos nativos muçulmanos de “mouros”. Suas prolongadas guerras para subjugá-los eram chamadas de “Guerras dos Moros”.

As palavras “turco” e “mouro” podiam também ser usadas mais especificamente para indicar variadas afiliações políticas e nacionais ou identidades étnicas e culturais. Nesse sentido mais específico, a palavra “turco” tinha uma conotação essencialmente nacional, com referência aos cidadãos políticos do Império Otomano Turco, cujas fronteiras na época abrangiam os Balcãs em sua totalidade, se estendendo até a Áustria, e continham também a maior parte do Oriente Médio. Mesmo nessa época, no entanto, a palavra “turco” não designava exclusivamente os turcos em cultura ou etnia, mas também outras populações muçulmanas do vasto império, inclusive os árabes e os curdos, que não eram turcos nem em etnia nem em cultura.

Como veremos, um dos aspectos curiosos dos registros ingleses sobre os escravos que Drake libertou, é que eles também fazem referências a “gregos” entre os “turcos”. Esses gregos também teriam vindo do Império Otomano que, na época, tinha domínio sobre todas as ilhas gregas e os territórios da Grécia continental e sobre as grandes populações gregas da Anatólia. Não é possível determinar da referência aos “gregos” se eles eram cristãos ortodoxos, muçulmanos convertidos ou populações turcas que haviam se estabelecido junto aos gregos étnicos. O uso da palavra “gregos” junto da palavra “turcos”, no entanto, deixa claro que os “turcos” indicados nos registros eram cidadãos otomanos e não apenas muçulmanos no geral, já que as duas populações eram altamente miscigenadas no Império Otomano.

Apesar de não ter existido um único império “mouro” no século XVI, havia uma grande quantidade de entidades políticas “mouras”. A palavra “mouro”, num sentido mais estrito, diferente de “turco”, não indicava afiliação a alguma nação específica. “Mouro” pode designar os muçulmanos do Reino do Marrocos ou de qualquer uma das regências norte-africanas da Argélia, da Tunísia e da Líbia. A palavra era empregada também no contexto ibérico para designar os moriscos, os antigos mouros dos territórios da Espanha e de Portugal.

A Inquisição forçou toda a população “moura” conquistada a se converter ao catolicismo durante a primeira metade do século XVI. Aos poucos, esse povo passou a ser chamado de “morisco” (“moriscos” – literalmente, os “mourinhos”). Em aparências, os mouriscos eram cristãos. Recebiam nomes de batismo espanhóis e portugueses, falavam as línguas românicas das suas respectivas regiões e eram culturalmente e etnicamente da Península Ibérica. A Inquisição mantinha os moriscos sob constante vigilância para assegurar que eles mantivessem uma aparência cristã e não praticassem o Islam aberta ou secretamente. Dos mouros “convertidos” da Espanha e de Portugal, no entanto, poucos se contentavam com a conversão forçada. Perto do fim do século, em 1582, poucos anos antes do projeto de Roanoke ter início, Filipe II – então o rei dos da União entre Espanha e Portugal – concluiu que todos os esforços para dissipar e assimilar os muçulmanos convertidos da Península Ibérica havia sido um fracasso.

A palavra “morisco” não está em nenhum dos registros históricos originais sobre a libertação dos escravos de galé por Drake no Caribe. Na época, “morisco” ainda era uma palavra nova nos vocabulários espanhol e português, apenas começando a se popularizar. O neologismo “morisco” era originalmente um pejorativo. Aos poucos entrou nos vocabulários comuns da Espanha e de Portugal e substituiu expressões anteriores, como “convertidos”, “novos cristãos” e “mouros convertidos”. A palavra “morisco” se popularizou no norte da Espanha por volta de 1550, mas, por muitos anos ainda, os inquisidores espanhóis referiram aos indivíduos acusados pela Inquisição como “mouros convertidos” e não “moriscos”.

Os “mourinhos” também podiam ser chamados de “mouros”. Os moriscos portugueses preferiam ser chamados de “mouros”, e é possível que esse também fosse o caso com os moriscos espanhóis. A palavra “mouro” aparenta ter sido usada principalmente para indicar os moriscos que foram julgados culpados de “heresia” por retornarem ao Islam, porque a palavra “mouro” nunca perdeu o significado genérico de “muçulmano”. Em 1560, a Inquisição do Peru executou Lope de La Pena e seu companheiro, Luis Solano, por praticarem e difundirem o Islam. Os registros oficiais chamam o primeiro de “o mouro Lope de La Pena”, mas é quase certo que ele era um mouro “convertido” à força (ou seja, morisco), como indica o seu nome cristão, já que os moriscos recebiam nomes de batismo.

Apesar da palavra “morisco” não estar presente nos registros espanhóis e ingleses sobre libertação dos escravos de galé por Drake, a ausência da palavra não significa que ao menos alguns dos “mouros” que ele libertou não fossem, na verdade, mouros “convertidos” da Península Ibérica. Seria errado esperar que a palavra “morisco” ocorresse nesses registros do século XVI, já que não era termo técnico oficial e ainda estava em processo de popularização no vocabulário espanhol. O termo “mouro” nesses registros poderia, da mesma maneira, indicar mouros “convertidos” da Península Ibérica, já que moriscos “hereges” muitas vezes eram condenados às galés. Para determinar se algum desses “mouros” libertados por Drake era mesmo um “mouro” convertido espanhol ou português, é necessário observar as descrições dadas a eles nos registros históricos e os eventos associados a eles. Somente assim que se pode compreender precisamente esse rótulo ambíguo atribuído a eles.

Os moriscos eram frequentemente acusados de “heresia” sob a suspeita de adesão pública ou clandestina à fé e à pratica do Islam. Um mero descuido de fala ou negligência na prática cristã poderia resultar no morisco ser levado a um dos tribunais. Os inquisidores prestavam bastante atenção nos “sinais” de heresia, como o de se voltar para a direção de Meca durante a oração ou a realização de abluções e banhos rituais.

Os moriscos “hereges” eram normalmente condenados a serem queimados na fogueira; a Igreja se referia a essas execuções com o eufemismo “atos de fé”. Os moriscos, entre si, se referiam aos inquisidores como “os queimadores” (al-Ḥarrāqūn); eles aconselhavam seus filhos a não revelarem que eram muçulmanos: “há uma Inquisição e eles o queimarão”. Os moriscos viam a Igreja como um inimigo fortemente armado com equipamentos de tortura, galés e fogo. Eles sabiam bem que a Inquisição prontamente confiscaria suas propriedades e seus filhos se houvesse a mínima suspeita de heresia. Em casos raros, a Inquisição permitia que moriscos condenados de “heresia” trocassem a pena de morte pelo resto da vida nas galés. Os moriscos condenados por “heresias” menores, para as quais, ao ver dos inquisidores, não cabia a pena de morte, eram normalmente condenados à pena perpétua como escravos de galé. A prática da circuncisão, por exemplo, geralmente era considerada um ato de “heresia menor”. O rei Filipe II ordenara a Inquisição a condenar às galés qualquer um que fosse julgado culpado de fazer circuncisões.

Era difícil sobreviver à pena nas galés espanholas. Poucos provavelmente duraram mais do que cinco anos. A única esperança de sobrevivência para os escravos das galés eraa fuga. Quando as galés espanholas eram atacadas pelos turcos ou pelos corsários, os escravos tentavam se libertar das correntes e se rebelavam contra seus senhores – como fizeram durante os ataques de Drake no Caribe – e buscavam resgate com seus salvadores.

Os moriscos eram conhecidos pelo seu apego profundo e duradouro ao Islam e pela sua tendência de expressar o apego cultural e pessoal à fé sempre que fosse seguro. Muitos muçulmanos africanos que foram escravizados nas Américas tinham uma postura semelhante, como indicam suas biografias. Desde o começo do período colonial, a Espanha e a Igreja Católica viam o Islam como uma ameaça à hegemonia cultural e religiosa que buscavam cultivar no Novo Mundo. Um decreto da realeza espanhola, relacionado à colonização do Novo Mundo, de 1543: “Em terras novas como essa, onde a fé foi semeada apenas recentemente, é necessário impedir que a seita de Muḥammad ou qualquer outra se difundam.”

As autoridades espanholas imperiais buscavam restringir a emigração para o Novo Mundo somente para os católicos “antigos” à exclusão dos “novos” convertidos de passado morisco e marrano (os judeus). Para ter acesso irrestrito ao Novo Mundo, era requisito demonstrar que fosse filho ou neto de cristãos que nunca tiveram problema algum com a Inquisição. Esta política era difícil de ser aplicada com os moriscos pois eles eram a mão de obra primária da Espanha e eram essenciais para grande parte da manufatura, produção e construção necessárias no Novo Mundo. A arte e a arquitetura das colônias espanholas na América dos séculos XVI e XVII são primariamente de estilo morisco e são a prova concreta de que construtores moriscos estavam presentes em grande número e ativos no Novo Mundo, apesar das políticas oficiais feitas com o propósito de exclui-los. 

No século XVI, o Cardeal Jiménez de Cisneros, Inquisidor-geral da Espanha, que deu à Inquisição espanhola sua forma definitiva e foi chamado de o “missionário aos mouros”, reclamou que o Islam estava sendo praticado abertamente nas Américas, principalmente pelos moriscos. Medidas oficiais para eliminar os moriscos das Américas nunca foram completamente eficazes. O Novo Mundo era atraente para os grupos oprimidos da Espanha e de Portugal com sua vastidão, facilidade de locomoção, oportunidades, demanda infindável por mão de obra e maior liberdade social. Américo Castro, distinto historiador cultural da Espanha, afirma que muitos moriscos e marranos viam no Novo Mundo uma oportunidade de liberdade e de paz que não encontravam mais nas suas terras natais.

O Contexto Global: As Relações entre Ingleses e Muçulmanos na Renascença

Na época da fundação de Roanoke, a atitude dos ingleses para com os muçulmanos do Império Otomano, do Marrocos e do restante do norte da África era extremamente diferente da atitude dos espanhóis. Em geral, os ingleses haviam se aberto para o mundo islâmico e tinham contato relativamente frequente com ele. Além disso, com o surgimento recente da Reforma Protestante, os protestantes ingleses e do resto da Europa viam os turcos otomanos e os muçulmanos do Marrocos e do norte da África, no flanco sul da Espanha, como valiosos aliados em potencial contra as investidas do Império Espanhol, da Contrarreforma e da Inquisição.

Os ingleses mantinham conexões comerciais, diplomáticas e sociais com os turcos otomanos e com os marroquinos do norte da África. Nabil Matar afirma em sua obra pioneira sobre o assunto:

“Nenhum outro povo não cristão interagia mais com o povo britânico do que os muçulmanos do Império Otomano, do Mediterrâneo oriental e dos reinados ao norte da África da Tunísia, da Argélia e da Líbia e também do Marrocos (que não fazia parte do domínio otomano). Esses muçulmanos… representavam o povo não cristão mais perceptível em solo inglês naquele período – mais do que os judeus e do que os índios norte-americanos, os principais ‘outros’ da história renascentista britânica.”

Matar repara que, durante esse período, os turcos e marroquinos visitavam e faziam comércio nos portos ingleses e galeses aos milhares. Embaixadores e emissários muçulmanos percorriam a sociedade londrina com seu charme, seus alimentos exóticos e cavalos árabes.

Os muçulmanos e os ingleses faziam suas refeições nas mesmas mesas nas estalagens de Londres e, juntos, admiravam os desfiles das elegantes carruagens otomanas. Navios britânicos transportavam os muçulmanos para a peregrinação em Meca e os protegiam dos ataques dos piratas. Os britânicos chegavam a entrar nos exércitos muçulmanos e se uniam aos corsários.

A colônia britânica no Novo Mundo teve um início lento e complicado. Por outro lado, na mesma época já havia uma quantidade significativa de povoados ingleses no mundo islâmico. Um comentário de 1577 relata que “os sábios e prudentes” entre os homens e mulheres ingleses estavam deixando a Inglaterra para viver em outras terras como a França, a Alemanha e a África do Norte. As sociedades muçulmanas eram abertas à imigração dos povos de terras cristãs. Do ponto de vista dos europeus menos privilegiados, essas sociedades islâmicas eram meritocracias quando consideravam as severas restrições impostas de berço presentes nas sociedades europeias, onde era difícil ascender da classe em que se havia nascido. A atração pelo mundo islâmico não era característica única dos ingleses. Europeus ocidentais expatriados em Argel durante o começo do século XVII eram numerosos e influentes. Mesmo quando a migração da Inglaterra à América do Norte se intensificou no final da década de 1620, os ingleses que viviam entre os mouros do norte  da África e em outros lugares do Mediterrâneo islâmico continuaram sendo mais numerosos do que seus primos nas colônias americanas por anos.

Como observado anteriormente, um depoimento oficial espanhol – registrado em Havana após os ataques de Drake no Caribe – observa que a Rainha Elizabeth I (1533 – 1603) “enviou seu embaixador para encontrar o Turco e lhe enviou grandiosos presentes.” Este relatório reflete o estado das relações entre ingleses e muçulmanos na época da fundação da colônia de Roanoke. A Rainha Elizabeth I cultivava cuidadosamente os laços diplomáticos com os governantes turcos e marroquinos, e foi a primeira monarca inglesa a “cooperar abertamente com os muçulmanos e a permitir que seus súditos fizessem comércio e interagissem com eles, sem estarem sujeitos à condenações por negociarem com ‘infiéis’”.

A Rainha Elizabeth entendia bem as vantagens estratégicas e comerciais que boas relações diplomáticas com as potências muçulmanas poderiam proporcionar e recebia os emissários dos países islâmicos atenciosamente em Londres. Em certas ocasiões, a Rainha até se vestia em trajes turcos, que havia ordenado ao seu embaixador em Istambul que lhe providenciasse. Seu pai, o Rei Henrique VIII, em certas ocasiões, também se vestia com trajes “orientais” para receber convidados muçulmanos.

A atitude aparentemente liberal da Rainha Elizabeth para com os muçulmanos tinha a aprovação da corte otomana. A iniciativa da Inglaterra de repatriar os “turcos” que Drake havia resgatado no Caribe era deliberadamente parte da política inglesa geral de aproximação e de estabelecimento de relações amigáveis. O Conselho Privado da Rainha estava ansioso para repatriar os muçulmanos, com a esperança de que a manobra beneficiaria Companhia Inglesa do Levante (British Levant Company) que, naquela época, estava fazendo comércio na Turquia. O conselho esperava que seus agentes obteriam “mais favores e liberdades” com os otomanos, possivelmente garantindo a libertação de alguns prisioneiros ingleses da Turquia. Os ingleses providenciaram roupas novas para os “turcos” libertos para que pudessem apresentá-los de forma apropriada para os otomanos, e tinham confiança de que as recompensas que poderiam obter com os otomanos seriam muito mais do que o suficiente para pagar todos os custos, inclusive o custo do transporte dos “turcos” de Drake para Istambul. A caminho da Turquia, os ingleses encontraram um juiz muçulmano (qāḍī) da Palestina – então parte do domínio otomano – que ficou admirado ao escutar a história dos prisioneiros muçulmanos libertos, e se maravilhou com a bondade da Rainha Elizabeth e com o poder dela, como mulher, de colocar a determinação em prática .

Alguns anos depois, em 1594, Safiyya Baffo, princesa otomana convertida ao Islam  originária da República de Veneza, que tinha uma certa influência sobre a política externa turca, escreveu uma carta para a Rainha Elizabeth, a quem ela se dirigiu como “escolhida entre os que triunfam sob o estandarte de Jesus Cristo.” Baffo contou a Elizabeth das fortes esperanças que as políticas e a fé protestante da rainha tinham despertado nos corações muçulmanos.

O Marrocos era igualmente importante do ponto de vista da Rainha Elizabeth; ela cultivava laços amigáveis com os marroquinos com tanta dedicação quanto cultivava com os turcos. A Rainha mantinha uma relação particularmente próxima com o rei do Marrocos, Aḥmad al-Manṣūr al-Dhahabī (“o Dourado”) que, por sua vez, era um astuto diplomata e tinha conhecimento íntimo do mundo cristão europeu. Essa relação aparenta ser de amizade sincera.

Al-Manṣūr e a Rainha Elizabeth trocavam muitas correspondências. Essa troca durou de ao menos 1580 – dois anos depois de ela ter assumido o trono – até as mortes dos dois, ambas no ano de 1603. Eles se comunicavam nos anos da fundação da colônia de Roanoke e Al-Mansūr partilhava do interesse de Elizabeth em fazer oposição ao poder espanhol no Caribe. Em 1603, al-Manṣūr, fez a proposta extraordinária de o Marrocos e a Inglaterra unirem forças e expulsassem os espanhóis do Caribe e tomassem a posse compartilhada dos domínios espanhóis no Novo Mundo e, “com o auxílio de Deus… anexá-los ao nosso território e ao seu.” A proposta de al-Manṣūr nunca foi implementada. Ela reflete, no entanto, a franqueza e a noção de potencial político que caracterizavam as relações entre a Inglaterra e o Marrocos na época.  Essa visão dinâmica de cooperação se refletia na atitude de Drake para com os muçulmanos escravos de galé, que libertou a caminho de Roanoke.

As boas relações com o Marrocos eram importantíssimas para as rotas navais inglesas para as Américas nos primórdios do período colonial. A Inglaterra, o Marrocos e as Américas formavam o “Triângulo da Renascença”. A preservação desse “triângulo” era assunto central nas relações entre os muçulmanos os ingleses da época da Rainha Elizabeth I, porque o sucesso da navegação britânica no Atlântico ocidental dependia disso. Se a situação fosse diferente, os britânicos teriam usado as ilhas Canárias e do Cabo Verde para cruzar o Atlântico, mas elas já estavam, respectivamente, sob o controle espanhol e português. Em vez de usar essas ilhas, os ingleses desenvolveram o Triângulo da Renascença com o Marrocos, e ele permaneceu em uso durante os reinados da Rainha Elizabeth e dos monarcas ingleses posteriores. Durante a época da fundação de Roanoke e por anos depois, o triângulo continuou sendo a via marítima mais atraente e lucrativa para os comerciantes, viajantes, emigrantes, aventureiros, capitães “corsários” e piratas ingleses. Sir Francis Drake e Sir Walter Raleigh conheciam bem o triângulo renascentista, e faziam vasto uso dele.

A Colônia de Roanoke

A colônia de Roanoke pertence, é claro, à época do Triângulo da Renascença, do reinado da Rainha Elizabeth I (1558 – 1603) e à era do grande poeta e escritor teatral inglês William Shakespeare (1564 – 1616). A obra prima de Shakespeare, A Tempestade, apesar de ter sido escrita muito anos depois do fracasso de Roanoke, refletia o fascínio inglês da época com o Novo Mundo do outro lado do oceano Atlântico, que é o que fazia do plano de Roanoke algo tão interessante para os ingleses e o que os levou a continuarem com novas explorações e descobertas.

A Rainha Elizabeth encarregou Sir Walter Raleigh (1552 – 1618), o cortesão, soldado e explorador, a fundar a colônia, dando total apoio ao projeto. Para a Rainha, Roanoke era uma manobra política audaz e cuidadosamente planejada. Com o estabelecimento de um alicerce inglês na costa do Atlântico da América do Norte, ela planejava evidenciar o poderio crescente da Inglaterra como nação emergente e declarar sua intenção de desafiar diretamente a reivindicação da Espanha do direito exclusivo de colonizar o Novo Mundo.

Em 1580, cinco anos antes do primeiro povoado de Roanoke, Filipe II, o imperador da Espanha, tomou o trono português, unificando Espanha e Portugal sob um só reinado. A Espanha continuaria com o domínio sobre Portugal pelos próximos sessenta anos. Assim, durante o período da colônia de Roanoke e por um bom tempo depois, Portugal pertenceu ao reino da Espanha, proporcionando à Espanha o direito único e exclusivo de colonizar as Américas em sua totalidade, inclusive o Brasil português. A Espanha empregava a sua extensa força naval e militar para assegurar que nenhum rival europeu estabelecesse colônias rivais no Novo Mundo. A Armada “Invencível” espanhola de 1588 era uma expressão do espantoso poderio do Império Espanhol. O posto avançado de San Agustín na Flórida foi estabelecido com o único propósito de vigiar a costa leste norte-americana e impedir o estabelecimento de colônias “ilegais” – que não fossem espanholas.

Depois da unificação com Portugal, a Espanha passou a ser vista pelos outros europeus como a nova Roma. Estava agora no auge da riqueza e do poder, como uma das maiores potências globais da história, abarcando desde as Ilhas Filipinas do oeste do Pacífico até os continentes americanos no Atlântico distante. Era um império tão extenso que o sol não chegava a se pôr sobre ele. O Império da Espanha era o campeão do catolicismo romano e da Contrarreforma. Era também o principal apoiador e beneficiário da Inquisição, que servia o estado espanhol como uma organização poderosa centralizadora de inteligência doméstica, fomentando sua hegemonia ideológica e cultural e amparando a sua unidade política e política externa. O poder marítimo e terrestre da Espanha não constituía ameaça política para a Inglaterra e para o restante da Europa ocidental por si só mas, ideologicamente, fazia oposição direta à Reforma Protestante, que tivera início no começo do século XVI e munira nações como a Inglaterra com os princípios religiosos e ideológicos dos seus novos estados emergentes.

Na época da fundação da colônia de Roanoke, Portugal e Espanha unificados eram a mais poderosa nação da Europa ocidental. Mesmo antes da unificação em 1580, Espanha e Portugal predominavam no controle do oeste do oceano Atlântico, e reivindicavam e impunham seus direitos exclusivos de colonizar as Américas, que o Papa havia endossado oficialmente com o Tratado de Tordesilhas em 1494. No tratado, o Papa concedia a Portugal o direito único de colonizar o Brasil, e todas as outras terras ao oeste do Brasil (ou seja, o restante que, hoje, constitui as Américas do Norte, do Sul, Central e as ilhas do Caribe) seriam monopólio permanente da coroa espanhola. Os espanhóis consideraram o estabelecimento da colônia de Roanoke uma transgressão jurídica e política direta contra o seu domínio colonial exclusivo.

Na imposição do seu direito exclusivo de colonizar as Américas, o Império Espanhol estava determinado a ampliar seu poder político e manter o Novo Mundo como domínio exclusivo para si próprio e para a Igreja Católica Romana. Contudo, além desse programa ideológico, a Espanha se preocupava principalmente com a proteção das suas ricas frotas de navios carregadas com tesouros de prata, ouro e outros objetos valiosos, que saíam regularmente do Golfo do México e do mar do Caribe, passando pelos estreitos traiçoeiros do Canal das Bahamas a caminho da Espanha. Esses navios carregados de tesouros atraíam piratas e capitães mercenários e corsários dos arredores e de mares distantes, sempre sob a ameaça de ataque.

Com razão, a Espanha temia que qualquer colônia estabelecida na costa leste da América do Norte por outras nações serviria como base para que capitães mercenários atacassem seus carregamentos. Na realidade, esse era o propósito primário da colônia de Roanoke. Quando a Espanha foi informada do projeto de Roanoke, seu principal motivo de buscar localizar a colônia e destruí-la era impedir que se tornasse uma base de mercenários da Inglaterra. Entretanto, devido à sequência incomum das circunstâncias históricas, Roanoke se debandou por si mesma antes que os espanhóis viessem a descobrir a sua localização. 

Por volta da época da fundação de Roanoke, a Rainha Elizabeth mandava constantemente frotas de capitães mercenários ingleses para atacar os navios de tesouro espanhóis. Esta época foi o auge dos “corsários” ingleses, que estavam envolvidos numa guerra não declarada com a Espanha. Na média, a Inglaterra mandava mais de cem navios “corsários” a cada ano para atacar as rotas espanholas no Caribe. Essa atividade foi uma das principais razões para a formação da “Invencível” Armada espanhola. Ainda assim, apesar das tentativas espanholas de impedi-los, os capitães “corsários” ingleses continuaram com grande sucesso. Sir Walter Raleigh e Sir Francis Drake foram essenciais nessas investidas bem-sucedidas, e estavam entre os maiores beneficiários financeiros delas.

Apesar do sucesso nos ataques às rotas do tesouro espanholas, a ausência de portos britânicos na costa leste norte-americana era um grande empecilho para os “corsários” ingleses. Eles tinham a compreensão clara de que suas investidas seriam muito mais eficazes se fossem baseadas na América do Norte. Dispor de uma base em Roanoke, não muito distante das frotas espanholas, acarretaria na possibilidade para os “corsários” ingleses passarem anos inteiros ou até períodos maiores no Caribe, indo a Roanoke quando necessário para se reabastecerem e consertarem seus navios, podendo atacar os carregamentos espanhóis sempre que surgisse a oportunidade. Diferente da colônia de Plymouth Rock, onde os peregrinos de Mayflower se estabeleceram em 1620, Roanoke foi militar desde a sua origem – atacar os navios de tesouro espanhóis era o que mantinha ela ativa e o motivo da sua existência.

Sir Walter Raleigh era a força motriz por trás do projeto de Roanoke, que começou em 1584 com uma missão de reconhecimento e perdurou até 1590, quando os ingleses tiveram o último contato com a colônia e não encontraram vestígio dos habitantes.

Tal como a Rainha Elizabeth, Raleigh era motivado pelo sonho de demonstrar o poderio inglês e de construir um império, que eles esperavam que viesse a superar a Espanha. Para Raleigh, estabelecer a colônia em Roanoke foi o primeiro passo em direção à criação desse império.

A fundação da colônia de Roanoke era uma proposta cara. Raleigh justificou os gastos para seus investidores com os retornos imediatos que obteriam de Roanoke como base de operações “corsárias”, além das riquezas minerais que poderiam encontrar por acaso na região. Apesar de alguns ingleses da época serem contra as atividades “corsárias”, a grande maioria as considerava legítimas. Os investidores ingleses rapidamente perceberam o potencial de lucrarem com a colônia de Roanoke como base de ataques à frota do tesouro espanhola.

O primeiro estágio da colonização em Roanoke teve início em 1585, mas durou apenas um ano. O processo inicial foi perturbado temporariamente em 1586, quando a maioria dos colonos originais voltou à Inglaterra com a frota “corsária” de Drake, a mesma frota que havia transportado os muçulmanos escravos de galé libertados. Como foi indicado previamente, muitos dos escravos voltaram com Drake para a Inglaterra e não ficaram em Roanoke. Não se sabe ao certo, no entanto, o que aconteceu com o restante deles.

Antes da ida de Drake em 1586, havia cerca de cento e sete colonos em Roanoke desde a sua fundação em 1585. Eles foram levados para lá numa frota de sete navios projetados para atividades mercenárias. A frota era composta por cerca de seiscentos homens, metade dos quais era de marinheiros. Seus números eram grandes assim porque assaltar outros navios era a missão principal deles. Os primeiros colonos eram em grande parte veteranos das guerras inglesas na Irlanda e na Europa – eram bem treinados para assaltos marítimos e para defenderem o povoado contra os possíveis ataques espanhóis, mas não eram muito adequados para estabelecerem uma sociedade permanente ou para manter as boas relações com os nativos locais – características que eram importantíssimas para a sobrevivência e para o sucesso ao longo prazo.

Quando Sir Francis Drake chegou na colônia de Roanoke com os escravos libertados e uma quantidade de escravos domésticos negros no verão de 1586, ele ofereceu duas opções para os colonos originais: ou os deixaria com um mês de provisões, um navio menor e alguns barcos com um número suficiente de timoneiros e navegadores, ou os levaria de volta para a Inglaterra. A princípio, os colonos decidiram ficar, mas foram atingidos por uma tempestade violenta que durou três dias, destruiu o navio que Drake havia prometido deixar para eles e causou sérios danos à frota de Drake. Depois da tempestade, os colonos reconsideraram as opções e decidiram por voltar à Inglaterra. Drake fez uma nova proposta de provisões e outro navio, se decidissem ficar. Ele explicou que os danos que sua frota sofrera na tempestade haviam reduzido o espaço disponível para acomodar os colonos na viagem de volta à Inglaterra. Mesmo assim, os primeiros colonos decidiram abandonar Roanoke e voltar com Drake para a Inglaterra.

Ironicamente, no mesmo dia em que Drake partiu de Roanoke com os colonos, um navio de suprimentos que Sir Walter Raleigh havia mandado chegou em Roanoke. A tripulação do navio não avistara a frota de Drake, então, quando chegaram em Roanoke, encontraram a colônia vazia e retornaram à Inglaterra. Já no meio de agosto do mesmo ano, outro navio inglês aportou em Roanoke com mais suprimentos para a colônia, mas descobriu com um nativo local que Drake havia levado os colonos de volta para a Inglaterra. Este último navio deixou um pequeno grupo, de quinze a dezoito homens, em Roanoke com dois anos de provisões e partiu.

Em 1587, houve uma segunda tentativa de colonizar Roanoke, mas sua realização foi dificultada pela possibilidade do ataque da Armada espanhola à Inglaterra, que foi iniciado e fracassou em 1588. Essa segunda e última tentativa de colonização em 1587 consistia de cerca de cento e quinze homens e um grupo de famílias, mulheres solteiras e crianças, que buscavam estabelecer plantações de subsistência. Historicamente, os colonos deste segundo grupo que são os conhecidos como “os colonos perdidos” de Roanoke, e não os primeiros que se estabeleceram ali entre 1585 e 1586. Foi durante esse segundo período de colonização que nasceu Virginia Dare, a primeira criança inglesa nascida na América do Norte. O destino dos outros colonos de Roanoke permanece desconhecido, inclusive os destinos de muitos dos escravos que Drake libertou e da pequena guarnição de homens que o segundo navio de suprimentos deixou lá no final do verão de 1586.

Por algum tempo antes do ataque da Armada, a Inglaterra impôs uma sanção aos navios que partiam para o Novo Mundo para garantir que as forças britânicas estivessem no máximo do seu poderio para se defender do ataque já antecipado da Espanha. Por causa dessa sanção, o abastecimento de Roanoke pela Inglaterra foi suspenso de 1587 até 1590.

Apesar do fato de o segundo povoado de Roanoke ter como propósito transformar a colônia numa comunidade de agricultura de subsistência, este propósito permaneceu em segundo plano, enquanto os planos de atividades “corsárias” continuaram no foco principal da colônia. Por isso, na implementação do plano de agricultura, encontrava-se empecilhos a todo momento. A segunda população de colonos, em sua grande maioria, preferia migrar mais para o norte na baía de Chesapeake, que era um lugar mais adequado para um povoado agrário. Mas os capitães e os marinheiros, que eram o grupo majoritário de Roanoke, estavam mais interessados em assaltar os navios espanhóis e rejeitaram a possibilidade de se estabelecerem na baía de Chesapeake, que era muito menos adequada para a atividade “corsária”. Eles também constataram que, com a aproximação da temporada de furacões, o melhor clima para atacar as embarcações espanholas estava quase no fim e não era mais a ocasião para estabelecerem uma nova colônia mais para o norte.

O governante de Roanoke, John White, que era também o avô de Virginia Dare, foi enviado para a Inglaterra em 1587 numa missão desesperada para obter suprimentos para a colônia. Em 1588, White finalmente obteve o aval especial para retornar a Roanoke com suprimentos em dois navios menores. White abominava a atividade “corsária” e a considerava uma espécie de roubo. Para o seu desgosto, os dois capitães encarregados de levá-lo de volta até Roanoke eram mercenários “corsários” e não era possível convencê-los a não tentarem assaltar navios espanhóis durante a jornada. Os ataques foram um fracasso desastroso: todos os suprimentos foram perdidos e os dois navios tiveram de voltar à Inglaterra de mãos abanando, o que impossibilitou White de voltar a Roanoke com os tão aguardados suprimentos.

Dois anos mais tarde, em 1590, White finalmente pôde fazer a jornada de volta até Roanoke e, ao chegar lá, descobriu que a colônia havia desaparecido. Nenhum dos colonos, inclusive a neta dele, jamais foram encontrados. Mas eles deixaram a palavra “CROATAN” entalhada num poste perto da entrada do forte, que era um sinal estabelecido previamente que indicava que eles teriam se unido pacificamente à tribo dos Croatan (os Hattera) de nativos norte-americanos, dos Bancos Externos da Carolina do Norte. Rumores de uma considerável presença britânica na América do Norte continuaram a circular na Europa após a perda da colônia de Roanoke. Mas, após o fiasco de Roanoke, a Inglaterra perderia o interesse imediato em estabelecer novos povoados na América do Norte por mais vinte anos.

Revendo os Assaltos de Drake a Caminho de Roanoke

A Rainha Elizabeth I havia enviado Sir Francis Drake, que era muito próximo de Sir Walter Raleigh e do projeto de Roanoke, para atacar o Império Espanhol e suas colônias nas Américas seguindo o plano estratégico geral de iniciar uma guerra marítima contra a Espanha e desafiar a hegemonia que ela tinha sobre os mares. Drake saiu em sua expedição de ataques em 1585, que foi uma grande provocação à potência da Espanha e forneceu a ela uma razão para mandar a Armada no ataque frustrado à Inglaterra três anos mais tarde.

Drake saiu da Inglaterra com uma frota de cerca de trinta navios e uma tripulação total de quase mil homens. Sua intenção era atacar certas colônias e portos espanhóis antes de se reagrupar com o resto da frota em Roanoke. Por causa dos agentes que tinham em Londres, as autoridades espanholas já sabiam que Drake preparava sua grande frota na Inglaterra, e que ele a usaria contra a Espanha. Os relatórios oficiais espanhóis estimavam que a frota era composta por vinte e quatro navios grandes além de várias outras embarcações menores e que tinha uma tripulação de até dois mil homens. Apesar do fato de a soma da tripulação de Drake ser a metade dessa estimativa, suas forças ainda eram aproximadamente dez vezes maiores do que o tamanho das tripulações consideradas grandes nas expedições de assalto naval da época. A tropa também superava em duas a cinco vezes os números das milícias espanholas que estavam a postos nos maiores portos espanhóis do Caribe. A supremacia no poderio de Drake explica em parte como ele foi capaz de derrotar os espanhóis com relativa facilidade e de passar muitas semanas residindo nos portos de Santo Domingo e de Cartagena (Colômbia) depois de tomá-los.

Drake começou sua expedição atacando a costa noroeste da Espanha. Então continuou ao sul, seguindo a costa africana, para atacar as ilhas de Cabo Verde. Havia tempos que as ilhas eram de domínio português, mas agora estavam unificadas sob controle espanhol. As ilhas de Cabo Verde proporcionaram a Drake acesso direto às poderosas correntes equatoriais, o que facilitou para que a frota cruzasse o Atlântico até as Américas. Drake chegou em Santo Domingo, onde é hoje a República Dominicana. Depois de saquear Santo Domingo e passar várias semanas lá, ele prosseguiu para o porto de Cartagena no território costeiro espanhol, na atual Colômbia. Ele destruiu a cidade e acampou na região por muitas semanas antes de dar continuidade à expedição.

Drake queria atacar Havana, que era o elo vital do sistema colonial espanhol no Caribe. A conquista de Havana seria um grande mérito para Drake e um golpe crítico contra a Espanha. Mas o aconselharam que não atacasse e ele decidiu evitar a cidade. Um dos prisioneiros espanhóis de Drake relatou a ele que sabia que Havana era muito bem protegida (os oficiais na cidade tinham informações detalhadas sobre a frota de Drake e sobre seus ataques anteriores contra Santo Domingo e Cartagena); Drake temia que atacar Havana poderia resultar em baixas inaceitáveis. Também temia não ser capaz de defender o porto pelo tempo necessário, mesmo se, a princípio, saísse vitorioso.

Drake contornou Havana e foi em direção ao norte, seguindo a costa da Flórida até San Agustín, o principal posto avançado da Espanha para o patrulhamento do litoral mais ao norte da América contra assentamentos tecnicamente ilegais (que não eram espanhóis). Ele devastou San Agustín e continuou em rumo ao norte seguindo a costa leste até Roanoke, onde chegou em julho de 1586. Depois de retornar à Inglaterra, Drake alegou que destruíra San Agustín para proteger Roanoke, uma vez que os espanhóis teriam usado a base de San Agustín para prejudicar a colônia inglesa.

Drake e os Escravos Libertados

Drake começou a coletar escravos negros libertados já no seu ataque às ilhas de Cabo Verde antes de cruzar o Atlântico. Ele continuou aceitando mais escravos libertados a bordo depois de ter chegado no Caribe. As autoridades coloniais espanholas registraram cuidadosamente os ataques de Drake e o interesse dele em carregar grandes quantidades de escravos e julgaram que devia haver alguma colônia inglesa ilegal em algum lugar da costa leste norte-americana, e que Drake planejava reforçá-la com os prisioneiros resgatados.

Os muçulmanos escravos de galé foram libertados no ataque a Cartagena. Um relato espanhol afirma que Drake também resgatou “mouros” em Santo Domingo. Registros ingleses indicam que dois ou três “mouros” auxiliaram Drake como guias em seu ataque surpresa a Santo Domingo. De qualquer maneira, quaisquer “mouros” que Drake tenha resgatado e levado a bordo na sua frota em Santo Domingo não devem ser confundidos com os escravos de galé de Cartagena, que eram muito mais numerosos.

Os registros da Espanha e da Inglaterra dão narrativas semelhantes de como os escravos de galé de Cartagena escaparam do cativeiro espanhol. Um barril de pólvora pegou fogo em uma das galés. No caos resultante da explosão, os escravos ou foram libertados, ou escaparam dos grilhões que os prendiam nas posições dos remos, e escaparam nadando até os navios ingleses. Descrevendo o pandemônio que ocorreu nas galés, o diário de um dos navios da frota de Drake afirma que os espanhóis e os escravos de galé começaram a brigar – muitos foram mortos pelos espanhóis, levados por eles até as margens e outros ainda se libertaram e nadaram até os navios ingleses. Todos os relatos indicam que os escravos de galé se uniram à tripulação de Drake voluntariamente e prestaram serviços diversos, não especificados.

Os registros espanhóis se referem aos escravos de galé de maneira genérica como “mouros” e não indicam mais especificamente suas nacionalidades ou características culturais ou étnicas. Os registros ingleses são menos genéricos e descrevem os escravos de galé como um grupo de “turcos, mouros, gregos, franceses e negros.”

O ajuntamento de escravos de galé era grande, mas os relatos variam bastante. Um relatório espanhol de Cartagena estima que Drake tenha libertado cerca de duzentos “mouros”. Esse mesmo relatório também nota que Drake os acolheu, os tratou bem e prometeu levá-los de volta para suas terras, afirmando que ele planejava, no fim, atravessar o estreito de Gibraltar. Um diário de um dos navios da frota de Drake fala de somente que os escravos escaparam de uma “galé belíssima” e estima que eram quatrocentos. Outro comentário no mesmo diário diz que Drake levou consigo “uns duzentos turcos e mouros” além de uma grande quantidade de “negros” quando partiu de Cartagena. Ainda outro comentário no mesmo diário fala de uma quantidade muito menor, dizendo que foram resgatados oitenta escravos “turcos, franceses, gregos e negros”. Essa referência em particular a “80” escravos (escrita assim, em algarismos arábicos) pode muito bem indicar uma confusão – como sugere um historiador – por “800”, já que o mesmo diário claramente afirma em outro ponto que a quantidade de escravos alcançava as centenas. O relatório de um comerciante privado que chegou na Inglaterra pouco tempo depois dos ataques de Drake parece ter exagerado a quantidade de pessoas que Drake libertara: ele afirma que Drake levara consigo de Cartagena mil e duzentos ingleses, franceses, flamengos e “provincianos”, que ele teria libertado da prisão, além de outros oitocentos “interioranos”.

Os “turcos” indicados nos registros ingleses sobre o ataque de Drake a Cartagena eram súditos do Império Otomano. Após Drake ter voltado à Inglaterra, como mencionado anteriormente, o Conselho Privado da Rainha escreveu em agosto de 1586 para a Companhia do Levante, que estava comerciando na Turquia. A carta os instruía a se responsabilizarem pelos cem turcos e que se preparassem para mandá-los de volta à Turquia, provavelmente em troca de favores a serem concedidos pelo sultão. A referência a “gregos” também indica que a palavra “turcos” nos registros ingleses se referia a súditos do Império Otomano, uma vez que os dois grupos étnicos eram bastante interligados nos domínios otomanos. Os gregos – tanto os muçulmanos quanto os cristãos – desempenhavam um papel proeminente no Império Otomano e, em qualquer concentração considerável de otomanos, encontrava-se gregos. Os famosos corsários do século XVI, Khidr Khayr al-Din Barbarosa (1483 – 1546) e seu irmão mais velho, Baba Aruj (1473 – 1518), eram da ilha grega de Lesbos. Um dos “turcos” de Drake, identificado como Chinano, também vinha das ilhas gregas.

Como previamente indicado, as descrições dos “mouros” nesses registros certas vezes aparentam se referir aos mouros ibéricos “convertidos” (os moriscos) e não aos mouros do norte da África. Seria natural esperar encontrar moriscos entre os escravos que Drake libertou, pois eles formavam uma porção significativa dos escravos de galé espanhóis no geral. O governante espanhol de Cartagena, por exemplo, fala num depoimento oficial à coroa espanhola sobre certos soldados da Cartagena, “principalmente mouros”, que desertaram das forças espanholas e se uniram a Drake. Esse relato deixa os historiadores ocidentais perplexos. Um deles, por exemplo, comenta que era “improvável que os espanhóis tivessem soldados mouros.” Parece ser ainda mais improvável que o governante de Cartagena descreveria esses ocorridos de maneira tão descuidada num depoimento jurídico oficial para o rei da Espanha. A referência do governante aos “mouros” pode causar menos polêmica se a palavra “mouro” for considerada como referência aos “mouros convertidos” (os moriscos) da Península Ibérica, que provavelmente estavam entre as fileiras do exército do governante.

Outro depoimento espanhol sobre o ataque de Drake à Cartagena afirma que “a maioria dos escravos [de galé] e muitos dos condenados às galés escaparam com os ingleses.” Apesar de todos os escravos de galé serem tecnicamente “condenados”, no sentido de que haviam sido condenados às galés, essa referência específica a “condenados” entre os escravos levanta a novamente a pergunta: será que ao menos alguns desses “condenados” não eram moriscos? Como já foi dito, os moriscos eram normalmente enviados às galés condenados por “heresia” pela Inquisição e constituíam grande parte dos escravos de galé espanhóis.

Alguns dos muçulmanos que vieram ou foram trazidos às Américas tinham fortes laços pessoais com o Islam e o praticavam e pregavam sempre que surgia a oportunidade. Mas muitos outros eram muçulmanos “sociológicos” ou pessoas com apenas alguma ligação histórica com o Islam, mas que não tinham nenhum conhecimento considerável da fé ou compromisso pessoal com sua prática. Uma descrição espanhola sobre os mouros escravos de galé faz parecer que eles eram muçulmanos “sociológicos” desse tipo. O depoimento em questão, que foi escrito por um cidadão comum que desejava oferecer informações benéficas para a coroa, descreve o ataque vitorioso de Drake à Cartagena como um “castigo divino pelos nossos pecados”. Ele explica que os pecados do povo da cidade haviam aumentado bastante com a chegada das galés, seus oficiais e tripulações. O depoimento os acusa de assassinatos, roubos e outros crimes. Ele menciona especificamente associações “imorais” entre os mouros das galés e as mulheres de Cartagena, escravas, nativas e “até outras mulheres de outros tipos, movidos pelo desejo que supera toda prudência”. Ele se queixa de que o governante de Cartagena não punia os “mouros” por essa insolência “por causa da grande amizade que o governador tinha com o general que comandava as galés”.

É difícil determinar o significado e a veracidade dessa referência a uniões “imorais” entre os mouros e as colombianas. Ele mal estabelece a identidade dos “mouros” como moriscos. Ao mesmo tempo, os moriscos eram idênticos aos espanhóis em aparência, o que teria facilitado sua aproximação às mulheres locais, já que eles também falavam a língua espanhola e compartilhavam de passados culturais parecidos.

Como mencionado, um diário de bordo inglês relata sobre a incursão de Drake em Santo Domingo que “dois ou três mouros” o serviram como guias quando a maioria dos seus capitães e setecentos homens pisaram em terra numa tentativa de ataque surpresa à cidade. Esses “mouros” tinham conhecimento direto da colônia espanhola e do seu povo. É concebível que os mouros marroquinos ou norte-africanos teriam obtido esse conhecimento se estivessem sendo tratados com liberalidade, mas os mouros “convertidos” da Península Ibérica que, para todos os efeitos, eram idênticos aos seus conterrâneos espanhóis, teriam fácil acesso a todas essas informações.

O grupo de escravos libertados que Drake levou a bordo da sua frota no Caribe também era composto por uma grande quantidade de escravos negros, que aparenta ser comparável à quantidade de turcos e mouros. Como já foi dito, Drake começou a coletar os escravos negros “libertados” já na sua incursão nas ilhas de Cabo Verde e continuou coletando em todas as outras. De acordo com o relato de um prisioneiro espanhol fugitivo, Drake tinha a bordo de sua tropa cento e cinquenta escravos negros, homens e mulheres, após deixar Santo Domingo a caminho de Cartagena. Muitos outros escravos negros se uniram à frota de Drake mesmo depois desse ataque. Muitos senhores de escravos de Cartagena foram ao encontro de Drake para tentarem pagar o resgate dos seus escravos negros, mas ele se recusava a devolvê-los, a menos que os próprios escravos quisessem retornar. Drake libertou mais alguns escravos negros em San Agustín. Três escravos negros em San Agustín se esconderam de Drake e relataram ao governante da cidade que Drake levara os escravos negros porque “planejava deixar todos os negros no forte de uma colônia estabelecida em Jacan [Roanoke] pelos ingleses que tinham ido lá um ano atrás. Ele pretendia deixar os 250 negros e todas as suas embarcações pequenas, e então cruzar de volta para a Inglaterra com os navios maiores.”

Um relato de um cidadão comum de Cartagena afirma que trezentos nativos, principalmente mulheres, se uniram à frota de Drake após o ataque, além dos “turcos”, “mouros” e escravos negros. Isso não é confirmado em mais nenhuma narrativa espanhola ou inglesa. Como não há mais nenhuma referência a prisioneiros nativos libertados, é possível que esse relato seja somente um boato sem significado histórico. Um historiador indica, no entanto, que se Drake realmente levou as nativas consigo, era algo apenas temporário e o mais provável é que ele tenha as deixado em terra um pouco ao norte.

É muito difícil que algum dia venhamos a conhecer claramente toda a história das centenas de muçulmanos escravos de galé e de escravos negros domésticos que Sir Francis Drake levou a bordo de sua frota para Roanoke em 1586. Como Roanoke foi estabelecida como colônia “corsária” e estava sempre sob a ameaça de ataque dos espanhóis, os registros sobre ela eram feitos intencionalmente vagos para manter o segredo. Quando Drake foi em direção á colônia em 1586, ele não conhecia a sua localização exata, pois os relatos que ele recebera eram mantidos deliberadamente vagos caso caíssem em mãos espanholas.

Essa obscuridade em torno de Roanoke explica em parte as falhas nos nossos registros históricos sobre ela. Além de toda essa obscuridade, contudo, os relatos de Roanoke que possuímos são exemplos característicos das limitações intrínsecas dos registros históricos. Deve-se manter em mente essa natureza da documentação ao analisar o destino final dos prisioneiros que Drake libertou.

Diferente das narrativas cuidadosas dos historiadores profissionais, os registros históricos em que eles são forçados a se basear costumam ser casuais, fortuitos e escritos por pessoas desatentas e muitas vezes incultas, que se sentem muito seguras e não a percebem certos fatos vitais. Esses registros não são feitos para a posteridade, mas por motivos pessoais, políticos e muitas vezes bastante mundanos. Todo o relato francês sobre os escravos que Drake libertou, por exemplo, fala estritamente do que diz respeito aos interesses da França. Contém o número de prisioneiros franceses que Drake libertou, mas faz no máximo uma breve referência às centenas de outros escravos libertados. Não indica quantos eram ou a identidade deles, informações aparentemente de pouca importância para o francês que fez os registros. Entretanto, quando registros históricos incluem fatos incomuns, como a presença de grandes quantidades de turcos e mouros entre os escravos libertados, esses fatos são descritos com uma ênfase diferente. Já quando esses mesmos registros não fazem menção a esses muçulmanos e não carregam boas informações sobre o fim deles, isso não deve ser motivo de espanto e nem se deve considerar essa discrepância entre os registros como uma contradição. Ela apenas reflete o fato de que a condição deles não era nem foco primário do narrador ou o desconhecimento dele dos acontecimentos.

O Que Aconteceu com os Escravos “Turcos”, “Mouros” e Negros que Drake Libertou?

Os registros ingleses e espanhóis dizem que Drake acolheu todos os escravos libertados em sua frota e comandou que sua tripulação os tratasse bem. Um prisioneiro espanhol que fugiu se queixa que Drake tratava bem os indivíduos de todas as nacionalidades, menos os espanhóis. Tal como seu colega, Sir Walter Raleigh, Drake planejava usar Roanoke como uma base para os seus ataques no Caribe. Os historiadores em geral concordam que o propósito de Drake ter resgatado tantos escravos era usá-los como reforços em Roanoke, com exceção dos muçulmanos, que ele planejava repatriar. Os registros ingleses falam somente da repatriação de cem “turcos”. Apesar dos registros ingleses sempre fazerem distinção entre os escravos “turcos” e “mouros”, não há menção do repatriamento de nenhum “mouro”. Também não há nada nos registros que indique o que aconteceu com as centenas de escravos negros que Drake havia acolhido e o que aconteceu com o grupo de mulheres nativas. É certo que apenas uma porção relativamente pequena do total de escravos chegou a voltar com a frota de Drake à Inglaterra.

Como foi dito anteriormente, um registro espanhol do relato dos escravos negros que haviam se escondido e ficado para trás em San Agustín indica que Drake planejava levar os prisioneiros libertados para Roanoke depois das investidas, para reforçar a colônia. Outro relato importante para a coroa espanhola expressava preocupação com o resgate dos escravos, indicando que ele os levaria para ajudar a estabelecer uma suposta colônia inglesa na costa do Atlântico da América do Norte, que os espanhóis não haviam localizado, mas suspeitavam que estivesse na Baía de Santa Maria (a baía de Chesapeake). Os relatos espanhóis indicam que os escravos libertos realizavam serviços importantes na frota de Drake. Também deve-se lembrar que, segundo um dos diários de bordo ingleses, por causa de doenças, a tripulação de Drake sofreu baixas de cerca de cem homens na Cartagena. Por isso, os escravos libertos podem também ter substituído a tripulação perdida, presumindo que eles também não tenham sido vítimas das mesmas doenças.

Com exceção de dez prisioneiros franceses libertos, que foram entregues para um navio francês no Caribe, todos os escravos de galé libertados, os escravos negros e quaisquer outros que estivessem entre os que Drake acolheu ainda estavam na frota quando ela deixou San Agustín em ruínas em maio de 1586, em rumo a Roanoke. Se Drake deixou alguma parte desse notável grupo para trás, eles não deixaram rastros em Roanoke. Como dito antes, dois navios distintos de suprimentos ingleses aportaram em Roanoke pouco depois da partida de Drake, em 1586. Os diários de nenhum desses navios relatam ter encontrado alguém vivo na colônia. Um relato não verificado da inteligência espanhola alega que o primeiro navio de suprimentos inglês encontrou os corpos enforcados de um inglês e de um nativo-americano. O destino de todos os outros continua sendo um dos muitos mistérios sobre a empreitada de Roanoke.

Novamente, o primeiro navio de suprimentos aportou poucas horas depois que a frota de Drake havia partido. O segundo chegou ainda no mesmo verão e deixou para trás uma pequena guarnição de quinze a dezoito homens, cujos destinos também continuam desconhecidos. Nenhum desses navios relata ter encontrado remanescentes da frota de Drake em Roanoke. Parece improvável que qualquer um que Drake tenha deixado em Roanoke poderia ter desaparecido sem deixar rastros ou se unido aos nativos tão rapidamente. É plausível, no entanto, que aqueles que supostamente ficaram na colônia tenham se escondido dos navios, possivelmente porque não sabiam de onde eram, julgando mais prudente se ocultar durante o curto período que os navios permaneceram, como era costume dos nativos-americanos quando navios atracavam nos seus territórios. Também pode ser que Drake não tenha deixado os prisioneiros libertados em Roanoke, mas em algum outro lugar da costa nas imediações da colônia.

Alguns dos primeiros colonos, dos prisioneiros libertos e também alguns membros da tripulação de Drake podem ter se afogado ou naufragado durante a violenta tempestade de três dias que veio de súbito pouco depois de a frota ter ancorado em Roanoke. Os registros não mencionam baixas da tempestade, mas indicam que alguns navios afundaram – o que levou Drake a afirmar que não dispunha do espaço adequado para acomodar os colonos ingleses de Roanoke que haviam decidido voltar com ele à Inglaterra. Essa falta de acomodações na frota também torna mais plausível a hipótese de que Drake tenha deixado o máximo possível de escravos de galé e escravos negros para trás, pois teria priorizado os colonos ingleses.

Drake não considerava imoral deixar pessoas para trás. Ele claramente abandonou três dos seus homens em Roanoke, indo embora antes que eles retornassem de uma expedição ao interior à qual ele os havia mandado. Também nunca mais se ouviu falar deles. Karen Kupperman, notável historiadora de Roanoke, sugere que as centenas de escravos de galé, os negros e as nativas-americanas (se de fato estavam com Drake) provavelmente ficaram para trás, talvez com alguns dos suprimentos que Drake havia obtido no ataque contra San Agustín. Kupperman comenta que é muito possível que eles tenham sido aceitos pelas tribos da região que, diferente dos europeus, não tinham uma noção de exclusividade racial e costumavam aceitar como igual qualquer um que estivesse disposto a se unir culturalmente a eles.

Quando a colônia de Roanoke foi repovoada em 1587, ainda não havia sinais dos escravos libertos e dos outros remanescentes da primeira colonização. Contudo, vinte anos depois do fracasso da segunda colonização de Roanoke, foram encontradas evidências de colonos brancos identificados como originários de Roanoke, que estavam vivendo onde hoje é a Virgínia. Também há registros de que Powhatan, chefe de uma tribo local, matou alguns dos primeiros colonos de Roanoke pouco antes da fundação da colônia de Jamestown na Virgínia, em 1607, o que indica que alguns dos infelizes colonos sobreviveram por pelo menos vinte anos.

Relatos ingleses descrevem com clareza negociações oficiais que falavam de mandar cem ex-escravos de galé de volta ao domínio turco. É quase certo que essas negociações tenham sido efetuadas. É muito estranho que não haja referência alguma à repatriação dos “mouros” marroquinos ou norte-africanos libertos, principalmente se fossem mouros “genuínos”, como se refere a eles um historiador. Como dito anteriormente, o triângulo renascentista entre a Inglaterra, o Marrocos e as Américas era crucial para os interesses ingleses e envolvia diretamente os marroquinos, não os turcos. Sua importância central para os ingleses faria do repatriamento dos “mouros” algo ainda mais estrategicamente valioso do que o repatriamento dos turcos. Se, no entanto, os “mouros” de Drake eram mouros da Península Ibérica “convertidos”, que eram idênticos em etnia, em cultura e linguisticamente aos espanhóis e não necessariamente bem-vindos no Marrocos e nos outros países do norte da África, Drake e os ingleses podem não ter considerado vantagem repatriá-los em terras de que não eram cidadãos.

Conclusão: o Elo Melungo-Lumbee

As lendas da Carolina do norte sustentam que os colonos perdidos de Roanoke sobreviveram, se miscigenaram com os nativos norte-americanos e deixaram descendentes que continuam vivendo na região até os dias de hoje. Os melungos e os lumbees – dois povos únicos do sul, enigmáticos e de relações próximas entre si – têm tradições que os ligam aos colonos de Roanoke. Faz tempo que muitos escritores e historiadores americanos acreditam que os dois povos tenham origem nos remanescentes da colônia perdida.

Por séculos, os melungos se localizam principalmente nas Montanhas do Apalache de Butler County, no Tennessee, apesar de grandes grupos deles terem povoado outras regiões dos estados do Tennessee, da Carolina do Norte, da Virgínia e de Kentucky. Por séculos também, os lumbees habitaram as terras pantanosas que acompanham o rio Lumber em Robeson County, na Carolina do Norte. Os melungos e os lumbees são semelhantes culturalmente e etnicamente e, há muito tempo, traçam suas origens a antepassados em comum. Eles compartilham de muitos sobrenomes (como Bennett, Dare, Graham, Martin, Taylor e White) que são parecidos com os sobrenomes dos colonos originais de Roanoke.  Muitas famílias há muito já estabelecidas nos Estados Unidos têm algum elo genealógico com esses povos. Entre os americanos mais conhecidos que possivelmente têm raízes nos melungos, estão Andrew Jackson, Abraham Lincoln e Elvis Presley.

O aspecto mais misterioso e mais discutido da história dos melungos e dos lumbees sempre foi a sua origem inusitada, que fascina escritores há gerações. Os melungos e os lumbees são geralmente morenos com aparência mediterrânea, e costumam ter olhos e cabelos escuros. São pessoas diferentes e não se pode classificá-los em nenhuma das três principais classificações étnicas da América do Norte colonial: brancos, negros e “índios” (nativos-americanos). Desde ao menos o meio do século XIX, dizem que eles têm raízes portuguesas, espanholas e mouras, e se miscigenaram com escravos negros fugitivos e nativos norte-americanos – o que constitui todos os elementos raciais que estavam presentes na colônia de Roanoke.

Originalmente, nem “melungo” nem “lumbee” eram os nomes que esses povos usavam para referirem a si mesmos. Essas palavras são apelidos dados a eles por brancos que viviam nos seus arredores. No século XIX, era ofensivo para os melungos serem chamados dessa maneira, mas aos poucos passaram a aceitar a denominação com o passar das gerações. A única designação que tanto os melungos quanto os lumbees usaram para eles mesmos com consistência e orgulho no decorrer dos séculos é “portugueses”, que pronunciavam “porterguí” ou “portiguí”. Também vale lembrar que a colônia de Roanoke tinha uma relação distinta com Portugal. O capitão Simão Fernandes, português protestante dos Açores, teve muita influência na concepção de Roanoke e se envolvia diretamente em todas as jornadas do projeto. Segundo o relatório de um marinheiro espanhol que passou um bom tempo como prisioneiro de Drake, além de Fernades, Drake tinha em sua frota muitos outros timoneiros e capitães portugueses e genoveses sob o seu comando.

A palavra “melungo” é muito mais antiga do que “lumbee” e provavelmente é derivada da palavra francesa mélangé (miscigenado ou “raça mista”), que os colonos franceses deram como nome para eles quando os encontraram pela primeira vez na América do Norte no século XVII. Os lumbees derivam seu nome do rio Lumber, que corre em suas terras. Eles já viviam naquelas terras quando os primeiros colonos escoceses chegaram lá. Somente passaram a ser oficialmente conhecidos como lumbees em 1930.

Os melungos e os lumbees são precedem a chegada dos primeiros colonos brancos nas regiões do Tennessee, da Carolina do Norte, da Virginia e de Kentucky, onde se localizam. Quando os primeiros colonos brancos chegaram nessas regiões nos séculos XVII e XVIII, eles encontraram os melungos e os lumbees falando uma forma arcaica do idioma inglês e constataram que eles tinham comportamentos semelhantes aos europeus, como viver em casas feitas de troncos e praticar agricultura e as artes e ofícios dos europeus, principalmente minerar e refinar a prata. Na memória dos seus vizinhos brancos, os melungos e lumbees sempre foram cristãos protestantes.

Por séculos, os melungos e os lumbees viveram isolados, cercados de vizinhos hostis que, apesar das semelhanças religiosas, culturais e linguísticas, os menosprezavam por serem “meio-brancos” e buscavam usurpar seus direitos e suas terras. De acordo com a tradição falada dos melungos, eles já foram donos da “boa terra” antes do “povo branco” vir e usurpá-la.

Historicamente, os brancos consideravam os melungos como um povo miscigenado de três raças, sem os categorizar de maneira específica. Dadas as evidências, no entanto, deve-se compreender que o assunto de raças e etnias na América do Norte é mais complexo do que geralmente costuma-se assumir. Os melungos e os lumbees deveriam ser classificados como um quarto grupo distinto que, apesar de miscigenado, não se encaixa nas categorias tradicionais norte-americanas de brancos, negros e nativos-americanos.

Para defenderem seus direitos civis e jurídicos nos tempos de segregação racial do passado dos Estados Unidos, os melungos e os lumbees às vezes se definiam como “índios” para evitar a total usurpação que resultaria, caso se classificassem como negros. No entanto eles não praticavam a religião dos nativos norte-americanos e também não existem registros de que eles já tenham falado alguma língua nativa própria ou tenham possuído alguma cultura indígena local, como o folclore nativo norte-americano, a ciência deles, seus contos, danças, a música deles ou outras tradições do tipo. Diferente dos povos nativos indígenas, eles não tinham acordos com os Estados Unidos e nunca viveram em reservas de nativos. Permaneceram sempre neutros nas guerras entre os brancos e os nativos norte-americanos. Independentemente do fato de ambos os melungos e lumbees terem se miscigenado com negros, eles não têm origens obviamente africanas, nunca foram escravizados e sempre viveram “livres”, no sentido de que nunca foram escravos.

Os melungos usufruíram de direitos de cidadãos norte-americanos até 1834, quando foram classificados como “negros livres”, perdendo as liberdades civis. Após a guerra civil norte-americana, os lumbees não tiveram denominação jurídica específica até 1885, quando a legislação da Carolina do Norte oficialmente os designou como Nativos Americanos, mas ainda sem total reconhecimento – o que, por consequência, os privava de certos direitos, como o acesso a reservas territoriais. Em 1885, a Carolina do Norte lhes deu o nome de “Croatans” por causa do nome da tribo dos hatteras, associada a Roanoke, e os lumbees usaram essa denominação até 1911, quando a abandonaram após os brancos a encurtarem com o pejorativo “cro”.

Uma das lendas comuns acerca da alegação dos melungos e lumbees de serem portugueses é a de que eles eram descendentes de marinheiros abandonados na costa da Carolina que, aos poucos, foram avançando para o interior pelas colinas do leste do estado de Tennesse, onde se misturaram com mulheres nativas americanas. Eles afirmavam que eram em parte europeus e que alguns dos seus antepassados tinham “vindo do outro lado do oceano” e sabiam como “falar por livros”, ou ler.

Desde o século XVIII já se especulava que os melungos tinham ancestrais mouros. O juiz Lewis Shepherd, que defendera o casamento entre raças, entre uma moça melunga e um cidadão local no Tennessee em 1872, sustentava que o povo dela era mouro, de Portugal. Segundo outros relatos, os melungos eram “mouros portugueses cristianizados que escaparam dos horrores das câmaras de tortura da Inquisição para o Novo Mundo.”

Mais recentemente, estudos sobre distribuição de genes e sobre o DNA dos melungos indicaram que sua constituição genética condiz com a afirmação de que são portugueses ou originários da região do Mediterrâneo. Os mesmos estudos demonstram diferenças claras entre seu fundo genético e os genes que costumam ser associados aos negros e aos nativos norte-americanos. Os genes dos melungos também são muito próximos de certos fundos genéticos turcos (de Anatólia) e do sul da Ásia (do norte da índia).

Devemos manter a natureza dos registros de Roanoke em mente e entender que a ausência de informações sobre o destino dos muçulmanos escravos de galé e dos negros escravos domésticos não é algo fora do esperado. Apesar da especulação histórica naturalmente se manter dentro dos limites da documentação que os registros proporcionam, não devemos concluir precipitadamente que os registros que temos contam a história completa. Quando refletirmos sobre a “colônia perdida” e os escravos libertos de Drake, devemos considerar que muitos outros episódios, hipóteses, e sequências de acontecimentos não registrados são igualmente plausíveis e não devem simplesmente ser descartados. Entre essas hipóteses está a de que, de alguma forma, os remanescentes da colônia de Roanoke, inclusive uma quantidade considerável de muçulmanos libertos, sobreviveram, estabeleceram raízes na América do Norte e são os ancestrais dos melungos, dos lumbees e, possivelmente, de outros norte-americanos aparentados a eles.
Fonte: https://yassarnalquran.files.wordpress.com/2011/10/roots_of_islam_p1.pdf

Victor Peixoto

Digital influencer, startuper e produtor de conteúdo com impacto em mais de 200 mil pessoas por mês. Estudante da história e religião Islâmica, falante de árabe, inglês e espanhol.

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