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Entrevista com o Principe Abdülhamid Kayıhan Osmanloğlu, um dos últimos membros da Família Real Otomana

Nesta entrevista exclusiva com o bisneto do califa Abdulhamid II, o vice-editor do 5Pillars Dilly Hussain discute a história otomana, o estado do mundo muçulmano e o futuro da Turquia com Sehzade (príncipe) Abdülhamid Kayıhan Osmanloğlu.

DH: De que califa otomano sua linhagem remonta?

Sehzade Osmanloğlu: Eu sou filho de Harun Efendi, que é filho de Abdülkerim Efendi, filho de Selim Efendi, que que foi o filho mais velho do califa Abdülhamid Han II – meu tataravô.

DH: O que ser um descendente dos otomanos significa para você?

Sehzade Osmanloğlu: Allah colocou meu bisavô Abdülhamid Han em um grande teste. Eu pensei, nosso teste será tão duro quanto o dos nossos antepassados? Não foi, o plano de Allah para nós era diferente.

Meu bisavô fez o seu melhor considerando seu tempo, realidade e condições para cumprir sua missão dentro das fronteiras do destino que foram definidas para ele.

Quando abrimos nossos olhos para este mundo, e quando começamos a nos entender, eles nos disseram que somos de “Hânedan-ıl-i Osman” (A Dinastia Otomana). Não conseguimos entender essa ideia com nossas mentes jovens no início, mas aprendemos com o passar do tempo. Continuamos a aprender até agora e ainda estamos aprendendo. Quanto mais aprendemos sobre nós mesmos, mais sentimos o pesado fardo de nossa história sobre nossos ombros.

Nós não reclamamos, nós não pudemos, porque sabíamos que este mundo causou sofrimento para Evlâdi-ı Mustafá (os filhos do Profeta Muhammad que a paz esteja com ele), promulgou uma pena de morte para o Âl-i Abâ (os parentes próximos do Profeta Muhammad, que a paz esteja com ele), então o que há para os Evlâ-i Osman (filhos de Osman)?

Como todos os outros, nós tínhamos diferentes atributos, sentimentos e ideias provenientes da nossa criação. Mas o tempo mudou. Vimos que o amor pela nossa dinastia otomana ainda está lá nos corações da nossa nação. Ficamos felizes e honrados, e isso aumentou nossas responsabilidades.

Meus dias de escola começaram com uma professora me dizendo “Você é descendente de um traidor” (a noção kemalista do último califa otomano). Mais tarde, alguns de meus professores, que nem conheciam meu sobrenome, partiram meu coração quando era criança quando diziam: “O que você entende da história?”

Eu nunca os desrespeitei em minhas palavras ou em minhas ações porque o que nos foi dito é que devemos viver pacificamente com as pessoas ao nosso redor.

DH: Você tem contato com algum parente fora da Turquia que foi exilado?

Sehzade Osmanloğlu: Sim, estamos em contato com a maioria deles e nos vemos. Em alguns dias especiais, a presidência turca organiza reuniões para nós em Istambul.

DH: Você acha que há um renascimento da cultura e da história otomana nos últimos anos?

Sehzade Osmanloğlu: É claro que a nova série de TV sobre a história otomana aumentou o interesse tanto nos otomanos quanto na história em geral. A pesquisa mostrou que as pessoas na Turquia assistem de 4 a 5 horas de TV todos os dias. De acordo com as estatísticas publicadas pelo Provedor de Justiça da Turquia, as empresas de produção turcas produzem mais de 100 produções por ano. Algumas das séries de TV ganharam audiência e popularidade no Oriente Médio, nos Bálcãs e na América Latina. Essas séries de TV criam um mercado econômico, assim como aumentam o interesse em nossa história, e o último é o melhor aspecto disso.

DH: Além da cultura popular e do entretenimento, você acha que o espírito dos otomanos ainda está vivo no mundo muçulmano?

Sehzade Osmanloğlu: O Acordo Sykes-Picot foi um acordo assinado secretamente pelas potências coloniais da Grã-Bretanha e França em 16 de maio de 1916. Este acordo foi feito para dividir a região, independentemente dos sonhos e expectativas do povo da região. O acordo estava lá para projetar a região de uma forma que pudesse servir aos propósitos das potências coloniais. E esse acordo é o que está causando os conflitos atuais na região.

Após a implementação deste acordo, ficou claro que não há legitimidade dessas fronteiras ou dos estados dentro dessas fronteiras; e não há legitimidade dos governantes, que não são os líderes legítimos de seu povo, mas os governantes que foram escolhidos por poderes externos.

DH: A Turquia deve desempenhar um papel de liderança no mundo muçulmano? Se sim, porque?

Sehzade Osmanloğlu: A terra em que a república turca foi construída é a pátria do Estado otomano. Portanto, o estado otomano continua como a República, com a língua, religião, terra e povo. É impensável para a Turquia desconsiderar os assuntos dos muçulmanos fora de suas fronteiras. Nos Bálcãs, todo muçulmano é considerado um turco. A Turquia, de bom grado ou não, tem que continuar a missão otomana.

DH: Você acha que uma política como a do Estado otomano poderia ressurgir num futuro próximo?

Sehzade Osmanloğlu: Allah (Louvado e Exaltado seja) diz na surata al-Baqarah:

“Aquela é uma nação que já passou; colherá o que mereceu e vós colhereis o que merecerdes, e não sereis responsabilizados pelo que fizeram. ” [2: 134]

Os otomanos experimentaram o destino e a prática do seu tempo e tomaram o seu lugar distinto na história. Seguir a alma otomana não é estar preso ao seu passado, só é possível com a adoção de seus princípios e objetivos e levando-os adiante.

DH: Quais são seus pensamentos sobre a situação atual do mundo muçulmano? As guerras, ocupação, opressão, injustiça e pobreza?

Sehzade Osmanloğlu: Por que os muçulmanos estão divididos? Por que os madhabs (escolas de pensamento / jurisprudência), jamaas (grupos e movimentos) e tariqas (ordens sufis) abandonaram a competição pelo bem e se tornam grupos que se excomungam e causam divisão entre si? Por que se tornou o caso que os muçulmanos não precisam mais de um inimigo, exceto de si mesmos? Por que estamos lutando uns com os outros e matando uns aos outros?

As bênçãos deste mundo, às vezes, nos fazem indulgentes. Nós não conhecemos nossos próprios limites. Nós ignoramos os outros. Deixamos tudo o que nos tornava um povo que era fiel, leal e completamente muçulmano. Agora estamos correndo em direção ao desconhecido. Espero que um dia nós nos unamos, insha’Allah (se Deus quiser).

DH: Você acha que os muçulmanos da Turquia e os muçulmanos fora da Turquia têm diferentes entendimentos e atitudes em relação à história otomana?

Sehzade Osmanloğlu: Claro que sim, porque eles estão em comunidades diferentes e, portanto, terão visões diferentes. O fato de estarem morando em terras estrangeiras, torna sua abordagem mais emocional e saudosa.

DH: Você acha que se reconectar com a história otomana pode ajudar movimentos e grupos islâmicos a reviver a Ummah (Nação Islâmica)?

Sehzade Osmanloğlu: Com certeza, haverá alguns bons exemplos da nossa história, assim como os erros. Isso significa que não devemos repetir os mesmos erros. Como meu bisavô Sultão Abdulhamid disse: “Não é a história que se repete, são os erros”.

 

Fonte: https://5pillarsuk.com/2019/04/22/exclusive-caliph-abdulhamids-great-grandson-on-ottoman-history-and-state-of-the-ummah/?fbclid=IwAR08vRUMN7vcdvuMvABk9iZbcvvhql9ofsidEuRVDvRugtSbpW-KQA5qwJs

Victor Peixoto

Digital influencer, startuper e produtor de conteúdo com impacto em mais de 200 mil pessoas por mês. Estudante da história e religião Islâmica, falante de árabe, inglês e espanhol.

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