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Mortes em países islâmicos não emocionam mais. Sejam centenas ou milhares, a carne de muçulmanos seja na Síria, Iraque, Palestina ou Afeganistão tornou-se estatística. Estatista muitas vezes utilizada como arma apologética para escarnecer a fé dos mortos. Na mentalidade ocidental, seja ela polemica, acadêmica ou jornalistica, qualquer ato de violência cujas origens são mãos ”islâmicas” provém do Alcorão, Maomé ou qualquer análise rasa e anacrônica disponível. No fim das contas, são islâmicos se matando, nada de anormal.

Porém, a realidade do tão periodicamente falado “extremismo islâmico” pode remontar qualquer coisa menos as manchetes mais comuns. Ele é profundo, extenso e não um tema para analistas preguiçosos. O Alcorão permite a violência? Sim, e o ”bellum iustum” de São Tomás de Aquino também. Mas “matem os infiéis” no Alcorão vem sempre acompanhado de “não exagerem”, “não ataquem inocentes”, “combatam somente os que vos combatem” e por ai vai. Na época de “Maomé” não havia pólvora, e o método de matar mais próximo era o fogo, contudo nas palavras do profeta: “Só quem pode punir com fogo é Allah”.

Então, de onde vem as explosões acompanhadas de “Allahu Akbar”? Se o Islã é “a religião da paz”, por que onde nasceu há tanta guerra?

A resposta não é tão simples. O Islã não tem um papado, não tem autoridade central, e muito menos clérigos nivelados e com toda certeza vai muito mais além de que o Alcorão e as injunções do profeta. O mais próximo que os muçulmanos possuem de uma autoridade central é algo conhecido como “ijma”, que pode ser traduzido como “conjunção”, “consenso” ou como prefiro traduzir: “bom senso”. A ijma é o que a maioria esmagadora dos grandes eruditos muçulmanos dizem ou disseram que o Islã é, suas doutrinas mutáveis e imutáveis, e foi assim desde de os seus primórdios a interpretação da religião. Algo fora da ijma é sempre visto com suspeita na melhor das hipóteses, na pior como heresia. Posição dos braços na reza, classificação de animais para o consumo e música, tudo tem diferenças de opiniões saudáveis dentro da própria ijma. Isso é conhecido como “khilaf” ou “divergência”, algo profetizado e permitido pelo próprio profeta.

Os eruditos muçulmanos expressam a interpretação da religião através de fátuas. Fátua é um pronunciamento legal no Islã emitido por um especialista em lei religiosa, sobre um assunto específico. Normalmente, uma fatwa é emitida a pedido de um indivíduo ou juiz de modo a esclarecer uma questão onde o fiqh, a jurisprudência islâmica, é pouco claro; e não é considerado vinculativo. Um acadêmico que seja capaz de emitir fatwas é conhecido por mufti. Historicamente, as fatwas eram independentes do sistema judicial, embora alguns muftis estivessem oficialmente vinculados a várias cortes e seus sultões. Nos sistemas políticos otomanos e mogóis, o grão-mufti era designado como Shaykh al-Islam ou “mestre do Islã”. Outros muftis foram nomeados para cargos como inspetores de mercado, guardiões da moral pública e conselheiros do governo sobre assuntos religiosos. Sob o domínio colonial europeu, as madraças assumiram o papel de guias religiosos, e instituições especiais foram estabelecidas para emitir fátuas. Nos tempos modernos, a mídia impressa e eletrônica reforçou o papel e o impacto das fátuas, tornando-as instantaneamente disponíveis para o público. Os estados muçulmanos atuais tentaram controlar fátuas através de organizações consultivas oficiais dentro dos ministérios religiosos, contudo, a tarefa não é fácil. Qualquer fátua de qualquer fonte pode ser acessada a qualquer momento e posta em prática pelo poder da vontade. A acensão das mídias de massa causaram revoluções tardias no mundo islâmico se compararmos com suas contrapartes no Ocidente. O Império Otomano foi contra a ideia da imprensa desde o inicio, talvez por perceber que as chacinas que a divulgação de ideias em massa trouxe para a Europa causaria estragos para os muçulmanos também, e eles não estavam errados. Pois se num cristianismo claramente centralizado na figura de um papa aconteceu o que aconteceu, imaginem num contexto islâmico bem mais suscetível a perda da autoridade.

Como toda religião, o Islã também teve seus reformadores e rebeldes, com causa e sem causa, que fugiam ou aderiam a ijma e emitiam suas inúmeras fátuas, e nenhum deles se tornou mais notório nos tempos modernos de que o pensador do século XIII cujo nome era Taqī ad-Dīn Ahmad ibn Taymiyyah (1263 -1328).

Quando não estava preso por suas opiniões no minimo controversas, Ibn Taymiyyah escrevia, e escrevia muito, com por volta de 700 trabalhos catalogados. O homem era o fruto de seu tempo. Viveu o fim das cruzadas e o meio das invasões mongóis ao Oriente Médio. Aos 7 anos fugiu de sua cidade natal Harã, no sul da Anatólia, devastadas pelos herdeiros de Gengis Khan e seus aliados. Ibn Taymiyyah não é a voz islâmica para um mundo com bombas nucleares. Na época dele guerras se venciam com números, e não com botões.

Contudo, ainda assim, suas visões foram ressuscitadas para uma época na qual deveriam estar mortas. Primeiro foi seu conceito de idolatria revivido por Muhammad Ibn Abdul Wahhab no século XVIII para excomungar todos os muçulmanos do mundo como infiéis. E com a assenssão da casa de Saud ao poder na Península Arábica do século XX com apoio britânico e popularização da imprensa, as ideias de Ibn Taymiyyah se espalharam numa escala industrial. Barris de petróleo saiam da terra, e as fátuas do “mestre do Islã” como os salafistas o chamam saiam do outro lado das imensas gráficas sauditas, para inundar as terras do Islã e além. Mas qual o problema? Se deixarmos de lado o fato de que Ibn Taymiyyah é o nome mais citado na “erudição” da al-Qaeda, ISIS, Boko Haram e afins, nenhum. Mas para entender como estes pontos se ligam e qual legado deixado por esta figura histórica causam mortes todos os anos ao redor do mundo precisamos entender um determinado contexto.

O ano de 1303 viu a terceira invasão mongol da Síria pelo cã ilcãnida Mahmud Ghazan, e na mesma época surgiu a mais famosa fátua de Ibn Taymiyyah. Ela foi emitida contra os mongóis na guerra dos mamelucos para o povo de Mardin, no sul da Anatólia. Ibn Taymiyyah declarou que a jihad contra o ataque mongol ao sultanato mameluco não era apenas permissível, mas obrigatória. A razão segundo ele é que os mongóis não podiam, em sua opinião, ser verdadeiros muçulmanos, apesar do fato de terem se convertido ao islamismo sunita, porque governavam usando o que ele considerava ”leis feitas pelo homem” (seu código tradicional conhecido como ”yassa”) em vez da lei islâmica ou sharia. Na visão de Ibn Taymiyyah, estes nômades recém convertidos faziam isso por desprezo as leis de Allah, e não por nenhuma falta de praticidade plausível. Por causa disso (e outras diversas razões politicas também, visto que Ibn Taymiyyah esteve sob patronato mameluco e foi justamente um refugiado das invasões mongóis), ele argumentou que eles estavam vivendo em um estado de jahiliyyah, ou ignorância pagã pré-islâmica. A fátua gerou uma nova base legal inédita na religião e história islâmica. A partir de agora, para aqueles que quisessem seguir Ibn Taymiyyah, muçulmanos que não estivessem aplicando a shariah, ou sobre o que o acusador visse como shariah apesar do contexto, estaria sujeito com anuência divina a execução.

Quanto ao povo considerado ainda muçulmano de Mardin, obrigado a viver sob jugo dos mongóis falsos muçulmanos, Ibn Taimiyyah disse que deveriam ser “tratados” de acordo com seus direitos e contexto, e não mortos junto aos mongóis, entretanto, em uma versão da fátua impressa 1909 e nas cópias da mesma que se seguiram, a palavra “tratados” fora mal tipografada como “executados”, o que estendeu o alcance do estrago para os que ainda eram considerados muçulmanos também. Apenas em 2010 em uma conferencia realizada na mesma Mardin que o erro de digitação foi percebido. Tarde demais para dizer o mínimo.

O texto foi, e ainda é usado por muitos grupos terroristas militantes para apoiar e justificar a matança de um número incontável de pessoas inocentes. Dos que assassinaram Anwar Sadat em 6 de outubro de 1981, para a Al Qaeda e, mais recentemente, para as hordas de ISIS, esse foi o pretexto deles. Na mente dos militantes assassinos, os governos muçulmanos pós-coloniais não implementam mais a shariah e são os novos mongóis falsos muçulmanos, e os demais muçulmanos vivendo nestas condições também. Para estes, onde não há decapitações, amputação por roubo e apedrejamento por adultério não é considerado mais “terras do Islã”, e portanto precisam ser trazidas de volta, de preferencia pela força, como pregava Ibn Taymiyyah.

Interessante é notar que, o companheiro mais próximo do profeta Muhammad, Omar Ibn Khattab, o segundo califa do Islã, suspendeu a pena de amputação na cidade de Medina devido a fome causada por uma seca, e quando teve seu turbante roubado, gritou para o ladrão em fuga: “Testemunhe que te dei isso por Allah, para que você não seja punido no dia do Juízo.” Estaria Omar considerando seu julgamento superior ao de Allah? Ou interpretando a lei sagrada de forma sadia devido a um contexto diferente? Daí vemos as disparidades do Islã clássico e moderno. Da sabedoria do antigos e da demência da pós-modernidade que se arroga tão islâmica com suas barbas imensas e cérebros minúsculos. No fim das contas, ao invés de enaltecer a grandeza de Allah quando tiram vidas, terroristas deveriam ser honestos consigo e com jornalistas brandando: “matamos por Ibn Taymiyyah”ou “por um erro de digitação” ao invés de ”por Allah”.


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