Escolha uma Página

A conversão dos muçulmanos da atual faixa geográfica que compreendemos como Irã ao Islã xiita se deu por volta dos séculos XVI e XVIII, através dos esforços do Império Safávida. A outrora Pérsia sunita tornou-se um bastião regional e mundial do xiismo, dando origem a toda bagagem cultural e ideológica que formaram o Irã moderno. A conversão também assegurou a dominação do xiismo duodecimano sobre outras duas importantes correntes xiitas: a ismaelita e a zaidita, ambas as quais haviam experimentado anteriormente períodos de dominação no contexto xiita. Os safávidas estabeleceram um estado unificado e independente em 1501, com o xiismo duodecimano como religião oficial do império. Esta ação foi um verdadeiro ponto de virada na história do Islã.

Como resultado direto, as populações dos atuais Irã e Azerbaijão tornaram-se xiitas ao mesmo tempo. Ambas as nações continuam majoritariamente xiitas até o nosso século XXI, sendo o Irã o país mais xiita do mundo e o Azerbaijão o segundo.

Anteriormente, a população do Irã era majoritariamente sunita, seguidora das escolas de jurisprudência islâmica shafi’i e hanafi, e até mesmo a família real safávida e seu movimento religioso tem suas origens numa ordem sufi sunita seguidora da escola shafi’i. Ironicamente, até o final do século XV o Império Otomano, o maior e mais proeminente estado sunita e futuro arquirrival dos safávidas, enviava muitos de seus futuros eruditos islâmicos para estudar o sunismo no Irã, devido a falta de madraças dentro do próprio império. Antes da dominação safávida, apenas uma minoria pouco significativa do povo persa aderiam ao xiismo, com bem poucos eruditos xiitas no Irã.

Entre os anos 1501 e 1502, o xá safávida Ismail I conquistou Tabriz na Pérsia, assim como os atuais Azerbaijão e Amermênia, e partes do Daguestão (norte do Cáucaso, atualmente parte da Rússia). Ele levaria por volta de uma década para consolidar seu controle sobre o Irã, onde a maioria da população persa ainda era sunita. Seus exércitos se espalharam primeiramente pelas regiões centrais em 1504, ele capturou o sudeste da Pérsia entre 1505 e 1508, antes de finalmente conquistar a região de Khorasan e a cidade de Herat em 1510. De acordo com o historiador Daniel W. Brown, Ismail I foi “o governante xiita mais bem sucedido e intolerante desde a queda dos fatímidas (em 1171)”. Aparentemente ele pretendia destruir completamente o Islã sunita, e alcançou em grande parte esse objetivo nas terras sobre as quais ele governou. Seu ódio aos sunitas não conhecia limites e sua perseguição era implacável. Ele exigia que os três primeiros califas (Abu Bakr, Omar e Osman) fossem amaldiçoados ritualmente (o ritual de turrub), aboliu as ordens sufis sunitas, confiscando suas propriedades e deu aos eruditos sunitas uma escolha entre conversão, morte ou exílio. Os estudiosos xiitas foram trazidos de outras regiões para tomarem seu lugar como funcionários do estado.

Mais de que a maioria das dinastias muçulmanas anteriores, os safavidas trabalharam para a conversão de seus súditos a seu ramo do Islã pela vantagem da conformidade ideológica. Os motivos desta política de conversão incluíram:

– Dar ao Irã e as terras safávidas uma identidade distinta e única, em oposição aos seus dois inimigos militares e políticos mais letais, os ambos sunitas otomanos e uzbeques da Ásia Central.

– Impedir que qualquer laço de possível lealdade religiosa existisse entre seus súditos e inimigos, para evitar deserções e traições a dinastia em tempos de guerra

– O processo de conversão foi também motivado pelo desejo dos xás de fundarem uma identidade coesa tanto religiosa como cutural dentro da Pérsia, que fosse leal as instituições do estado, permitindo uma governabilidade mais fácil (baseada na crença de que o xá era divinamente legitimo, por ser também um descendente do Profeta, crença fundamental o xiismo).

Ismail consolidou seu governo sobre o país e lançou uma campanha completa e, às vezes, brutal para converter a maioria da população sunita ao xiismo duodecimano. para assim transformar a paisagem religiosa do Irã. Seus métodos de conversão do Irã incluíram:

– Imposição do xiismo como religião obrigatória para toda a nação, através de muitas conversões forçadas de sunitas sufis iranianos para o xiismo.

– Ele reintroduziu o ”sadr”; departamento que era responsável pela supervisão das instituições religiosas xiitas. Com o objetivo de transformar o Irã em um estado xiita, o sadr também foi designado para disseminar a doutrina duodecimana.

– Ele destruiu mesquitas sunitas. Esta politica foi inclusive notada por Tomé Pires, embaixador português a China que visitou o Irã safávida entre 1511 e 1512, que se referindo ao xá Ismail I escreveu: “Ele reforma nossas igrejas e destrói as casas dos mouros que seguem (a sunnah de) Muhammad…”

-Ismail impôs o ritual compulsório de amaldiçoar os três primeiros califas sunitas como usurpadores, em todas as mesquitas; desmembrou todas as tariqas sufis sunitas e tomou seus centros, os usando para construção de santuários xiitas onde atuariam seus novos clérigos importados.

– A execução e emprisionamento de sunitas era generalizada, bem como a profanação de seus túmulos. Isso causou consternação em Constantinopla, e o sultão Bayezid II (que inicialmente havia parabenizado Ismail por suas vitórias) se dirigiu ao jovem xá de maneira paternal, para que ele pusesse fim a perseguição anti-sunita. Contudo, Ismail I ignorou o sultão e continuo com suas politicas, disseminando o xiismo pela espada.

– Com o estabelecimento do governo safávida, fora consagrado um espalhafatosamente carnavalesco feriado no dia 26 do mês de Dhul Hijjah (ou alternativamente em 9 de Rabi al-Awwal) para celebrar o assassinado do califa Omar em 644 por seu servo persa Piruz Nahavandi (para o qual há inclusive um santuário no Irã), no qual uma efigie de Omar é insultada, amaldiçoada e então queimada.

O recém criado estado safávida tomou numerosas medidas contra religiosos sunitas em toda a Pérsia, dando-lhes a escolha entre conversão, morte ou exílio. Muitos clérigos sunitas que tentaram resistir foram mortos, como testemunhado em Herat no Afeganistão.

Para compensar a falta de quem ensinasse xiismo duodecimano ao povo, Ismail começou a importar clérigos xiitas das terras árabes. Largamente de Jabal Amil no sul do Líbano, Monte Líbano, Síria, Arabia Oriental e sul do Iraque. Ismail pretendia criar uma casta estatal de clérigos para compensar a deficiência de sua própria corte, que de acordo com relatos da época possuía apenas um único texto xiita na sua capital em Tabriz. Os clérigos xiitas árabes recebiam dinheiro e terras da corte em troca de lealdade, e eram muito enérgicos em suas pregações.
Os povos do cáucaso foram extremamente pressionados pela conversão, e na cidade de Shirvan, os muçulmanos sunita foram passados ao fio da espada. No mundo árabe, o Baherin conquistado pelos safávidas também teve de tornar-se xiita.

Ismail tomou pacificamente Bagdá em 1508. No entanto, seus exércitos mataram zelosamente os sunitas e os perseguiram ativamente através dos aliados tribais do xá. Seus exércitos também destruíram vários santuários sunitas importantes, incluindo os túmulos de Abū Ḥanīfa e Abdul-Qadir al-Gilani. Os safavidas até expulsaram a família do santo sufi do Iraque. Depois de declarar o xiismo como forma oficial do Islã no Iraque, Ismail forçou seus novos súditos iraquianos a se converterem ao xiismo e proibiu as práticas sunitas. Ele então voltou para a Pérsia. Essas ações draconianas dos conquistadores safavidas criaram um novo ressentimento histórico entre sunitas e xiitas no Iraque.

O reinado de Ismail II (1576-77) foi marcado por uma política pro-sunita. Com a ajuda de Makhdum Sharifi Shirazi, seu novo sadr, Ismail II procurou reverter as práticas anti-sunitas entre a população. Mais especificamente, ele se esforçou para deter a difamação pública de Aisha e a maldição ritual de Abu Bakr, Umar e Osman (incluindo a proibição do tabarrā’iyān, conhecido como o tabaqa-yi tabarrā’i, cuja ocupação oficial era a maldição pública de inimigos do Ahl al-Bayt), que se elevaram durante o início do regime de safávida. Alguns motivos podem explicar sua abordagem à propaganda anti-sunita. Um primário era que ele estava disposto a cumprir uma das exigências otomanas da Paz de Amasya, concluída em 1555, que pedia o fim da vilipendia dos três primeiros califas sunitas, apaziguando os otomanos e solidificando sua própria posição pessoal. Outra foi sua tentativa de enfraquecer os clérigos xiitas, que ficavam cada vez mais poderosos e exigiam mais terras do xá. O xá também entrou em confronto com a tribo Ustajlu e vários aliados qizilbash que se aliaram aos clérigos. Assim, a denúncia pública dos emblemas sunitas tornou-se um estágio no qual esta luta de poder entre o xá e o grupo clérigo-qizilbash estava armada. O xá também esperava enfraquecer o apelo público dos clérigos amili que administraram e encorajaram a maldição ritual dos primeiros três califas sunitas entre os iranianos. Seu flerte sunita também visava alcançar as simpatias sunitas ainda fortes entre os persas. Apesar de sua rápida rejeição das políticas de Ismail II, a maioria dos clérigos e do centro militar-político evitou um confronto com ele, mesmo que no lugar de zelosos estudiosos xiitas como os astarabadis, o xá nomeou clérigos com tendências sunitas como Mawlana Mirza Jan Shirazi e Mir Makhdum Lala.

Ismail II também tentou acabar com a cunhagem de moedas com os nomes dos 12 imãs duodecimanos, porém sem sucesso.

Mas mesmo com todos estes esforços, xiismo não se estabeleceu plenamente até o reinado de Abbas I da Pérsia (1587-1629). Abbas tinha o mesmo ódio de Ismail pelos sunitas, e obrigou a população a aceitar o xiismo ás últimas consequências. Assim, em 1602, a maioria dos ex-sunitas do Irã aceitou o xiismo. Um número significativo, no entanto, não aceitou o regime de safavida, levando Abbas a instituir uma série de mudanças administrativas para transformar o Irã em um estado xiita duodecimano autentico. Sob a orientação de Muhammad Baqir Majlisi (1616-98, um dos mais importantes clérigos xiitas de todos os tempos), que se dedicou a (entre outras coisas) a erradicação do sunnismo no Irã, o estado safávida fez grandes esforços, no século XVII para persanizar a prática e a cultura xiitas para facilitar sua propagação no Irã entre sua população sunita. Foi somente sob Majlisi que o Islã xiita realmente se apoderou das massas.

Por causa da relativa insegurança da propriedade privada na Pérsia safávida, muitos latifundiários garantiam suas terras, doando-as ao clero através dos chamados ”vaqf”. Eles manteriam assim a propriedade oficial e protegeriam suas terras de serem confiscados por comissários reais ou governadores locais, enquanto uma porcentagem das receitas da terra fosse para o os clérigos e organizações quase religiosas administradas por dervixes xiitas (futuvva). Cada vez mais, os membros da classe religiosa, em particular os mujtahids (juristas) e os seyyeds (descendentes do profeta), adquiriram plena propriedade dessas terras e, de acordo com o historiador contemporâneo Iskandar Munshi, a Pérsia começou a testemunhar o surgimento de um novo e significativo grupo de proprietários de terras. A partir de então, muitos seyyeds também propagaram a idéia de que Ali deveria ter sido o primeiro califa e, ao se tornar o primeiro califa, Abu Bakr quebrou a sucessão que provaria que eles deveriam ter mais direitos (por serem de uma linhagem, de acordo com as crenças xiitas, destinada a sempre governar).

Durante o reinado de Sultan Husayn (1694-1722, o último xá a realmente governar), houveram muitas rebeliões por motivos religiosos no estado safavida. As ameaças externaras, décadas de má administração por xás incompetentes e guerras sangrentas contra uzbeques, otomanos e os novos inimigos do Império, a Rússia, o fizeram do estado safavida um reino cada vez menor e decadente. As rebeliões religiosas eram causadas principalmente pela perseguição de sunitas sobre seu controle, o que levou os safávidas a uma governança instável e repleta de crises identitárias e existenciais.

Apesar do grave declinio do estado safávida, foi justamente ai que Sultan Husayn decidiu concluir o trabalho de Ismail I e converter ao xiismo seus súditos sunitas afegãos. Isso fez com que Mir Wais Hotak (chefe dos ghilzai afegãos) iniciasse uma rebelião na região de Kandahar em 1709. Mir Wais e seus afegãos sunitas mataram o governador safávida georgiano George XI de Kartli, juntamente com os exércitos do xá e liberaram a área do Afeganistão do governo dos xiitas. A declaração de independência em Kandahar em 1709 foi um ponto de virada que foi seguido pela conquista de Herat pelos afegãos ghilzai em 1715 e pela invasão do Irã. Pelo mesmo curso da década de 1710, houveram inúmeras outras reviravoltas e insurreições em outras partes dos domínios safávidas, muitas vezes inspiradas pelas perseguições instigadas contra minorias não-xiitas pelo clérigos safavidas. O Saque de Shamakhi em 1721 pelos lezguianos, na parte noroeste dos domínios safavidas, resultou no massacre de milhares de habitantes xiitas como forma de vingança. O filho de Mir Wais, Mahmud, derrotou os safavidas na Batalha de Gulnabad em 1722, marchando para o oeste para sitiar e capturar sua capital, Isfahã, pondo um fim efetivo a dinastia.

A conversão do Irã ao xiismo por Ismail I e seus descendentes teve os seguintes resultados históricos:

– Devido as conversões forçadas, todos os sunitas em ambos Irã e Azerbaijão são membros de minoritas étnicas não-persas e não-azeris nos dois países.

– A experiência safavida criou em grande parte uma demarcação politico-religiosa clara de hostilidades entre o xiismo duodecimano e o sunismo, embora diferenças doutrinárias já eram reconhecidas há muito tempo. Antes dos safavids, os duodecimanos durante muitos séculos se acomodaram principalmente politicamente entre os sunitas, e numerosos movimentos religiosos combinaram idéias de ambas as correntes islâmicas.

– O advento de Ismail I ao poder sinalizou o fim do islamismo sunita no Irã e os teólogos xiitas vieram dominar o estabelecimento religioso.

– A organização hierárquica do clero xiita começou sob Ismail, e seus frutos se veriam ainda mais fortes na futura Revolução Iraniana que derrubaria o xá da dinastia pahlevi.

– As fronteiras atuais entre o Irã, de um lado, e o Afeganistão e a Turquia, do outro, datam desta época e não são étnicas, mas religiosas, opondo xiitas e sunitas.

– A maioria sunita foi tratada brutalmente contudo foi resistente por décadas e mais décadas as tentativas de conversão dos safávidas, que aconteceu pelo menos até o final do período do império (como demonstrado no Afeganistão).

– O Irã tornou-se um país xiita e gradualmente se tornou uma ilha isolada cercada por um mar de sunismo. Enquanto lamentamos a crueldade da conversão forçada, os historiadores iranianos modernos geralmente concordam que o estabelecimento da hegemonia religiosa xiita acabou por salvar o Irã de ser incorporado ao Império Otomano.

– O avanço otomano na Europa sofreu um golpe (já que agora eles tinham que dividir seus recursos militares), à medida que os safavidas e os poderes europeus forjavam alianças, como a aliança Habsburgos-Persa, para combater o inimigo otomano em comum.

-A palavra “safawi” (“safávida”), passou a ser associada a grupos expansionistas xiitas que atuam contra sunitas ou seus interesses. [O rótulo é especialmente usado contra o Irã ou grupos apoiados pelo Irã e particularmente encontrou notoriedade durante a turbulência sectária no Oriente Médio no início do século XXI:. na Síria, Líbano, Iraque e no Iémen.

Bibliografia

– Yves Bomati and Houchang Nahavandi,Shah Abbas, Emperor of Persia,1587-1629

-Axworthy, Michael (2010). The Sword of Persia: Nader Shah, from Tribal Warrior to Conquering Tyrant.


Leia Também