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Ayuba Suleiman Diallo: Um Retrato real da Escravidão Africana

Desde 1592 , com o colapso dos impérios Mali e Songai após a invasão marroquina pelos sultões saadianos, fez-se espalhar a guerra inter-tribal na África Ocidental (agora sem poderes centralizados). Estas guerras adquiriram maior intensidade com os europeus alimentando-as com armas de fogo e rum, visando sua crescente necessidade de mão de obra escrava nas Américas. Os indivíduos do lado perdedor de cada guerra tribal eram capturados como escravos; levados para a região da Senegâmbia, e embarcados em massa para o Novo Mundo. Entre eles, estavam um grande número de muçulmanos que lutavam entre si, com cada lado vendendo seus capturados em troca de comódites vindas da Europa, como cavalos e armamento sofisticado.

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Comerciantes de escravos e seus cativos ao longo do rio Ruvuma (na atual Tanzânia e Moçambique), desenho do século XIX de David Livingstone.

Ayuba Suleiman Diallo (1701 — 1773) veio de uma proeminente família Fulbe de líderes religiosos muçulmanos, sendo seu avô o fundador da cidade de Bundu. Em 1730, Ayuba tornou-se vítima do caos das guerras intertribais, sendo capturado junto com seu interprete perto do rio Gâmbia, durante uma missão comercial, na qual ele mesmo, tinha ido trocar escravos e papel. Seus captores, também eram muçulmanos, da etnia mandinga, que buscavam prisioneiros de outras tribos para vender aos europeus.

Os mandingas rasparam-lhe a cabeça para fazê-lo parecer como prisioneiro de guerra comum e, portanto, supostamente legitimamente escravizável, ao contrário de sua condição real de pessoas capturadas em um ataque de sequestros com o propósito específico de vender escravos para obter lucro financeiro. Ele foi vendido a compradores da Companhia Real da África.

Ayuba posteriormente convenceu um capitão inglês de nome Pike de seu status social e que eles mesmos já haviam se encontrado quando o próprio Ayuba estava vendendo escravos, e explicou que seu pai era capaz de pagar por seu resgate. Pike concedeu a Ayuba o direito de enviar um mensageiro a família em para avisar de sua captura, porém, sem seu retornou a tempo, a mando do capitão Henry Hunt, o superior de Pike, Ayuba foi enviado para o outro lado do Atlântico até Annapolis, Maryland, onde foi entregue a outro comprador, Vachell Denton.

Lá, foi então adquirido por Sr. Tolsey de Kent Island, Maryland. Seu destino inicialmente era trabalhar nos campos de tabaco; no entanto, depois de ser considerado inadequado para esse trabalho, ele foi colocado no comando do pastorei do gado. Enquanto em cativeiro, Ayuba costumava ir para a floresta para fazer suas orações islâmicas (salat). No entanto, depois de ser gravemente constrangido por uma criança enquanto orava, Ayuba fugiu em 1731 e foi capturado e encarcerado no tribunal do condado de Kent. Infelizmente, o racional de escape de Ayuba não foi entendido até que um tradutor africano foi localizado. Capaz de comunicar suas necessidades, o proprietário de Ayuba separou uma área para que suas orações não fossem perturbadas em seu retorno a fazenda. Na ocasião do julgamento, ele foi descoberto por um advogado, Rev. Thomas Bluett, da Sociedade Anglicana para a Propagação do Evangelho, em viagem na época.

O reverendo impressionou-se com a capacidade de Ayuba de escrever em árabe. Em suas próprias palavras, Bluett relatou:

Ao falar e fazer sinais para ele, ele escreveu uma linha ou duas antes de nós, e quando ele leu, pronunciou as palavras Allah e Mahommed ; por meio do qual, e recusando uma taça de vinho que lhe oferecemos, percebemos que ele era um maometano, mas não imaginava de que país ele era, ou como chegara lá; pois por seu afável Transporte, e pela fácil compostura de seu semblante, pudemos perceber que ele não era um escravo comum.

Quando outro africano que falava wolof, foi capaz de traduzir para ele, descobriu-se sua linhagem aristocrática. Encorajado pelas circunstâncias, seu proprietário, o Sr. Tolsey, permitiu que Ayuba escrevesse uma carta em árabe para a África para enviar a seu pai. Por fim, a carta chegou ao escritório de James Oglethorpe, diretor da Companhia Real da África . Depois de receber a carta autenticada por John Gagnier, presidente da Laudian árabe em Oxford, Oglethorpe comprou a Ayuba a fim de ajudá-lo.

O famoso retrato de Ayuba Suleiman Diallo (1701 — 1773), pintado por William Hoare em 1733, onde ele aparece em seus plenos trajes islâmicos de fez, turbante e um pequena bolsa de couro contendo páginas do Alcorão.

De acordo com seu próprio relato, Oglethorpe ficou emocionado ao ouvir o sofrimento do escravo, e o enviou para o escritório londrino da Companhia Real, em Londres. Bluett e Ayuba viajaram para a Inglaterra em 1733. Durante a jornada, Ayuba aprendeu a se comunicar em inglês. Por mais emocionalmente influenciado por suas cartas, Oglethorpe não estava tão consciente de deixar instruções com o escritório londrino da CRA sobre o que fazer com Ayuba em sua chegada no final de abril de 1733.

O capitão Henry Hunt (ou talvez seu irmão, William Hunt), um dos comerciantes originalmente responsáveis pela escravização de Ayuba, organizou seu alojamento em uma província do interior. No entanto, Ayuba ouviu rumores de que Hunt estava planejando vendê-lo a comerciantes que afirmavam que o entregariam em casa. Ayuba, temendo ainda mais truques, contatou Bluett e outros homens que conhecera a caminho de Londres. Bluett providenciou a estada de Ayuba em Cheshunt, em Hertfordshire. O CRA, seguindo as ordens de Oglethorpe, feito em parte por persistentes pedidos de homens interessados em Londres, subsequentemente pagou todas as despesas e preço de compra do vínculo pelo homem.

Ayuba suplicou a Bluett mais uma vez, explicando que nada disso assegurava que ele não seria novamente escravizado. De acordo com Bluett, todos os homens honrados envolvidos haviam prometido que não venderiam Ayuba à escravidão. Seus libertadores ingleses de Londres e adjacências, coletaram dinheiro para sua “liberdade na forma”, um selo oficial de documentos feito e lacrado pelo Companhia.

Em fim liberto oficialmente, o africano passou ao serviço de Hans Sloane, como tradutor de documentos do árabe para o inglês. Muitas das traduções de Ayuba ainda estão preservadas no Museu Britânico. Dai em diante, ele foi introduzido a membros da alta sociedade, a incluir membros da família real.

Mesmo em terras não-muçulmanas, Ayuba continuou a orar regularmente e observar suas crenças islâmicas. Dizem que ele copiou, à mão, o Alcorão três vezes da memória. Alguns religiosos ingleses fizeram esforços para convertê-lo ao cristianismo, no entanto, presenteando-o com uma versão árabe do Novo Testamento. Ayuba já estava familiarizado com o sistema de crenças cristão, concordando com o papel de Jesus como profeta, no entanto, ele refutou o conceito da Santíssima Trindade. Sua percepção monoteísta da religião não era compatível com a crença cristã no “pai”, “o filho” e “o espírito santo”. Através de intensa pesquisa, Ayuba rebateu os que tentavam o converter com o argumento de que o termo “trindade” nunca é pronunciado no Novo Testamento. É também relatada sua rejeição a ícones, provavelmente católicos, que encontrou.

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Ilustrações da época retratando Ayuba em ambos os trajes ocidental e islâmico.

Em julho de 1734, Ayuba retornou livremente à Gâmbia e depois à sua terra natal.  No entanto, Ayuba foi recebido com uma realidade mais sombria: seu pai havia morrido e uma de suas esposas, presumindo que Ayuba havia morrido, havia se casado novamente. Sua terra natal estava ainda mais devastada pelas guerras inter-tribais, mas sendo um indivíduo próspero, ele foi capaz de recuperar seu antigo estilo de vida. Em junho de 1736, ele foi preso ou mantido como um parolee pelos franceses por volta de um ano. Ele pode ter sido alvo dos franceses por causa de suas alianças com os britânicos. Porém desta vez, seus conterrâneos muçulmanos locais em vez dos britânicos, garantiram sua libertação. Mais tarde, ele enviou cartas a CRA para visitar Londres, mas este pedido foi negado. Sua morte foi registrada na ata da Spalding Gentleman Society em 1773

Suas memórias foram publicadas pelo reverendo Bluett em inglês sob o título de Some Memories of the Life of Job, the Son of the Solomon High Priest of Boonda in Africa; Who was enslaved about two Years in Maryland; and afterwards being brought to England, was set free, and sent to his native Land in the Year 1734.

Bibliografias

-Austin, Allan D. African Muslims in Antebellum America: transatlantic stories and spiritual struggles. (Londres: Routledge, 1997).

-Diouf, Sylviane Anna. Servants of Allah: African Muslims enslaved in the Americas. Nova York: New York University Press, 1998.

– Bluett, Thomas. Some Memories of the Life of Job, the Son of the Solomon High Priest of Boonda in Africa; Who was enslaved about two Years in Maryland; and afterwards being brought to England, was set free, and sent to his native Land in the Year 1734 . London: Richard Ford, 1734.

– Painter, Nell Creating Black Americans: African-American History and its Meanings, 1619 to Present, Oxford, 2005. 

Victor Peixoto

Digital influencer, startuper e produtor de conteúdo com impacto em mais de 200 mil pessoas por mês. Estudante da história e religião Islâmica, falante de árabe, inglês e espanhol.

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