História Islâmica

Al-Ghazali & Descartes: Teria o teólogo persa influenciado o fiolósofo francês?

Texto de: Mustapha Itani

René Descartes (1596-1650), foi um filósofo, matemático e cientista francês, considerado como o “pai da filosofia moderna”. Como esse título diz, René Descartes é considerado um dos mais influentes filósofos de todos os tempos, devido às suas contribuições para a filosofia Ocidental e sua ruptura com a tradicional filosofia Escolástica-Aristotélica muito difundida em seus dias. Mas será que as ideias de Descartes foram originais?

Eu argumento nesse artigo que Descartes foi amplamente influenciado por pensadores muçulmanos, principalmente por Abu Hamid al-Ghazali (1056-1111), o grande jurista, teólogo, filósofo e místico persa.

A questão da influência de al-Ghazali em Descartes já chamou a atenção anteriormente para vários acadêmicos. Por exemplo na obra A History of Muslim Philosophy (Uma História da Filosofia Muçulmana, 1963), M.M Sharif menciona uma variedade de semelhanças. Embora, segundo ele, não há evidência direta de que a obra Libertação de al-Ghazali tenha sido traduzida para o Latim no período de Descartes, afirmando que o “paralelo notável” entre essa obra e o Discurso sobre o Método de Descartes “é impossível de negar a influência”.

Também Catherine Wilson discorreu sobre o tópico na sua contribuição ao mais recente História da Filosofia Islâmica (1996), onde ela cita V.V. Naumkin (1987) como afirmando uma prova histórica de que de fato Descartes leu al-Ghazali.

Agora vamos adentrar em algumas das ideias filosóficas mais proeminentes de Descrates.

A essência da filosofia de Descartes é que “devemos tomar o maior cuidado em não admitir qualquer coisa como verdadeira se não podemos prova-la como sendo verdade”. Então, para ter uma base sólida e firme, Descartes duvidou de  tudo o que fosse possível, acabando por duvidar de dados sensoriais e ideias provenientes da razão.

Descartes defendia que o escopo total do senso de percepção poderia ser duvidado, devido à razão de que o que é apresentado aos seres humanos pelos seus sentidos podem ser tão insubstanciais quanto os sonhos, ilusões e alucinações.

Descartes argumentava que a fonte dessas apresentações insubstanciais pode ser um demônio com o propósito de enganar os humanos, e não de um deus bondoso. Agora até a existência de Deus poderia ser duvidada. Mas como Descartes supera essa grande dúvida? Ele sustentou que a única coisa que ele não poderia duvidar, era que de fato ele duvidava. Ainda continuou afirmando que duvidar é pensar, mas ele não pode pensar se ele não existe. Descartes explica no seu ‘Discurso Sobre o Método’:

Eu vi…de que pelo mero fato de que eu pensei em duvidar da verdade de outras coisas, isso sucedeu quase que inevitável e certamente de que eu existia.”

Ele continua na parte quatro do Discurso:

Mas imediatamente após isso eu observei que, enquanto desejava pensar que tudo era falso, era absoluto que eu, que portanto pensava, deveria ser algo conforme eu observava que isso era verdade, eu penso logo sou, era tão certo de tal evidência que nenhum grau de dúvida, independente de quão extravagante pudesse ser alegado pelos céticos seria capaz de abalar isso, eu conclui que eu talvez, sem escrúpulo, aceitasse isso como o primeiro princípio da filosofia da qual eu estava em busca.”

Então agora Descartes havia estabelecido o fundamento de sua filosofia, que pode ser resumida na famosa frase em latim, Cogito ergo sum (Penso, logo existo). Descartes continua a examinar sua própria natureza e a natureza das outras coisas após estabelecer que ele certamente existe, o que o levou a estabelecer sua teoria do dualismo, conhecido hoje como dualismo Cartesiano.

Descartes estabelece que a mente e o corpo são distintos e, portanto, separáveis. Ele explica que a mente é uma substância pensante e que não depende de nada além de Deus, e que o corpo é um tipo diferente de substância porque depende de outras coisas além de Deus.

Nas Meditações de Descartes, vários temas e ideias são apresentados, os quais são principalmente centrados em torno da essência e da existência da matéria, o eu e Deus. E a partir dessas ideias, várias questões devem ser examinadas, o método da dúvida e do ceticismo, do dualismo e da existência de Deus.

Agora vamos discutir a originalidade dessas ideias “cartesianas”. Provavelmente, a representação mais abrangente do pensamento amadurecido de al-Ghazali pode ser encontrada em sua magnum opus, Reavivamento das Ciências Religiosas. Em seu resumo persa do Reavivamento, Alquimia da Felicidade, é dividido em quatro seções que tratam do conhecimento de si mesmo, conhecimento de Deus, conhecimento do mundo como ele realmente é e conhecimento do próximo mundo como realmente é.

Isso é um paralelo muito próximo à ordem dos tópicos tratados por Descartes em suas Meditações sobre a Filosofia Primeira, com a exceção de que qualquer seção sobre ‘conhecimento do próximo mundo como ele realmente é’ está faltando, e que, antes de ‘conhecimento de si mesmo, ‘que é tratada na segunda meditação, Descartes aborda na primeira meditação a questão do conhecimento em si.

Uma discussão comparável muito mais clara deste último tópico ocorre não na Alquimia, mas no início da Libertação do Erro, de uma maneira surpreendentemente semelhante tanto em estrutura quanto em conteúdo à discussão de Descartes na Primeira Meditação.

Em seu livro Libertação do Erro, al-Ghazali reflete sobre sua jornada do ceticismo à fé. Estudos anteriores interpretaram este texto como uma antecipação das posições cartesianas em relação à certeza epistêmica.

Nesse relato autobiográfico, al-Ghazali primeiro alcançou o ceticismo absoluto e duvidou das evidências sensoriais, uma vez que muitas vezes enganavam. No início, ele começou suspendendo temporariamente a autoridade em questões de fé e rejeitou a tradição (taqlid). al-Ghazali examinou todas as suas cognições e estava completamente vazio de qualquer conhecimento. Ele também comparou o estado de vigília consciente com o estado de sonho, al-Ghazali explica ainda:

“Você não vê que quando está dormindo você acredita em certas coisas e imagina certas circunstâncias e acredita que elas são fixas e duradouras e não tem dúvidas sobre esse ser o status delas? Então você acorda e sabe que todas as suas imaginações e crenças eram infundadas e insubstanciais.”

Então, al-Ghazali referencia a visão de uma estrela para a ilusão dos sentidos. Quando olhamos para uma determinada estrela, parece-nos não ser maior do que uma moeda, mas na realidade é maior do que a própria Terra. Nós descobrimos isso, pelo poder do intelecto, por meio de cálculos geométricos. Mas al-Ghazali então duvida até mesmo das verdades matemáticas e lógicas, uma vez que elas também podem ser enganosas.

Aqui podemos ver as semelhanças impressionantes entre a dúvida cartesiana e a metodologia al-Ghazaliana. Descartes também rejeitou a autoridade e o costume e confiou apenas em seu próprio raciocínio. Então, como al-Ghazali, ele também duvidou dos dados sensoriais, devido à sua capacidade de enganar. Descartes pergunta: e as coisas que percebemos claramente, como nosso estado de vigília ou o fogo em frente ao qual estamos sentados? Descartes também usou o exemplo do sonho aqui para mostrar a capacidade dos sentidos de enganar.

Por fim, Descartes, como al-Ghazali, também duvidou de verdades essenciais e matemáticas ao levantar a seguinte questão:

    “Uma vez que julgo que outros às vezes cometem erros em questões que acreditam conhecer melhor, não posso, da mesma forma, ser enganado cada vez que somar dois e três ou contar os lados de um quadrado, ou realizar uma operação ainda mais simples, se pode ser imaginado.”

Agora vamos examinar a alma na metafísica al-Ghazaliana. Al-Ghazali distinguia corpo e alma, segundo ele, a alma do ser humano origina-se diretamente de Deus e por isso é imaterial, imortal e mais única do que o corpo ou o resto da própria criação natural. A alma, portanto, ocupa um papel central na metafísica al-Ghazaliana. Sem a alma, o corpo não está completo e não pode funcionar, afirma al-Ghazali:

“O corpo está sujeito à dissolução, pois foi sujeito a ser composto de matéria e forma, o que está estabelecido nos livros. E de… versos e tradições e provas intelectuais viemos a saber que o espírito [a alma] é uma substância simples, perfeita, tendo vida em si mesma, e dela deriva o que faz o corpo soar ou o que o corrompe.”

Para al-Ghazali, o ser humano é alma e corpo, ele é ao mesmo tempo um ser físico e um espírito, e a alma governa o corpo. Mas esta natureza dual dos seres humanos não implica necessariamente um dualismo, uma vez que a alma e o corpo são dois aspectos de uma mesma entidade. Para ele, a alma e o corpo são interdependentes.

Agora vou mostrar algumas passagens das duas grandes obras de al-Ghazali e Descartes, Libertação do Erro e Meditações, em paralelo nas quais as semelhanças entre os dois são impressionantes:

    (Libertação do Erro)

“Por quase dez anos, cultivei assiduamente a reclusão e a solidão. Durante aquele tempo, vários pontos tornaram-se claros para mim, por necessidade e por razões que não posso enumerar – ora por experiência frutífera, ora por conhecimento baseado em prova apodítica, e novamente por aceitação fundada na fé. Esses pontos eram que o homem é formado por um corpo e um coração.”

    (Meditações)

“Vários anos já se passaram desde que eu percebi quão numerosas eram as falsas opiniões que em minha juventude eu considerava verdadeiras e, portanto, quão duvidosas eram todas aquelas que eu posteriormente construí sobre elas. E assim eu percebi que uma vez na minha vida eu tinha que derrubar tudo até o chão e começar de novo desde os fundamentos originais, se eu quisesse estabelecer algo firme e duradouro nas ciências. Mas a tarefa parecia enorme e eu estava esperando até chegar a um ponto da minha vida que era tão oportuno que não chegaria o momento mais adequado para empreender esses planos de ação.”

    (Libertação do Erro)

“Comecei então dizendo a mim mesmo: “O que busco é o conhecimento do verdadeiro significado das coisas. Por necessidade, portanto, devo investigar exatamente qual é o verdadeiro significado do conhecimento. ” Então ficou claro para mim que o conhecimento certo é aquele em que a coisa conhecida é tornada tão manifesta que nenhuma dúvida se apega a ela, nem é acompanhada pela possibilidade de erro e engano, nem pode a mente sequer supor tal possibilidade.”

    (Meditações)

“Devo reter meu consentimento com não menos cuidado de opiniões que não são completamente certas e indubitáveis ​​do que eu faria com aquelas que são patentemente falsas. Por isso, bastará para a rejeição de todas essas opiniões, se eu encontrar em cada uma delas algum motivo de dúvida.”

    (Libertação do Erro)

“Eu então examinei todas as minhas cognições e me descobri desprovido de qualquer conhecimento que respondesse à descrição anterior, exceto no caso dos dados dos sentidos e das verdades evidentes por si mesmas. Então eu disse: “Agora que o desespero se abateu sobre mim, a única esperança que tenho de adquirir um discernimento sobre questões obscuras é começar com coisas que são perfeitamente claras, ou seja, os dados dos sentidos e as verdades evidentes.”

(Meditações)

“Mas pelo menos eles contêm tudo que eu entendo de forma clara e distinta. Em primeiro lugar, sei que todas as coisas que compreendo clara e distintamente podem ser feitas por Deus da forma como eu as entendo.”

(Libertação do Erro)

“Com grande seriedade, portanto, comecei a refletir sobre meus dados dos sentidos para ver se conseguia duvidar deles. Esse esforço prolongado para induzir a dúvida finalmente me trouxe ao ponto em que minha alma não me permitia admitir a segurança do erro, mesmo no caso de meus dados dos sentidos. Em vez disso, começou a ficar aberto a dúvidas sobre eles e a dizer: “De onde vem a sua confiança nos dados dos sentidos? “

(Meditações)

“Mas agora, tendo começado a ter um melhor conhecimento de mim mesmo e do autor de minha origem, sou da opinião que não devo admitir precipitadamente tudo o que pareço derivar dos sentidos, mas também não devo chamar tudo em dúvida.”

(Libertação do Erro)

“O mais forte dos sentidos é o sentido da visão… A visão também olha para uma estrela e a vê como algo pequeno, do tamanho de um dinar; então as provas geométricas demonstram que ele ultrapassa o tamanho da Terra.”

(Meditações)

“Mas talvez mesmo que os sentidos às vezes nos enganem quando se trata de coisas muito pequenas e distantes.”

(Libertação do Erro)

“Então, os dados dos sentidos se manifestaram: “Que garantia você tem de que sua confiança nos dados racionais não é como sua confiança nos dados dos sentidos? Na verdade, você costumava ter confiança em mim. Então o juiz da razão veio e me contou a mentira. Mas se não fosse pela razão-juiz, você ainda me aceitaria como verdadeiro. Portanto, pode haver, além da percepção da razão, outro juiz. E se este se revelasse, desmentiria os juízos da razão, assim como o juiz-razão se revelou e desmentiu os juízos do sentido. O mero fato do não aparecimento dessa percepção adicional não prova a impossibilidade de sua existência. ”

(Meditações)

“Ainda assim, existem muitos outros assuntos sobre os quais simplesmente não podemos duvidar. Pois, quer eu esteja acordado ou dormindo, dois mais três são cinco.”

(Libertação do Erro)

“Por um breve espaço, minha alma hesitou sobre a resposta a essa objeção, e os dados dos sentidos reforçaram sua dificuldade com um apelo ao sonho, dizendo: “Você não vê que quando está dormindo você acredita em certas coisas e imagina certas circunstâncias e acredita nelas como sendo fixas e duradouras e não têm dúvidas sobre esse ser o seu status? Então, você acorda e sabe que todas as suas imaginações e crenças eram infundadas e inconsistentes. Assim, embora tudo em que você acredita através da sensação ou intelecção em seu estado de vigília possa ser verdadeiro em relação a esse estado, que garantia você tem de que não pode de repente experimentar um estado que teria a mesma relação com seu estado de vigília que este último tem com seu sonhando, e seu estado de vigília seria sonhar em relação a esse novo e posterior estado? ” Se você se encontrasse em tal estado, teria certeza de que todas as suas crenças racionais eram fantasias sem substância.”

(Meditações)

“Vamos supor então, para fins de argumentação, que estamos sonhando e que detalhes como esses não são verdadeiros: que estamos abrindo nossos olhos, movendo nossa cabeça e estendendo nossas mãos. Consequentemente, suponho não um Deus extremamente bom, a fonte da verdade, mas sim um gênio do mal, extremamente poderoso e inteligente, que direcionou todo o seu esforço para me enganar. Além disso, encontro-me faculdades para certos modos especiais de pensamento, ou seja, as faculdades de imaginação e sensibilidade. Posso me compreender clara e distintamente em minha totalidade sem essas faculdades, mas não vice-versa: não posso entendê-las clara e distintamente sem mim, isto é, sem uma substância dotada de compreensão na qual são inerentes, pois incluem um ato de compreensão em seu conceito formal.”

Agora, é possível que Descartes teve contato direto com as obras de al-Ghazali? Embora atualmente não seja possível determinar que Descartes leu definitivamente al-Ghazali, é um fato que traduções de suas obras estavam disponíveis para os europeus durante os séculos XVI e XVII, portanto, não pode ser descartado. Uma análise cuidadosa da filosofia cartesiana revela que muitas de suas idéias parecem ter sido influenciadas pela filosofia árabe ou teologia islâmica.

O método da dúvida de Descartes é notavelmente semelhante ao de al-Ghazali. Al-Ghazali e Descartes têm semelhanças em sua razão e maneira de duvidar, seu uso da dúvida para estabelecer um fundamento epistemológico sólido, seu apelo à divindade para garantir esse fundamento e sua afirmação de que esse fundamento não está sujeito a prova ou demonstração, mas sim é imediatamente percebido.

A influência da filosofia islâmica na filosofia ocidental é amplamente reconhecida hoje. No entanto, a natureza exata dessa influência não foi totalmente explorada até o momento. E por causa disso, a influência de al-Ghazali no pensamento europeu moderno não foi totalmente valorizada até agora.

Fonte: t.ly/MO0k

Equipe História Islâmica

O História Islâmica é uma iniciativa com mais de meia década de existência, que visa preencher uma importante lacuna no conhecimento popular: a consciência do legado muçulmano. Sendo a maior página de seu gênero em língua portuguesa, buscamos sempre nos atualizar em pesquisas para trazer um conteúdo de qualidade ao nosso público.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo
Fechar