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A Botânica Medieval Islâmica

O lugar da botânica islâmica e o seu papel na medicina da civilização humana foram alvo de grande interesse na obra de cientistas que, nos dias de hoje, são muito possivelmente as principais autoridades no assunto: Bashar Saad e Omar Said. O trabalho pioneiro desses dois estudiosos e de alguns de seus colegas nos fez conhecer ou, mais precisamente, resultou no ressurgimento de um interesse mundial na vasta contribuição dos herbalistas e botanólogos muçulmanos e no fato de que, no trabalho desses botanistas, é preservado um vasto repertório de informações que podem nos ajudar na cura de muitas doenças. Eles nos lembram que na região do Oriente Médio, há cerca de 2600 espécies conhecidas de plantas – 200 a 250 delas ainda são usadas no tratamento e na prevenção de muitas doenças.

O número de substâncias derivadas de plantas que são usadas como ingredientes de remédios tradicionais é de cerca de 286. Os resultados de uma pesquisa abrangente indicam que cerca de 129 espécies de plantas ainda são utilizadas no tratamento de muitas doenças humanas como o câncer, doenças de pele, distúrbios respiratórios e digestivos, diabetes e doenças do fígado. Algumas das partes utilizadas são as folhas, as flores, os caules, as raízes, as sementes e as bagas.

Acrescentar ao trabalho desses estudiosos vai além do objetivo deste texto. A leitura da obra deles é necessária para toda mente curiosa. O que pode ser dito aqui é que eles são perpetuadores de tradições – tradições que começaram a mais de mil anos atrás. Um dos primeiros pesquisadores, talvez o primeiro, sobre o assunto dessas tradições foi al-Dinawari.

O botânico Abu Hanifa al-Dinawari (m 895 e.c.) viveu na Andaluzia, a Espanha islâmica. Seu trabalho foi popularizado pelo estudioso alemão Silberberg, numa tese publicada em Breslau em 1908, que continha a descrição de cerca de 400 plantas. No entanto, o que Silberberg descreveu é apenas uma pequena parte de toda a obra preservada – dois volumes de um total de seis.

Os volumes preservados desse livro, que era constituído originalmente de 7 volumes, demonstram claramente o tanto e quão rapidamente o conhecimento da botânica, que era cultivado pelos gregos, poderia se desenvolver de maneira completamente independente deles entre os fitólogos muçulmanos antes do final do século IX.

Num trabalho sobre a terra, Al-Dinawari descreve uma variedade de solos, indicando quais eram apropriados para o plantio, suas propriedades e qualidades. Al-Dinawari também descreve o desenvolvimento das plantas do nascimento até a morte – as fases do crescimento e o desenvolvimento da flor e dos frutos. Ele então descreve vários tipos de plantações: cereais, vinhas e tamareiras. Citando seus predecessores, ele também descreve árvores, montanhas, planícies, desertos, plantas e madeiras aromáticas, plantas usadas em tinturas, o mel e as abelhas. 

Al-Dinawari também dedicou um capítulo para classificar as plantas (tajnis al-nabat), que ele menciona em um dos volumes sobreviventes, mas o volume com esse conteúdo foi perdido. O Livro das Plantas de Al-Dinawari também cobre muitos outros assuntos, como a astronomia e a meteorologia. Seu livro faz uso habilidoso de uma terminologia botânica científica.

Ele conhece muitas expressões especializadas para as diversas características das plantas que, num leitor não tendencioso, trazem a impressão de que eram parte de uma nomenclatura científica elaborada com a precisão em vista. Ele demonstra uma atitude avançada científico-morfológica, familiaridade com a observação e com a descrição de aspectos fisiológicos e ilustra formatos complexos nas plantas, fazendo comparações com formatos mais familiares.

É interessante citar uma passagem muito pertinente de Sezgin, que destaca algumas das abordagens aos feitos islâmicos. Ele nota:

Um estudo conduzido entre 1910 e 1911 por Bruno Silberberg, exclusivamente baseado em fragmentos deste livro, presentes em dicionários posteriores a ele, demonstra que as descrições botânicas de Abu Hanifa são iguais às presentes em Materia medica, por Dioscorides. As descrições elaboradas por Dioscorides tinham uma motivação diferente das do Kitāb an-Nabāt de Abu Hanifa. O propósito das descrições de Dioscorides era ajudar o leitor a identificar as plantas em campo, ou seja, um propósito puramente prático, enquanto as descrições de Abu Hanifa aparentam ter sido inspiradas por um deleite na multiplicidade das variedades das morfologias das plantas. Naquele tempo, Silberberg ainda questionaria: “Como o povo muçulmano pode alcançar nesse assunto o nível admirável dos gregos, ou mesmo ultrapassá-los, neste período que era a infância de sua literatura?”

Como começamos com Bashar Saad e Omar Said, concluímos esse breve texto citando uma questão muito importante que eles trouxeram à tona com seu colega, Hassan Azaizeh:

Apesar do uso cada vez mais difundido das plantas medicinais, aparentemente, o futuro delas é ameaçado pela complacência no que diz respeito à sua preservação. As plantas medicinais no oriente médio estão cada vez mais raras, o que é resultado da destruição do seu habitat natural, do colhimento desenfreado das espécies silvestres e das mudanças climáticas. Portanto, a previsão é de que, numa região semiárida como a do Oriente Médio, uma grande quantidade de espécies desaparecerá nos próximos 10 anos, principalmente nos desertos ou em áreas secas, onde cerca de um terço das plantas nativas se encontram, a menos que medidas de emergência para a proteção e preservação delas sejam adotadas. Isso é quase um paradoxo, numa época em que cresce o interesse mundial em remédios herbais e aumenta o foco dos laboratórios na investigação das propriedades farmacológicas dos ingredientes bioativos e da eficácia deles no tratamento de muitas doenças.

Fonte: https://muslimheritage.com/al-dinawari/

Victor Peixoto

Digital influencer, startuper e produtor de conteúdo com impacto em mais de 200 mil pessoas por mês. Estudante da história e religião Islâmica, falante de árabe, inglês e espanhol.

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