A ética militar islâmica à luz do Alcorão

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A distinção entre inimigos militares hostis a serem combatidos e liberdade religiosa contrária às conversões forçadas de populações conquistadas sempre foi uma máxima islâmica, expressa principalmente nas ordens do Alcorão:

“Não há imposição quanto à religião, porque já se destacou a verdade do erro.” (Alcorão 2:256)

“Porém, se teu Senhor tivesse querido, aqueles que estão na terra teriam acreditado unanimemente. Poderias então tu forçar os humanos a que fossem fiéis?” (Alcorão 10:99)

“Dize-lhes: A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser.” (Alcorão 18:29)

“Diga: “Ó descrentes, Eu não adoro o que você adora. Nem são adoradores do que adoro. Nem eu vou ser um adorador do que você adora. Também não serão adoradores do que adoro. Para você é a sua religião, e para mim é minha religião”. (Alcorão 109:1-6)

“Convida ao caminho do teu Senhor com sabedoria e uma bela exortação; dialoga com eles de maneira benevolente, porque teu Senhor é o mais conhecedor de quem se desvia da Sua senda, assim como é o mais conhecedor dos encaminhados”. (Alcorão 16:125)

As relações cordiais e elogiosas com membros de outras comunidades religiosas também são repetidas no Livro Sagrado:

“Constatarás que aqueles que estão mais próximos do afeto dos muçulmanos são os que dizem: ‘Somos cristãos!’, porque dentre eles há sacerdotes e monges que não se ensoberbecem de coisa alguma”. (Alcorão 5:82)

“E também aceitamos a promessa daqueles que disseram: ‘Somos cristãos!’” (Alcorão 5:14)

“E eles não são todos a mesma coisa; dentre o Povo do Livro (judeus e cristãos) há um grupo que se mantém recitando os versículos de Allah à noite e se prostrando. Eles acreditam em Allah e no último dia, comandam o bem e proíbem o mal, e se apressam em fazer boas obras. E estes estão entre os piedosos. E qualquer bem que eles façam não lhes será negado de volta, e Allah é bem conhecedor dos tementes.” (Alcorão 3:113-115)

“Os crentes, os judeus, os cristãos e os sabeus, enfim todos os que creem em Deus, no Dia do Juízo Final, e praticam o bem, receberão a sua recompensa do seu Senhor e não haverá medo sobre eles, nem ficarão tristes.” (Alcorão: 2:62)

Missionários cristãos chegaram a ir a Medina e assediar muçulmanos a apostasia:

“Al-Suddi disse: “Este versículo, ‘não há imposição quanto à religião’, foi revelado sobre um homem dos Auxiliadores (al-Ansar) chamado Abu’l-Husayn. Ele tinha dois filhos. Aconteceu que alguns comerciantes da Síria vieram a Medina para vender óleo. Quando os comerciantes estavam prestes a deixar Medina, os dois filhos de Abu’l-Husayn os chamaram para abraçar o cristianismo. Esses comerciantes se converteram ao cristianismo e então deixaram Medina. Abu’l Husayn informou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe dê paz, do que havia acontecido. Ele pediu que ele convocasse seus dois filhos. Mas então Allah, exaltado seja Ele, revelou: ‘não há imposição quanto à religião.’” (Asbab al-Nuzul, al-Wahidi)

“Um homem dos Ansar, dos Banu Salim-Banu Awf, tinha dois filhos que haviam se convertido ao cristianismo antes do advento do Profeta, ﷺ. Após isso, estes dois filhos vieram junto com um grupo de cristãos para negociar viveres em Medina. Seu pai foi até eles e se recusou a deixar que partissem, dizendo, “Por Allah, não vou lhes deixar até que se convertam ao Islã!”, eles se recusaram a tornarem-se muçulmanos, então todos se dirigiram ao Mensageiro de Allah, para resolver a disputa. O pai se dirigiu ao Profeta ﷺ dizendo: “Ó Mensageiro de Allah! Como posso deixar que parte de mim entre no Inferno enquanto fico sentado assistindo!”, então Allah, Majestoso é e Exaltado seja, revelou o versículo: ‘não há imposição quanto à religião.’ (Masruq ibn al-Ajda – m. 682 – Asbab al-Nuzul, al-Wahidi)

Durante a sua vida, o Profeta Muhammad deu várias injunções às suas forças e adotou práticas para a condução da guerra. As mais importantes destas instruções foram resumidas pelo seu companheiro mais próximo, sogro e primeiro califa, Abu Bakr no trato dos mosteiros que seu exército encontrasse: “É provável que passem por pessoas que dedicaram suas vidas a serviços monásticos; deixem eles em paz” (Tarikh al-Tabari). 

Injunções atribuídas ao Profeta Muhammad sugerem que ele afirmou o seguinte sobre a conquista muçulmana do Egito que eventualmente ocorreu após sua morte em 642: “Vocês irão entrar no Egito onde a qirat (unidade monetária) é usada. Sejam extremamente bondosos com eles, pois eles têm laços estreitos conosco e relacionamentos matrimoniais (uma das mulheres do profeta era egípcia, com a qual teve um filho). Quando vocês entrarem no Egito após a minha morte, recrutem muitos soldados dentre os egípcios porque eles são os melhores soldados da Terra, pois eles e suas esposas estão permanentemente em serviço até o Dia da Ressurreição. Sejam bons para os coptas do Egito; irão conquistá-los, mas eles serão o vosso instrumento e auxílio. Sejam justos para com Deus sobre os coptas”.

Esses princípios foram confirmados por Amr ibn al-‘As durante sua conquista do Egito. Um cristão contemporâneo no século VII, João de Nikiû, afirmou o seguinte sobre a conquista de Alexandria por ‘Amr: “No dia 20 de Maskaram, Teodoro e todas as suas tropas e oficiais partiram e seguiram para a ilha do Chipre, e abandonaram a cidade de Alexandria. E então Amr, o chefe dos muçulmanos, entrou sem esforço na cidade. E os habitantes o receberam com respeito; porque estavam em grande tribulação e aflição. E Abba Benjamin, o patriarca dos egípcios, retornou à cidade de Alexandria no décimo terceiro ano após sua fuga dos bizantinos, e foi às Igrejas e inspecionou todas elas. E todos diziam: “Esta expulsão (dos bizantinos) e vitória dos muçulmanos é devida à impiedade do imperador Heráclio e sua perseguição aos ortodoxos através do patriarca Ciro”. Esta foi a causa da ruína dos bizantinos e da subjugação do Egito pelos muçulmanos. E Amr ficou mais forte a cada dia em todos os campos de sua atividade. E ele exigiu os impostos que haviam sido determinados, mas ele não tomou nenhuma das propriedades das Igrejas, e não cometeu nenhum ato de espoliação ou pilhagem, e as preservou durante todos os seus dias”.

No livro “The Great Arab Conquests”, Hugh Kennedy escreve que Cyrus, o governador bizantino do Egito, expulsou o patriarca copta Benjamim I para o exílio. Quando as forças árabes lideradas por Amr Ibn al-As tomaram Alexandria, um nobre copta chamado Sanutius o persuadiu a enviar uma proclamação de salvo conduto para Benjamin e um convite para retornar a Alexandria. Quando chegou, depois de treze anos de exílio, o general árabe Amr tratou o patriarca com respeito. Ele foi instruído pelos muçulmanos a retomar o controle sobre a Igreja Copta, e logo providenciou a restauração dos mosteiros no Oásis de Natrun, que haviam sido arruinados pelos cristãos calcedonianos (tais mosteiros ainda estão em pleno funcionamento hoje, após mais de mil anos de Islã):

“Benjamin também estabeleceu boas relações com Amr. Logo após a queda de Alexandria, Amr se preparou para partir em sua expedição à Líbia. Ele fez um pedido a Benjamin: “Se você orar por mim para que eu vá para o oeste e as Cinco Cidades e tome posse delas como fiz com o Egito e retorne em segurança e rapidamente, farei tudo o que você me pedir”. O piedoso biógrafo, então, nos apresenta a imagem impressionante do patriarca orando pelo sucesso do comandante muçulmano contra os habitantes (cristãos) da Cirenaica”. (…) Ele também tem uma boa imagem nas fontes coptas. Já vimos como o biógrafo de Benjamin descreve as boas relações que Amr tinha com seu herói. Ainda mais impressionante é o veredito de João de Nikiu. João não era admirador do governo muçulmano e era feroz em sua denúncia do que via como opressão e abuso, mas ele diz sobre Amr: “Ele exigiu os impostos que haviam sido determinados, mas não tomou nenhuma propriedade das igrejas, e não cometeu nenhum ato de espoliação ou pilhagem, e os preservou durante todos os seus dias”. (Hugh Kennedy, 2007, “The Great Arab Conquests How the Spread of Islam Changed the World We Live In. Hugh Kennedy”, pg. 164-165).

Podemos ver o mesmo quadro colocado por outras fontes cristãs:

“Ele (o califa Muawiya I) se tornou rei, controlando ambos os reinos dos persas e dos bizantinos. A justiça floresce em sua época, e houve grande paz nas regiões sob seu controle. Ele permitiu que todos vivessem como desejassem”. (João bar Penkâye, 687 d.C)

“Pois também estes árabes não somente não são inimigos do cristianismo, como são eles mesmos louvadores de nossa fé, honradores dos padres de Nosso Senhor, e auxiliadores das igrejas e monastérios”. (Ishoyahb II de Adiabene, r. 649-659)

“Quando Ele (Deus) viu que a medida dos pecados dos bizantinos tinhas transbordado, atiçou os filhos de Ismael (os árabes) e os tirou de sua terra natal no sul. Entretanto, foi por realizar um tratado com eles que conseguimos nossa libertação. Não foi ganho desprezível sermos libertados do reino tirânico dos bizantinos”. (Dionísio de Tell-Mahre, 818 d.C)

“Eles não perguntavam sobre profissão de fé”, escreveu o historiador do século XII Miguel, o Sírio, “nem perseguiam ninguém em função de sua profissão, como faziam os gregos, uma nação herética e perversa.”

“Devido à perseguição por parte do Estado, a Igreja Ortodoxa Síria na Síria teve de operar na clandestinidade durante algum tempo. Desenvolveu-se principalmente nos mosteiros e nas áreas rurais; por razões de segurança, os seus patriarcas tiveram frequentemente que mudar de residência. Estas circunstâncias de emergência ajudam a explicar por que é que a maioria dos sírios acolheu primeiro os exércitos sassânidas e depois os exércitos árabes como libertadores. Nas palavras de uma oração de pouco depois de 630: ‘Deus, Tu vês a malícia dos bizantinos, que por toda parte governam, saqueiam cruelmente nossas igrejas e mosteiros e nos condenam impiedosamente, conduza os filhos de Ismael [os árabes] até nós do sul para nos libertar das mãos dos bizantinos!” (Cristoph Braumer, 2006, “The Church of the East: An Illustrated History of Assyrian Christianity’’, pg 100)

Heráclito e os bizantinos tinham readquirido dos persas o pleno controle da Terra Santa apenas 10 anos antes da chegada dos muçulmanos. Além disso, muitos cristãos da região eram considerados cismáticos e hereges pelas autoridades ortodoxas em Constantinopla, que os haviam oprimido sem piedade. Essa é uma das razões pelas quais alguns dos relatos cristãos apresentam pontos de vista conflitantes da conquista muçulmana. Eram os ortodoxos que em geral amaldiçoavam com mais ferocidade os muçulmanos, que não eram universalmente considerados inimigos irreconciliáveis por todas as comunidades cristãs.

“No Levante, grande parte da população árabe cristã logo se converteu ao islamismo. A nova fé era atraente:

A principal atração do Islã era sua praticabilidade: aparentemente, não exigia esforços sobre-humanos (….) O Oriente cristão às vésperas da conquista islâmica havia esquecido as limitações na natureza humana. Muitos membros da Igreja desejavam imitar os anjos: daí os movimentos em massa para a vida assexuada de monges e freiras; daí o êxodo das cidades e aldeias para o deserto; daí os atos de automortificação, que mostravam até que ponto os homens podiam sujeitar seus corpos aos ditames do espírito. Alguns desses ascetas orientais só dormiam de pé; outros enclausuravam-se em celas escuras ou viviam no alto de colunas, ou comiam apenas ervas, e, mesmo esses, não mais do que uma vez por semana.

O Islã pôs fim a todos esses excessos. Aboliu o exagerado medo do sexo, rejeitou o ascetismo, baniu o medo do inferno para os que não conseguiam atingir a perfeição, e extinguiu a inquirição teológica (…). O Islã era como a areia do deserto (…). Criava um senso de solidariedade e fraternidade que se perdera entre os contendores cristãos.

Não é de se surpreender que, desde os primeiros dias da Conquista islâmica, a hierarquia ortodoxa, o braço espiritual do poder político bizantino, visse os muçulmanos como uma ameaça sem par.” (Andrew Wheatcroft, ”Infiéis – O Conflito entre a Cristandade e o Islã”, pgs 77, 78,79).

Bibliografia:

WHEATCROFT, Andrew. Infiéis: O Conflito entre a Cristandade e o Islã. Imago, 2005.

BRAUMER, Cristoph. The Church of the East: An Illustrated History of Assyrian Christianity. I.B. Tauris, 2016.

KENNEDY, Hugh. The great Arab conquests: how the spread of Islam changed the world we live in. Da Capo Press, 2008.

WĀḤIDĪ, Abu-’l-Ḥasan ʿAlī Ibn-Aḥmad al-. Al-Wāḥidī’s Asbāb al-nuzūl. Trad. Mokrane Guezzou. Louisville, KY: Fons Vitae, 2008. (Great commentaries on the Holy Qurʾan̄, volume 3).

ṬABARĪ; DONNER, Fred McGraw; ṬABARĪ. The conquest of Arabia. Albany: State University of New York Press, 1993. (SUNY series in Near Eastern studies, v. 10).

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