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Após três séculos de saques e devastação por muitos invasores , a antiga cidade ibérica de Ulixbona (a futura Lisboa) não era mais de que uma pequena vila no inicio do século VIII. No ano da conquista islâmica em 711, a parte ocidental da Península fora tomada por Abdul Aziz, um dos filhos de Tariq Ibn Ziyad e a cidade junto com ela 714.

Os muçulmanos renomearam-a de “al-Us̲h̲būna”, e a transformaram em um grande posto comercial e administrativo do “Al-Gharb”, a província mais ocidental do mundo muçulmano. Sob julgo islâmico, Lisboa passou a intercambiar comercialmente com todo o Mediterrâneo islamizado e além, e produtos vinham particularmente do Marrocos, Tunísia, Egito, Síria e Iraque. De acordo com fontes contemporâneas, a cidade tornou-se uma das maiores da Europa, muito maior que Paris ou Londres que no mesmo período não tinham muito mais de que cincou ou dez mil habitantes cada. 

O cronista Almunime Al-Himiar descreve Lisboa com requinte :

“É uma cidade à beira-mar, com ondas que se quebram de encontro às muralhas, admiráveis e de boa construção. A parte ocidental da cidade é encimada por arcos sobrepostos assentes em colunas de mármore apoiadas em envasamentos de mármore. Por natureza, a cidade é belíssima”.

A maioria dos habitantes hispano-romanos da cidade adotaram a língua árabe e a religião islâmica dos conquistadores muçulmanos, que, apesar de uma minoria entre a população, se tornaram a nova elite. Os membros da população cristã moçárabe tinham seu próprio bispo e eram falantes de árabe, ou uma variedade de latim vulgar. Falar a língua moçárabe, uma língua romântica semelhante à falada na Galiza e nas províncias do norte, foi tolerada pelas autoridades muçulmanas, como um dos direitos de residência que era permitido dhimmi (protegido). Esta comunidade moçárabe, que seguia os ritos hereditários dos cristãos arianos e os costumes dos visigodos, geralmente era condenada ao ostracismo pelos seus compatriotas católicos romanos.

A comunidade judaica, que havia existido desde os primeiros dias da cidade, tornou-se mais influente à medida que os judeus se estabeleceram como comerciantes e ganhavam a vantagem financeira de viver no centro comercial emergente da cidade. Além de sal, peixe e cavalos, nela eram vendidas raras especiarias do Levante, ervas medicinais, frutas secas, mel e peles. Os saqaliba (árabe: saqāliba), escravos da Europa Oriental que serviram de mercenários, juntaram-se à população e também adquiriram uma posição proeminente na sociedade. 

O escravo eslavo Sabur al-Saqlabi (Sabur, o Eslavo) se tornou, durante o que mais tarde seria conhecido como régulo eslavo, governante da Taifa de Badajoz. Ele era filho de Sabur al-Khatib, um eslavo que havia estado ao serviço do califa al-Hakam II. Seus filhos Abd al-Aziz ibn Sabur e Abd al-Malik ibn Sabur governaram sucessivamente como emires da Taifa de Lisboa.

Al-Ushbūna foi renovada e reconstruída no costumeiro padrão das cidades do Oriente Médio: muralhas altas cercavam os edifícios principais, uma grande mesquita, um castelo no topo da colina (que, em forma modificada, se tornou o Castelo de São Jorge), uma medina ou centro urbano, e um alcácer, ou palácio da fortaleza para o governador. O bairro de Alfama cresceu ao lado do núcleo urbano original. A cidadela de al-Madan, agora a cidade de Almada, foi construída na margem sul do Tejo para proteger o porto.

Os árabes e berberes introduziram novos métodos de agricultura irrigada que eram muito mais produtivos que o antigo sistema de irrigação romano. As águas do Tejo e seus afluentes foram utilizadas para irrigar a terra no verão, produzindo várias culturas por ano de vegetais, incluindo alface e laranja.

Lisboa tornou-se parte do califado omíada baseado em Damasco, na Síria, logo após o início do domínio muçulmano na Ibéria. Uma rebelião em curso (740-743) da elite berbere contra os árabes omíadas se espalhou pelo Magreb (Norte de África) e pelo Estreito de Gibraltar para al-Andalus, mas precisava de reforços para derrotar o califado. Quando a dinastia omíada foi finalmente derrubada pela revolução abássida em 750, Abd al-Rahman I, um príncipe omíada de mãe berbere, fugiu da capital em Damasco escapando do massacre de sua família para o norte da África, e de lá para al-Andalus, posteriormente ganhando independência do novo califado abássida alguns anos depois. Lá, na tão longínqua Europa Ocidental ele estabeleceu o Emirado Omíada de Córdoba e Lisboa ficou sob seu domínio.

Com o início da Reconquista, a opulenta al-Ushbūna tornou-se alvo de ataques por parte dos cristãos do norte, que saquearam a cidade primeiro em 796 e em outras ocasiões nos anos seguintes, liderados pelo rei Alfonso II das Astúrias, mas a fronteira entre muçulmanos e cristãos na Ibéria permaneceu no norte do Douro. Em 844 várias dezenas de barcos vikings cruzaram o Mar da Palha no estuário do Tejo. E após um cerco de 13 dias, os escandinavos conquistaram a cidade e o território circundante, mas acabaram recuando diante da resistência contínua da população da cidade liderada por seu governador, Wahb Allah ibn Hazm. Um novo ataque mal sucedido pelos vikings se seguiu em 966.

No início do século 10, várias seitas islâmicas surgiram em Al-Ushbūna e converteram a população hispano-romana. Essas seitas eram uma forma de organização política em revolta contra o sistema hierárquico dos conquistadores muçulmanos que institucionalizavam os obstáculos à sua mobilidade social. A elite, formada por familias que alegavam descendencia do próprio profeta Muhammad ocupavam o topo da piramide social, seguidos pelos árabes de sangue puro, depois os berberes, e, finalmente, os muçulmanos arabizados e os hispano-romanos. 

Vários líderes hispano-romanos subiram ao poder, incluindo Ali ibn Ashra e outros, que alegavam ser profetas ou descendentes de ‘Alī ibn Abī Ṭālib, primo do profeta Muhammad os quais xiitas (que eram uma forte corrente na época) consideram seu primeiro imã. Com seus aliados em outras cidades, eles iniciaram guerras civis contra as tropas árabes sunitas. Em meio a estes distúrbios políticos os mozárabes cristãos e os judeus passaram a ser tratados de forma terrível, às vezes sofrendo perseguições que, embora lamentáveis aos olhos modernos, seriam um reflexo pálido do que os católicos fariam não só contra os muçulmanos e os judeus, mas também contra os próprios cristãos quando reconquistassem a terra.

O rei das Astúrias, Ordonho I, tomou a cidade em 851, assim como Alfonso VI de Leão faria em 1093, quando al-Mutawakkil de Badajoz entregou Al-Ushbūna, Shantarīn (Santarém) e Shintra (Sintra) a Alfonso, mas logo o território foi retomado pelos almorávidas em 1094. 

Com a fragmentação do califado de Córdoba por volta do ano 1000 como resultado de disputas politicas internas, os líderes notáveis de al-Ushbūna oscilavam entre a obediência à Taifa de Badajoz e a de Ishbiliya (Sevilha) e conseguiram manobrar politicamente para obter uma autonomia considerável. Esta situação durou pouco tempo até que o retorno da divisão da Taifa trouxe autonomia e prosperidade para al-Ushbūna. Em 1111, um novo califado pan-hispânico foi estabelecido após uma invasão almorávida vinda dos desertos do Marrocos liderada pelo califa Ali ibn Yusuf. Seu general e sobrinho, Zir ibn Abi Bakr, forçou Lisboa a render-se em 1111 depois de diversas tentativas mal sucedidas, e mais tarde foi parado na região de Tomar por Gualdim Pais, Grão Mestre da Ordem dos Templários. Este novo califado não durou muito, e logo os tempos das taifas divididas e da poderosa al-Ushbūna voltaram. 

Famosa por sua opulência, a captura de Al-Ushbūna traria ao reino de Portugal grande prestígio. Afonso I e suas forças cristãs primeiro tentaram conquistar a cidade em 1137, mas não conseguiram vencer suas muralhas. Em 1140 cruzados que passavam pela região, lançaram outro ataque mal sucedido. De acordo com o cronista anglo-normando, em junho e julho de 1147, uma força mais numerosa de cruzados, constituída por 164 barcos de cruzados ingleses, normados e renos, partiram de Dartmouth, na Inglaterra, para a Terra Santa. 

O mau tempo obrigou os navios a pararem na costa portuguesa no Porto, onde foram convencidos de participar de um novo assalto à cidade. Enquanto as forças portuguesas atacavam por terra, os cruzados, atraídos por promessas de saque para serem levados e prisioneiros a serem resgatados, montaram suas máquinas de cerco, entre elas catapultas e torres, e atacaram tanto por mar como por terra, impedindo a chegada de reforços do sul. Nos primeiros encontros, os muçulmanos mataram muitos cristãos; Isso afetou a moral dos cruzados e ocasionou vários conflitos sangrentos entre os vários contingentes cristãos que tentavam invadir a cidade.

A lenda diz que, depois de muitas tentativas anteriores, o cavaleiro português Martim Moniz liderou um ataque aos portões do castelo e, quando viu que os muçulmanos iriam fechá-los, bloqueou a porta com seu próprio corpo, permitindo que seus companheiros entrassem, sendo esmagado no processo. Com o sucesso do assalto dos cruzados nas muralhas da cidade com máquinas de cerco, os muçulmanos capitularam em 22 de outubro. De acordo com um relato do padre Raol dirigido a Osbert de Bawdsley (Osbernus), alemães de Colônia e flamengos violaram seus juramentos ao rei de Portugal depois de entrar na cidade, saqueando-a. Esses cruzados se comportaram de maneira indecente, roubando o quanto podiam dos muçulmanos e cristãos mozárabes indiscriminadamente, estuprando virgens e até mesmo cortando a garganta do idoso bispo moçárabe de Lisboa. Depois, uma epidemia de peste matou milhares entre as populações mozárabes e muçulmanas.

Este foi o fim de al-Us̲h̲būna.

Bibliografias:

-Barbosa, Pedro Gomes (2004), 1147: Conquista de Lisboa aos Mouros, Lisboa: Tribuna da História.

-Martins Miguel Gomes ( 2017), 1147: A Conquista de Lisboa, Esfera dos Livros

-Runciman, Steven (1952). A History of the Crusades, vol. II: The Kingdom of Jerusalem and the Frankish East, 1100–1187. New York: Cambridge University Press.


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